Qual o problema de transexuais nos esportes femininos?

Bianca Chella
Jun 20, 2019 · 16 min read
Hannah Mouncey, atleta transexual

Os primeiros Jogos Olímpicos se iniciaram na Grécia Antiga. Eram cerimônias de celebrações religiosas que aconteciam a cada quatro anos, marcadas por jogos e lutas em celebração aos Deuses.
A participação feminina era estritamente proibida. O artigo 5° do regulamento de jogos afirmava que as mulheres casadas não podiam assistir a competições, sob pena de morte. A participação não era permitida em função da exclusão feminina da vida pública, cabendo às mulheres somente o papel de ser mãe.
Após Teodósio conquistar a Grécia, no período de domínio romano, as práticas esportivas foram proibidas por serem consideradas comemorações pagãs. Neste período, as mulheres participavam como dançarinas ou acrobatas para divertimento masculino, sem qualquer caráter esportivo.
Os Jogos Olímpicos foram restabelecidos em 1896, na Grécia. Entretanto, para conquistar espaço, as mulheres precisaram lutar incessantemente pelo seu espaço, reivindicando o direito de participarem de cada uma das modalidades, ano após ano.
Os jogos eram considerados local apropriado para representar a figura competitiva do homem, por relacioná-lo com os estereótipos masculinos de força, virilidade, coragem, moralidade e masculinidade, cabendo às mulheres somente coroar os vencedores.
Stamati Revithi, em 1896, promoveu o início do ingresso gradual das mulheres nos jogos, enfrentando os valores morais da época, sendo a primeira mulher a completar o percurso da maratona — dando a última volta do lado de fora do ginásio porque a sua entrada não era permitida — , em 4 horas e meia, superando alguns homens.
Em 1900, falhas na organização do COI (Comitê Olímpico Internacional) permitiram que algumas competições fossem abertas às mulheres, o que acabou por incluir o golfe e o tênis femininos. Isso ocorreu principalmente pois nesses esportes não havia contato físico e eram considerados esteticamente belos, e, portanto, próprios às mulheres.
Gradualmente, o acesso a outras modalidades esportivas foi sendo conquistado. Em 1928, o COI aprovou a inclusão de mulheres nas olimpíadas, mas as reconheceu como atletas olímpicas apenas em 1936. Mesmo assim, elas só passaram a ter direito de participar de todas as modalidades olímpicas em 2012, sendo que fora das Olimpíadas ainda existem esportes praticados exclusivamente por homens.

No dia 28 de outubro de 2003, em Estocolmo, foi convocada uma reunião pela Comissão Médica do COI para discutir a participação de transexuais nos esportes. Nessa reunião, foi decidido que os transexuais que haviam realizado a transição completa antes da puberdade poderiam competir nas categorias do “gênero com o qual se identificassem”, enquanto aqueles que haviam realizado a transição após a puberdade seriam elegíveis para participação em competições caso seguissem as seguintes condições:

  • Alterações anatômicas cirúrgicas completas, incluindo alterações da genitália externa e gonadectomia (remoção do ovário ou dos testículos).
  • Reconhecimento legal pelas autoridades oficiais apropriadas do país de origem.
  • Terapia hormonal administrada de forma verificável e por um período de tempo suficiente para minimizar as vantagens relacionadas ao sexo de nascimento nas competições esportivas.

Na opinião do grupo que realizou a reunião, a elegibilidade deve começar dois anos após o cumprimento das condições estabelecidas.

Consenso de Estocolmo, documento que regulariza a presença de transexuais nos esportes.

Em 2016 foi publicado o novo consenso com as regras atuais. Nas novas regras, homens trans ficaram elegíveis para competir na categoria masculina sem restrições. Para mulheres trans, as alterações foram as seguintes:

  • Após a atleta declarar que sua identidade de gênero é feminina, esta não pode ser alterada, para fins esportivos, por quatro anos.
  • A atleta deve demonstrar que seu nível total de testosterona tem sido inferior a 10 nmol/L durante, pelo menos, 12 meses antes da primeira
    competição (com a exigência de que qualquer período mais longo seja baseado em uma avaliação caso-a-caso confidencial, supondo-se que 12 meses seria um período de tempo suficiente para minimizar qualquer vantagem em competições femininas).
  • O nível total de testosterona da atleta deve permanecer abaixo de 10 nmol/L durante o período de elegibilidade desejada para competir na
    categoria feminina.
  • A conformidade com essas condições pode ser monitorada por testes. No caso de não conformidade, a elegibilidade da atleta para a competição feminina será suspensa por 12 meses.

Antes de adentrar no cerne deste texto, gostaria de esclarecer algo: a prática de esportes é um direito humano e, como todo direito, não é absoluto. Meu propósito não é impedir a participação de transexuais em esportes, mas levantar pontos que estão sendo ignorados ou evitados por aqueles que, geralmente, provocam os debates sobre o tema.
Um bom ponto de partida para o início dessa análise é o desempenho de alguns atletas antes e após a transição. Alguns atletas do sexo masculino, que tinham um desempenho mediano dentro da equipe masculina, após transicionarem e entrarem na equipe feminina começaram a se destacar ganhando campeonatos e quebrando recordes.

Tifanny Abreu é uma jogadora de voleibol. Ela foi a primeira transexual a disputar uma partida oficial da Superliga.
Transicionou com 29 anos de idade, mas antes jogou pela Superliga A e B do Brasil e em outros campeonatos masculinos nas ligas da Indonésia, Portugal, Espanha, França, Holanda e Bélgica. Enquanto defendia o clube JTV Dero Zele-Berlare da segunda divisão belga, resolveu concluir a transição.
O seu desempenho ao participar em campeonatos femininos mostra que em 2017 marcou 70 pontos em apenas três partidas disputadas e teve a maior média do torneio, com 23,3 por jogo. Em 2018 chegou a 160 pontos em 30 sets disputados, superando a marca de Tandara (37 pontos) como recordista de pontos na Superliga em uma única partida.

Fallon Fox é a primeira transexual da história do MMA. Antes de transicionar, ela serviu na Marinha dos EUA e foi caminhoneira. Ficou conhecida por causar uma concussão e 7 pontos na cabeça da sua oponente Tamikka Brents, um tipo de fratura orbital que requer grande força e é praticamente sem precedentes dentro do MMA feminino.

Laurel Hubbard é uma halterofilista. Antes de transicionar, chegou a ter o recorde nacional júnior do país na categoria de +105kg: 300 quilos. No entanto, quando participou na primeira e única prova masculina com 20 anos, terminou em último. Começou a competir na categoria feminina com 39 anos de idade e no mesmo ano conquistou os três ouros do Campeonato da Oceania em sua categoria e quebrou três recordes no Mundial Master.

Terry Miller e Andraya Yearwood são duas velocistas que estão no Ensino Médio. Venceram o primeiro e o segundo lugar no sprint feminino da Competição Estadual de Connecticut de Pista Aberta. Continuaram competindo mesmo com a insatisfação de outras atletas e do treinador. Esse ano, venceram novamente em primeiro e segundo lugar no Campeonato Feminino de Connecticut de Pista Coberta.

Mary Gregory é uma levantadora de peso. Ela anunciou no seu Instagram a quebra de quatro recordes mundiais de mulheres em um único dia no evento Raw Powerlifting Federation: Masters World Squat, Open World Bench Press, Masters World Deadlift e Masters World Total. Competidoras e atletas medalhistas de outras modalidades manifestaram indignação diante desse acontecimento.

Cece Telfer é a primeira velocista trans a competir no atletismo universitário. Antes de transicionar, ela competiu na equipe masculina em 2016 e 2017, mas alcançou o 200º e 390º lugar. Em 2019, com apenas 1 ano de transição, ela competiu na equipe feminina e venceu a prova dos 400m com barreiras e levou o título, se tornando um fenômeno do atletismo universitário, pois seus resultados ajudaram a universidade de Franklin Pierce a conquistar a melhor performance da história de sua conferência, um sexto lugar em toda a nação.

Por outro lado, atletas do sexo feminino que tinham uma carreira promissora e com muito destaque dentro de equipes femininas, após transicionarem e entrarem na equipe masculina, não conseguiram mais ganhar competições ou quebrar recordes. Seu desempenho é tão pouco destacado pela mídia que é difícil encontrar notícias sobre eles.

Da esquerda superior para a direita inferior: Chris, Patricio, Schuyler e Mack.

Chris Mosier é um atleta de duathlon e triathlon. Ele começou a competir em 2009 na equipe feminina, mas em 2010 transicionou e em 2015 tornou-se o primeiro homem transexual na equipe dos EUA. Após entrar na equipe masculina nunca conseguiu quebrar recordes ou ganhar campeonatos na primeira posição.

Patricio Manuel é um boxeador. Começou a praticar boxe desde criança e foi campeão nacional de boxe amador feminino cinco vezes. Após transicionar levou 5 anos para conseguir competir profissionalmente na divisão super-pena da categoria masculina. Em 2018, se tornou o primeiro homem transexual com uma vitória no boxe profissional masculino após a luta de 4 rounds com o mexicano Hugo Aguilar. O seu oponente nunca havia ganho uma luta, sendo um dos lutadores com menos notoriedade dentro do esporte, e, ainda assim, a luta foi árdua para o atleta trans e a vitória ficou por decisão dos juízes por apenas 2 pontos de diferença.

Schuyler Bailar é um nadador. Antes de transicionar ganhou vários campeonatos, nomeações e quebrou recordes desde criança. Ele foi recrutado pela Universidade de Harvard e após transicionar começou a nadar na equipe masculina de natação e mergulho da universidade. Em entrevista para a Ellen, ele disse que, após entrar na equipe masculina, não conseguiu mais ganhar nenhuma competição ou se destacar.

Mack Beggs é um lutador de wrestling. Ele começou sua transição em 2015 e queria participar da equipe masculina, mas as regras atléticas estaduais só permitiam que ele competisse na liga feminina por conta de seu sexo biológico. Em 2017, participou do campeonato estadual na divisão feminina mesmo se hormonizando, quebrou um recorde de 57–0, ganhando a classe de peso de 110 libras. Competiu novamente em 2018, e, mais uma vez, foi o melhor na divisão de garotas com um recorde de 32–0. Em 2018 ele anunciou que iria competir na equipe masculina da Life University, e desde então não ganhou mais competições e nem quebrou recordes.


Muitos atletas, médicos e fisiologistas questionam a situação atual da participação de transexuais em esportes; um exemplo é a campanha “Fair Play For Women” e a plataforma “Save Womens’s Sports”, que disponibiliza histórias, artigos, pesquisas, documentos e oferece apoio a atletas e familiares que apresentam críticas em relação ao assunto.
Isso tem gerado polêmica, perseguições e ataques à reputação daqueles que se posicionam publicamente, fazendo com que muitos se silenciem por medo de sofrerem as mesmas retaliações. O próprio coordenador da Comissão Nacional Médica (Conamev) da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), órgão responsável pela liberação de Tiffany, Dr. João Granjeiro, criticou a participação da atleta trans na Superliga Feminina.

“Ela nasceu do sexo masculino e construiu seu corpo, músculos, ossos, articulações com testosterona alta. Nenhuma mulher, a não ser que tenha usado testosterona de origem externa ao organismo, conseguiria formar o mesmo corpo. É só olhar para a atleta, alta e muito forte.

Ela está liberada para jogar porque está dentro da regra. A regra existe e a obedecemos. Mas esse é um assunto que ainda se discute no meio esportivo. Não está esgotado. Atletas deveriam se manifestar também porque esse é o caminho, o do debate. Não é questão de ser homofóbico ou politicamente incorreto. É um assunto necessário”

João Olyntho, médico da CBV e responsável pela área clínica da Conamev, também é crítico em relação ao tema.

“Se a testosterona estiver acima desse limite ( 10nmol/L ou 288 ng/dL), ela terá de parar de jogar e o processo volta ao início. Terá de apresentar novos exames durante um ano dentro das recomendações do COI. Só depois será liberada novamente.
Leva-se em consideração apenas o último ano em relação ao nível de testosterona. Mas e os outros anos todos na vida dessa atleta? Foram 30 anos.”

Rogério Friedman, endocrinologista da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD), lembra que o tema é delicado e novo. Ele explica que, para a transição, é necessária a retirada da glândula que produz testosterona (testículo nos homens). Esse hormônio, que também é produzido pelo ovário e em menor quantidade nas mulheres, potencializa a força física. Após a cirurgia, a concentração de hormônio cai drasticamente.

“Mas a questão não é a quantidade de testosterona no sangue, requisito em que a jogadora já se enquadra. E, sim, em quanto tempo o corpo vai demorar para se equiparar ao padrão do corpo feminino e como aferir isso. O tema ainda é objeto de estudo.
Na história da humanidade, o homem tende a ser mais alto, por exemplo. Isso não é um fenômeno cultural.”

O médico Paulo Zogaib, professor de medicina esportiva da Unifesp, explicou em entrevista à “Veja” que a vantagem física de Tifanny existe pelo fato de a cirurgia para redesignação sexual ter acontecido quando ela já tinha 29 anos.

“No caso dela, há um detalhe que faz um pouco de diferença, que é o fato dela ter feito a cirurgia já com 29 anos. Então, ela passou boa parte da vida com uma produção hormonal muito maior do que uma produção hormonal feminina. Isso acaba influenciando no tamanho dos órgãos, coração, pulmões, a parte óssea, ou seja, as alavancas do aparelho locomotor. Então, isso cria diferenças em relação às mulheres e faz com que ela tenha um desempenho melhor. Não é pura e simplesmente o controle de testosterona na circulação. Claro que isso é importante, mas ela passou 29 anos desenvolvendo o corpo de uma forma diferente de uma mulher. Ao fazer a operação e a terapia hormonal, ela vai reduzir, evidentemente, a concentração de testosterona e isso vai diminuir o poder anabólico. O rendimento diminui, mas o fato é que ela já teve essa vantagem durante estes 30 anos. Não quero entrar em aspecto ético, moral, politicamente correto ou incorreto, de inclusão ou não, não é este o caso. Só que fisiologicamente isso é um fato.”

As estatísticas de Tifanny já mostram que só em três jogos da Superliga a média de pontos dela é a melhor do torneio. Isso já deixa evidente que ela leva vantagem sobre outras atletas.

“Se tivesse os dados fisiológicos dela, ver qual o seu consumo máximo de oxigênio, qual a potência anaeróbica, qual a impulsão vertical, etc., veríamos dados compatíveis com os parâmetros masculinos. Ela jogava na liga italiana masculina e se a compararmos a um ano atrás veremos que está mais fraca. Mesmo assim, estes parâmetros continuam sendo masculinos, ruins, mas masculinos. Não tem como diminuir a massa cardíaca, a quantidade de sangue que ela tem, a capacidade de processamento do fígado. É inevitável. Parar de produzir testosterona ou inibir sua produção não vai desandar todo o organismo. A pessoa enfraquece, mas pouco. Do contrário, haveria até risco de morrer.”

A Dra. Ramona Krutzik, endocrinologista californiana que estuda os hormônios humanos há 19 anos, afirma que existem diferenças fisiológicas que dão vantagem ao sexo masculino quando se trata de densidade óssea e massa muscular. Assim como muitos outros profissionais da área, ela também defende que um ano de terapia hormonal não é suficiente e que seria necessário aproximadamente 15 anos para começar a notar mudanças significantes na densidade óssea.

“Haveria aumento da musculatura e aumento da capacidade de construir músculos, de modo que uma vantagem poderia estar presente devido aos anos de condicionamento e se tornando mais masculina, o que inclui diferenças de resistência e força. O corpo masculino se desenvolve de maneira diferente, tanto na estrutura esquelética quanto muscularmente.”

Martina Navratilova é uma ex-tenista que é praticamente uma lenda dentro de sua modalidade. Ela se assumiu lésbica em 1981, foi ativista LGBT por décadas e contratou como sua treinadora Renee Richards, primeira transexual dentro do tênis. Após escrever um artigo para o The Times falando sobre a injustiça da participação de transexuais nos esportes femininos, ela sofreu ataques nas redes sociais e foi demitida como embaixadora da Athlet Ally, uma organização que faz campanha por esportistas LGBT.

“ Simplesmente reduzir os níveis hormonais — a prescrição que maioria dos esportes adotou — não resolve o problema. Um homem acumula densidade muscular e óssea, assim como um número maior de glóbulos vermelhos transportadores de oxigênio, desde a infância. O treinamento aumenta a discrepância. De fato, para um homem mudar de sexo de tal modo que eliminasse qualquer vantagem acumulada, ele teria que iniciar o tratamento hormonal antes da puberdade. Para mim, isso é impensável.”

Ana Paula Henkel, ex-jogadora de voleibol brasileira, se manifestou publicamente duas vezes ao questionar a participação de transexuais nos esportes através dos textos “Biologia não é de esquerda nem de direita” publicado em 2017 e “Carta aberta ao Comitê Olímpico Internacional” em 2018.

“Esportistas em geral e jogadoras de vôlei em particular estão sendo patrulhadas e cerceadas da sua liberdade de expressão. Muitas não expressam sua indignação pela total falta de proteção das entidades esportivas, coniventes com esse disparate. “É uma diferença muito grande e nos sentimos impotentes”, relata Juliana Fillipeli, atleta do time de vôlei do Pinheiros, depois de assistir Tiffany Abreu, ex-Rodrigo, vencer seu time e ser, mais uma vez, recordista em pontos na partida. Tiffany, que jogou na Superliga Masculina no Brasil como Rodrigo, é hoje a maior pontuadora da Superliga Feminina em apenas poucos jogos, deixando para trás a campeã olímpica Tandara, uma das melhores atacantes do Brasil e do mundo.”


O que mais dificulta o debate é a escassez de estudos que determinam as vantagens e desvantagens de transexuais nos esportes.
Eli Vieira, biólogo geneticista, bacharel e licenciado em biologia pela UnB, mestre em genética e biologia molecular pela UFRGS e PhD em genética na University of Cambridge fez uma análise em seu blog de todos estudos disponíveis sobre transexuais nos esportes, demonstrando como os resultados eram extremamente fracos por serem enviesados e apresentarem muitos problemas.
Estão entre estes estudos:

“Há uma revisão sendo citada preferencialmente pelo campo que nega as vantagens biológicas das mulheres trans ou alega que são implausíveis. Eis os problemas dessa revisão: avaliou somente oito artigos de pesquisa. Para dar uma noção da novidade do assunto, o artigo mais antigo é de 2004. A maioria desses meros oito artigos revisados é baseada em métodos qualitativos, como entrevistas, que não dão dados objetivos para testar diferenças. Os únicos dois estudos que sobram com dados objetivos têm amostras minúsculas: em um deles, somente 19 atletas trans foram testadas. Conclui-se nesse que as atletas trans estão muscularmente dentro da normalidade feminina. No entanto, a chance de as conclusões não serem confiáveis por causa da amostra pequena são consideráveis, e a diferença entre masculino e feminino não está somente nos músculos. O outro estudo não considerou atletas, e, também com uma amostra relativamente pequena de transexuais (n=33), concluiu que essas pessoas se exercitam menos, o que dificilmente é o caso entre trans que desejam ser atletas profissionais. O mesmo problema de amostras pequenas demais se repete em outros estudos não citados na revisão (como as minúsculas amostras n=8 e n=6).

O foco principal dessa revisão é político/moral: mais de 30 diretrizes esportivas sobre o assunto foram consideradas. Os resultados apresentados no resumo são todos argumentos pró-inclusão, ou seja, são argumentos na discussão moral. A revisão diz que não há estudos diretos suficientes da vantagem das trans e que por isso não se pode concluir que elas têm vantagem. Com base nisso os autores pedem que as diretrizes esportivas que as excluem precisam mudar em nome da inclusão. Mas essa é uma forma enviesada de fazer uma conclusão, pois, com os mesmos dados, podemos dizer que não há evidência direta suficiente, também, de que as trans não têm vantagem em relação às outras atletas femininas.

No entanto, existem muitos outros estudos que não apresentam as mesmas falhas que os anteriores e demonstram a inferência indireta de que as atletas trans têm vantagem física no esporte feminino:


É importante a realização de pesquisas bem formuladas que provem a existência de vantagens e desvantagens da participação de transexuais nas competições esportivas. A discussão poderia ser mais produtiva e ética por meio de embasamento científico, o que também teria o objetivo de cessar os ataques e perseguições sofridos pelos críticos que se manifestam publicamente sobre o tema.
A prática de esportes constitui uma carreira e uma paixão, e a discussão proposta não envolve, de forma alguma, a vida pessoal das atletas e as decisões que tomaram por si próprias. As questões a serem debatidas são estritamente fisiológicas, e a responsabilidade deve ser destinada aos órgãos regulamentadores dos esportes, que devem estipular condições justas e com base científica para competições esportivas.
Os questionamentos em relação às decisões “impulsivas” desses órgãos são urgentes e necessários, dada a situação atual: faltam estudos que embasem as decisões e regras estipuladas para a participação de atletas transexuais em competições esportivas.
O processo histórico da participação feminina nos esportes foi marcado por muita luta, o que fez parte de enormes demonstrações de reivindicação de direitos pelas mulheres. Ainda assim, o esporte é visto sob a ótica da Grécia antiga, que utiliza como parâmetro o desempenho masculino em vez de frisar a superação dos limites físicos, psicológicos e aperfeiçoamento técnico independente do sexo. Por esse motivo, o esporte feminino ainda permanece à sombra do masculino, sendo alvo de preconceito, com pouca visibilidade, reconhecimento e patrocínio, já que o desempenho feminino é constantemente comparado com o masculino. É importante reconhecer essa questão.
Agora, temos que lidar com esse novo obstáculo, e o que era óbvio se tornou polêmico: as vantagens físicas de um sexo sobre o outro e o fato de que determinadas características são imutáveis.
Precisamos nos posicionar de forma crítica, acompanhando e encorajando os atletas, médicos, plataformas e campanhas que também são críticos, pois com nosso apoio existirão chances maiores de o Comitê Olímpico Internacional e as Federações Esportivas Internacionais reverem as políticas de inclusão de transexuais nos esportes.
Mulheres estão tendo suas carreiras destruídas por questionarem certas decisões, meninas estão perdendo bolsas esportivas e sendo silenciadas pelo medo de serem acusadas de transfobia.
A prática de inibir questionamentos ao invés de levá-los ao debate público é uma forma de doutrinação, algo que deveria ser completamente evitado principalmente quando lidamos com dois grupos marginalizados.



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Apenas gosto de estudar e disponibilizar materiais sobre temas variados. Não me usem como referência a movimentos políticos. Não sou ativista e nem nada.

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