Vamos conversar sobre nossa obsessão com furos de roteiro?

Star Wars: Os Últimos Jedi é um filme que dividiu opiniões. Mesmo com indícios de que essa divisão é fabricada, dá para dizer com segurança que existem visões bem fortes e polarizadas sobre o longa.

Uma coisa que me chamou a atenção nessa discussão sobre Os Últimos Jedi é a constante citação de supostos furos de roteiro no filme. E digo “supostos” porque… bem, não existe nenhum furo em Os Últimos Jedi.

E eu não estou falando isso como uma defesa do filme. Tampouco como uma crítica. Minha opinião pessoal sobre o longa é irrelevante nesse caso. O fato é que um furo de roteiro é um negócio específico que não está presente em Os Últimos Jedi.

O novo filme de Star Wars não é especial e nem o primeiro a passar por isso. Praticamente TODOS os filmes de Hollywood parecem queijos suíços quando chegam na Internet.

Para efeitos de constatação, eu fui até o Letterboxd e digitei “furo de roteiro” na barra de pesquisa. Tirei print de alguns resultados para vocês verem:

Peguei prints só de filmes “consagrados”, como Logan, A Chegada, Os Vingadores e Drive.

Duas considerações:

  • eu peguei apenas alguns exemplos para não lotar o texto de imagens, eram mais 9 páginas de resultados;
  • isso no Letterboxd, onde a maioria das resenhas são em inglês (imagine no Twitter, Facebook ou YouTube!).

É interessante notar que até mesmo Meia Noite em Paris, um filme que venceu o Oscar de Melhor Roteiro Original (entre outros prêmios), tem “furos de roteiro”.

A questão aqui chega a ser ilógica: se praticamente todos os filmes lançados possuem furos na trama, incluindo aqueles premiados pelo roteiro, então chegamos a um impasse. Ou Hollywood simplesmente não sabe fazer filmes e nós continuamos assistindo por masoquismo ou tem algo errado.

Eu acredito na segunda opção e nomeei esse “algo errado” de cultura dos furos de roteiro. Vamos falar sobre isso já, já, mas antes precisamos de algumas informações.

“Senhor, acho que tem um furo no seu roteiro…”

Em primeiro lugar o que vem primeiro: o que é um furo de roteiro?

A maneira mais fácil de explicar o que é um furo de roteiro é através de algo chamado Silogismo Aristotélico.

De maneira superficial, Aristóteles designou como funciona a argumentação perfeita, composta por três elementos: duas premissas e uma conclusão derivada delas.

Um exemplo rápido:

  • Todos os humanos precisam de ar (premissa);
  • Eu sou um humano (premissa);
  • Logo, eu preciso de ar (conclusão).

Certo, e como isso ajuda a entender furos de roteiro?

Da mesma forma que o Silogismo Aristotélico, a trama de um filme também precisa de certas premissas. A diferença é que elas não precisam levar a uma conclusão, mas apenas fornecer as condições para o conflito da história.

Em um filme dos X-Men, por exemplo, aceitamos como premissa de que esse é um universo em que algumas pessoas possuem poderes. Assim, quando aparecer um cara cuspindo bolas de fogo, nós aceitaremos o fato como algo normal.

Essas premissas são como esqueletos que sustentam o mundo daquela história, para que possamos ver o conflito dos personagens se desenvolver.

Se um filme fosse um circo, as premissas do roteiro seriam como a estrutura metálica que mantêm a tenda de pé para que o espetáculo possa ocorrer.

Esses caras sabem do que eu tô falando

Portanto, um furo de roteiro acontece quando um evento contradiz diretamente uma das premissas estabelecidas pelo filme.

Vamos para um exemplo prático para entender melhor essa definição? Ok.

Jim Carrey tem um filme de 97 que se chama O Mentiroso. Nesse filme, ele interpreta um advogado que mente o tempo inteiro, para qualquer coisa.

Porém, seu filho faz um pedido de aniversário para que seu pai não possa mentir por 24 horas e, durante o longa, o personagem de Jim Carrey acaba magicamente forçado a dizer a verdade até aprender uma bela lição sobre honestidade e tudo mais.

A sinopse do filme apresenta duas premissas básicas:

  • existe magia nesse filme. Uma magia onipotente e onisciente, da qual o protagonista não pode escapar;
  • por causa dessa magia, o personagem principal não pode mentir por 24 horas. Ele é fisicamente proibido de contar uma mentira; se tentar, vai começar a engasgar ou ficar mudo.

Um furo de roteiro seria se, depois de algumas cenas com essas premissas, o personagem vivido por Jim Carrey simplesmente mentisse para algum colega de trabalho e não sofresse nenhuma consequência por isso.

Ou seja: se alguma cena ou evento do filme quebrasse uma das premissas do universo onde se passa aquela história.

O que não é um furo de roteiro

Na minha pesquisa para escrever esse artigo, eu encontrei dezenas de listas de “furos de roteiro” dos mais diversos filmes pela Internet, desde lançamentos mais controversos como Os Últimos Jedi, Batman vs Superman e Homem de Ferro 3, até filmes já consagrados como Duro de Matar, Jurassic Park e mesmo O Poderoso Chefão (pois é).

Depois de ler essas listas e artigos, comecei a categorizar alguns tipos de “furos de roteiro” que, na verdade, não são furos. Confira abaixo:

Coisas que você faria diferente

Um dos tipos mais comuns de “furos de roteiro” citados na Internet é o “por que aconteceu X quando poderia acontecer Y?”. Eu chamo de “Coisas que você faria diferente”.

Existem milhões de exemplos assim:

  • por que as máquinas de Matrix não criaram um mundo sem tecnologia?;
  • por que a Skynet não manda um exército de exterminadores ao invés de um só?;
  • por que o Superman não levou a luta contra Zod para fora da cidade?

Nenhum desses questionamentos é um furo de roteiro já que não existe nenhuma premissa do mundo desses filmes é quebrada por causa desses eventos. Nada em O Homem de Aço diz que o Superman e o Zod não podem lutar em Metropolis, por exemplo.

Não estou dizendo que você é obrigado a gostar disso ou que são as melhores decisões desses filmes, mas apenas esclarecendo que essas questões não se encaixam na definição de um furo de roteiro.

Nenhum filme tem a obrigação de usar a solução mais lógica ou prática para a resolução dos seus conflitos, mas sim a solução mais adequada para seus personagens e desenvolvimento temático.

O Film Critic Hulk publicou um artigo excelente sobre furos de roteiro (que usei como pesquisa para escrever esse aqui) onde ele fala mais profundamente sobre um aspecto interessante: a função de um filme.

Muitas vezes, os personagens de um filme tomam certas decisões ou a trama segue por uma direção específica para cumprir a função que esse longa tem. Confuso? Vamos lá:

Na história da Chapeuzinho Vermelho, a mãe dela avisa que ela não deve conversar com estranhos na floresta. Infelizmente a menina não dá ouvidos e acaba falando com o Lobo Mau, que vai até a casa da Vovozinha por causa disso.

A moral da história é simples: obedeça seus pais e não converse com estranhos.

Porém, nós podemos aplicar a lógica dos “furos de roteiro” citados acima nessa fábula também. Por exemplo, por que a mãe da Chapeuzinho não pede para outra pessoa entregar os doces para a Vovozinha?

Por que uma criança precisa viajar pela floresta para isso? Por que ela mesma não vai?

O ponto é que a história precisa que seja a Chapeuzinho a ir pela floresta e falar com o Lobo Mau para ela ter função e uma moral no fim.

Nós só aprendemos que “não devemos conversar com estranhos” porque a Chapeuzinho falou com o Lobo Mau.

O que isso significa para o cinema? Que personagens tomarão decisões e eventos acontecerão para cumprir a função do filme.

Claro que você pode questionar essas decisões e pensar se não havia maneira mais fácil de solucionar os conflitos propostos pela trama. Mas ao invés de tratá-los como “furos de roteiro” (que não são), tente refletir sobre a função dessas decisões na história.

Por exemplo, será que o Superman lutar contra o Zod em Metropolis não cumpre uma função específica no filme? Como fazer com que Clark Kent simbolicamente escolha entre os Humanos ou os Kriptonianos?

Aplicação de uma “lógica imparcial”

Lembra do Silogismo de Aristóteles? Uma das suas características básicas é que as suas duas premissas levam a uma conclusão lógica. Por exemplo:

  • todos os brasileiros são felizes;
  • o Fulano é brasileiro.

Com essas duas premissas você conclui, logicamente, que o Fulano é feliz. Fim de papo, certo?

Certo.

Porém, no cinema, as coisas não são bem assim, preto-no-branco. Muitas vezes, um filme pegará dois argumentos e levará a uma conclusão oposta para fazer um comentário ou criar algum tipo de significado.

Imagine que você senta no cinema e vê o filme do nosso exemplo. É dito que todos os brasileiros são felizes mas o Fulano, que é brasileiro, aparece triste na tela.

Ao invés de sair gritando “Furo de roteiro! Furo de roteiro!”, é preciso sentar e refletir sobre o significado disso para a história.

Será que vamos descobrir nas próximas cenas que o Fulano é argentino? Ou será que descobriremos que essa felicidade toda é, na verdade, uma farsa?

É por isso que eu ressaltei anteriormente que acontece um furo no roteiro quando as premissas daquele mundo são quebradas, porque existe uma diferença sensível entre uma premissa do universo onde se passa a história e uma premissa da história em si.

Uma premissa do universo do filme é como o alicerce daquele mundo, algo como Atlas segurando o planeta na mitologia grega. Se quebrar, a fundação toda colapsa.

Já a premissa da história, normalmente, faz parte do desenvolvimento temático do filme e existe para ser mudada.

“Nosso protagonista é impopular na escola” não é uma regra básica do universo, é um estado do personagem, que provavelmente se envolverá em situações que mudarão (ou não) essa situação.

Entendidos? Vamos para o próximo!

Eventos sem explicação expositiva

Martin Scorsese tem uma frase brilhante sobre filmes. Ele diz o seguinte:

“Cinema é uma questão do que está na tela e o que está fora dela”.

Ou seja: as informações que recebemos e as que não recebemos são importantes para a função do filme.

Lembro que as pessoas ficaram meio loucas quando Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge foi lançado. Um dos comentários mais comuns que eu ouvia era “como o Batman volta para Gotham depois de sair daquela caverna?”.

Eventos que acontecem fora da tela ou informações que não possuem uma explicação expositiva (ou seja, não são diretamente citadas pelo filme) não constituem um furo de roteiro.

Se a consequência de uma cena (o Batman voltar para Gotham, por exemplo) não quebrar uma das premissas daquele universo E o seu conteúdo não for indispensável para a função do filme, então não precisamos vê-la.

Algo que possui uma explicação diegética

Diegese é o nome dado para o “mundo da narrativa” de uma história. De certa forma é “o que está na tela”, ao contrário de outras informações que estão disponíveis apenas para os espectadores.

Por exemplo: quando personagem está na rua, nós ouvimos o barulho de carros, buzinas e pessoas conversando. Esses sons são diegéticos, já que existem no mundo daquela história.

Já a trilha sonora está presente no filme, mas existe apenas para nós, espectadores, e não para os personagens. Exceto em filmes específicos como Baby Driver, por exemplo.

Se você estiver na dúvida se viu um furo de roteiro ou não, pergunte-se se há alguma explicação diegética para ele. Ou seja: se o próprio filme fala sobre esse “furo” ou dá uma explicação.

Se tiver, por mais boba ou sem sentido que seja a explicação, não é um furo de roteiro. E quem diz isso não sou eu, mas os próprios produtores de Hollywood.

Em um artigo do New York Times, Eric Feig, presidente de produção da Lionsgate, afirma que a maneira mais simples de se livrar de um “furo de roteiro” é citando-o você mesmo.

“Você precisa falar sobre ele, mas a solução pode ser algo bem simples. Desde que as personagens no filme façam as mesmas perguntas que o maior cínico sentado no cinema, ficará tudo bem. Você não precisa dar a resposta, mas precisa fazer a pergunta”.

Isso não significa que qualquer resposta é “aceitável” ou que o filme não seja problemático só por ter uma explicação. Na maior parte das vezes, a explicação pode ser horrível e deixar o filme ruim, mas sem furos.

Informações exteriores contraditórias

É comum ver pessoas confrontando cenas ou personagens de certos filmes (especialmente cinebiografias ou histórias que se passam em lugares ou períodos específicos) com informações técnicas de fora do filme.

Por exemplo, um longa sobre a Segunda Guerra Mundial pode ser questionado sobre o modelo dos tanques utilizados ou as cores dos uniformes de cada exército.

Por mais que seja interessante ter uma recriação fiel de períodos históricos ou de locais e culturas ao redor do globo, não dá para acusar como furo de roteiro algo que não faz parte do universo do filme.

Afinal de contas, mesmo os filmes baseados em fatos reais, ainda são obras de ficção e não documentários, certo?

Erros de continuidade

Você provavelmente já sabe disso, mas não custa reforçar: erros de continuidade não são furos de roteiro, ok?

É comum que uma mesma cena seja gravada dezenas de vezes, para que o montador e o diretor possam escolher o melhor take em cada ocasião. Assim, erros de continuidade são quase impossíveis de se evitar, mesmo com profissionais dedicados exclusivamente a isso.

Porém, eles não entram em conflito direto com as premissas do mundo de um filme e, portanto, não classificam como furos de roteiro.

WAKE UP SHEEPLE!!!!11!1 ISSO A MÍDIA NÃO MOSTRA!!!!!1111!ONZE

Por que confundimos e nos importamos tanto com “furos de roteiro”?

O artigo do Film Critic Hulk que eu citei acima (e volto a linkar aqui) tem uma parte só para falar sobre “por que assistimos filmes”.

Ele advoga que há uma preocupação excessiva com furos de roteiro e que essa busca incessante por uma “lógica” na história é, além de ilógico, prejudicial para o próprio cinema.

Você pode ler melhor a visão e os argumentos dele no artigo acima, mas eu concordo com isso.

O mais interessante para mim, porém, é investigarmos as razões por trás dessa obsessão. E eu identifico dois principais motivos para tudo isso.

O primeiro está na ausência de conhecimento técnico sobre histórias que muita gente tem. Todos nós conhecemos histórias instintivamente: a gente sabe o que funciona e o que não funciona, já que assistimos dezenas de filmes todos os anos desde que nascemos.

A gente SABE quando um filme tem problemas, mesmo que não saibamos explicar que problemas são esses.

Assim, na ausência de um termo melhor, usamos “furo de roteiro” para tudo. Às vezes a motivação de um personagem não ficou clara, a trama tem uma barriga ou simplesmente não concordamos com a mensagem do filme. Não importa: tudo vira “furo de roteiro”.

O primeiro passo para corrigir isso é aprender o que consiste um furo de roteiro na verdade e, aos poucos, entender como expressar melhor nossa insatisfação com um filme.

Já o segundo motivo para essa perseguição a “furos de roteiro” está na dificuldade em separar “um filme que eu não gosto” de um “filme ruim”.

É importante diferenciar as duas coisas já que “não gostar” e “ser ruim” são coisas objetivamente diferentes.

Por exemplo, eu não gosto de Jurassic Park. Só não gosto. Não tem nada de errado com o filme, só não curto. E tudo bem, é natural, questão de gosto.

Mas se eu falar que Jurassic Park é “um filme ruim”, então eu teria que explicar os seus problemas, já que é possível saber objetivamente se um filme é bom ou não, mesmo que a gente não goste dele.

Porém, sinto que há essa confusão na cabeça das pessoas. Por isso há tanta reação negativa quando um crítico diz que tal filme é ruim.

As pessoas gostam e se sentem ofendidas, quase como se elas não pudessem gostar de filmes ruins, por exemplo.

Por isso, quando elas não gostam de algum filme, procuram por alguma razão para isso e usam clichês ou convenções como “furos de roteiro”.

Além disso, é muito comum ver dezenas de sites, blogs, canais no YouTube e outras plataformas de conteúdo surfando na popularidade de filmes controversos com suas “listas de furos de roteiro”.

Se aproveitando desse desconhecimento das pessoas, esses produtores de conteúdo ganham cliques, audiência e até dinheiro promovendo essa cultura dos furos de roteiro, cultivando essa ideia nos espectadores — que, por sua vez, acabam se interessando mais e mais por esse tipo de conteúdo.

Se você curtiu esse artigo, talvez se interesse por outros textos que eu tenha publicado por aqui: