45 dias✓

E muita coisa passando pela minha cabeça.

Mudar é sempre muito complicado. Se fosse simples, a cada vontade de mudar a gente estalava os dedos e pronto: começava a tomar as atitudes coerentes que aspiramos. Digo isso por que faz tempo que tento ter uma nova postura, ficar consciente na hora da compra e só agora, mais de 2 anos depois, estou conseguindo segurar os impulsos, repensar minhas escolhas, não cair nas armadilhas disfarçadas que pululam na nossa frente.

Se ter auto-compromisso com a mudança é missão, imagina levar outras pessoas ao mesmo processo! Honestamente esse nem é o desafio do blog, engajamento está mais para possível consequência, e se rolasse seria festejada com muitas dancinhas da vitória. Eu tenho escrito menos com a expectativa de influenciar, mais como uma necessidade de me vigiar. Tornar o desafio público cria essa ilusão de que há um dever a ser cumprido e acabo me empenhando mais. Paranóias, paranóias amigos, tsc tsc.

Mas, nas últimas duas semanas algumas amigas vieram conversar comigo a respeito dos textões que tenho publicado e fiquei bastante feliz. É sim uma satisfação grande conseguir trazer essa discussão pro meu círculo social, por que, sejamos sinceros, ninguém gosta muito do "amigo-xiita". E ninguém quer ser o "amigo-xiita" que fica o tempo todo apontando pros broders que o mundo está uma merda, que a gente precisa se policiar, que a gente precisa parar de comprar, yada yada yada. Abordar assuntos polêmicos com quem não está aberto a ter algum tipo de discussão é complicado. E a quantidade de pessoas que está aberta é pequena. Um exemplo, já tentei inúmeras vezes convencer uma das minhas irmãs a comprar menos, evitar fast-fashions e encarar novos hábitos de consumo, mas ela se limitou a ficar na defensiva e evitar o assunto.

Existe um cuidado aí: não é por que alguém não gosta de discutir sobre certos assuntos que a pessoa é desconectada, egoísta ou categoricamente uma pessoa ruim. E também não é por que gosto muito de ler sobre certas temáticas que sou melhor do que uma maioria. A gente precisa saber levar os assuntos às pessoas, sem soberbas ou pedestais. Até por que eu não sou melhor do que ninguém. Eu sou só alguém que depois de um bom tempo gastando dinheiro descontroladamente viu que havia algo de errado com isso.

Pensamentos a la contra-cultura são delicados. Falar de consumo consciente, em qualquer segmento da industria, exige empatia em muitas frentes. Todo mundo sabe que existem um monte de chinesinhos escravizados produzindo coisas e mais coisas do outro lado do mundo, e isso já é considerado normal. É o sistema... E a gente tem tanto problema aqui desse lado do mundo, que se preocupar com os chinesinhos acaba lá no final da listinha de prioridades. Nem todo mundo tem a abertura para se engajar em todas as causas, e também nem consegue. São muitas causas! O problema é que o planeta precisa urgente que as pessoas se engajem, antes que aconteça um colapso. E daí vem o trabalho de conversar um pouquinho aqui, alfinetar um pouquinho ali, pra ver se mais gente se sente encorajado a mudar um pouquinho o hábito que for.

Eu sei que tenho uma tendência péssima de tratar esses assuntos sem qualquer delicadeza, 100% Dilma style. E é um erro, por que ou evito o embate, ou deixo o meu ouvinte estressado. E agora tem sido o momento de rever essa forma de comunicação, e me esforçar pra trazer paciência a um assunto super sério, mas em que quase ninguém enxerga seriedade. Por que comprar é um momento descontraído, íntimo, e hoje mais do que nunca virou sinônimo de lazer e até terapia. Então é chato parecer que quero ditar como o outro deve gastar o próprio dinheiro. Não há censura alguma. A ideia é tentar quebrar um padrão que uma maioria alimenta sem perceber, por que é estimulada fulltime.

Esse é um projeto sobre moda por que moda é o meu gargalo de consumo. Dentro do meu universo particular, tenho um descontrole ali e tenho uma abertura pra determinados estímulos com esse foco. Mas existem tantos outros gargalos possíveis: gadgets, eletrônicos, decoração, maquiagem, livros, HQs, jogos, bebidas, carros, brinquedos, bugigangas… Não são mais ou menos nobres, são diferentes. O mais importante é que geralmente são pontes para descontrole, para busca por pertencimento, ou puro acúmulo.

Quando eu falei que ficaria 6 meses sem comprar roupas e afins para muita gente pareceu bobagem, futilidade. "Que fácil!" Mas e se tivesse falado que seriam 6 meses sem comprar absolutamente nada que não seja o kit básico de sobrevivência (artigos de higiene, medicamentos, comida)? A verdade é que cada um precisa analisar seu comportamento de consumo e considerar o que não está sendo saudável. Pensar a forma, as motivações e a frequência de compra... E hoje o necessário e o supérfluo são muito complexos para se classificar, já que as coisas têm também valor social agregado. Tudo também se trata da construção de um ideal de saúde mental e de bem estar social, duas pontas relevantes. O consumo muitas vezes é tratado como catalizador desses dois aspectos. Ou seja, o consumo te insere socialmente, o que não é novidade, mas ele não deveria resumir a sua existência. Compro por que existo? Ou existo por que compro? Nenhuma das duas coisas.

Pra finalizar, se é que esse texto caminhou em algum caminho lógico haha, uso uma frase que carinhosamente foi compartilhada comigo algumas semanas atrás e que tem tudo a ver com o projeto. "A arte é a emoção sem o desejo". Nesses tempos, em que tudo vira hashtag must have, é importante compreender que o desejo não tem obrigação de ser consumado para ser agradável. Às vezes a gente só precisa encarar as coisas como a arte que se permite apreciar. A emoção sem o desejo é o olhar para as coisas como elementos agregadores, como referências, como experiências, como inspirações, como símbolos, que não precisam ser comprados, embalados e levados pra casa.