About time

Completei 15 dias sem compras. E também completei 15 dias sem postar nada no blog. Eu sei, é uma vergonha começar um projeto documental de uma jornada e não documentar nada. Durante as semanas que passaram cheguei a escrever 3 ou 4 textos no bloco de notas do celular e tentei arranjar tempo pra publicar, mas ele me escapou, o cansaço pós-expediente foi maior e acabei deixando pra depois.

Se tem uma coisa que tenho repetido pra mim mesma é que fazer um projeto pessoal tem que ser prazeroso. Se há sofrimento demais pra colocar em prática, tem algo de errado. É complicado mudar hábito, rotina, mas também não posso me deixar escravizar por mais uma obrigação. Já bastam pendências e imposições diárias, das quais não posso fugir. Um projeto não precisa ter uma carga de culpas e desassossegos, e a vida não precisa desse sentimento constante de estar perdendo tempo…

Antes que pareça que estou só me justificando pela inconstância (ignorando o fato de que nem tenho ainda audiência que exija isso, haha), pretendo usar esse gancho para outro ponto. Quando me peguei pensando sobre essa falta de tempo pra escrever e o medo de perder o timing, me veio à memória aquele famoso vídeo do Mujica falando sobre consumismo que 9 a cada 10 dos meus amigos de esquerda e/ou de humanas já postaram no Facebook. Há quem diga que não passa do óbvio, como se o óbvio não tivesse, coitado, valor algum. E o que basicamente o nosso querido Pepe diz é simples: quando compramos algo, não compramos com dinheiro, compramos com o tempo de vida que gastamos para conseguir o dinheiro. O princípio básico do sistema capitalista: trocamos nossa mão de obra e nosso tempo útil pela remuneração. Só que a gente não fica pensando muito nisso quando passamos 40h semanais ralando. A gente pensa que precisa fazer a roda girar e comemorar o sétimo dia útil do mês, quando cai o salário.

Outra coisa que também tenho repetido pra mim mesma: é preciso cuidado de não se deixar acreditar que o trabalho justifica a nossa existência e valor. Um pouco mais a fundo, é preciso cuidado mesmo em não deixar o consumo justificar a nossa existência e valor.

Nessa história de ficar 15 dias sem conseguir postar, fiquei matutando sobre meu tempo. Estive duas semanas envolvida num projeto enorme que me absorveu por completo, e quando enfim minha equipe venceu o primeiro round, pensei: a minha recompensa depois de todo esse tempo investido não pode ser revertida apenas em coisas. E não era só sobre a promessa de não comprar/acumular mais, era sobre transformar o meu esforço e as horas gastas em algo maior.

O que pouco se fala é sobre o nosso poder como consumidor. Pra mim é muito claro que comprar é um ato político. É você quem deve decidir para onde destina o seu dinheiro, participando ativamente da economia e consequentemente contribuindo com quem cresce e quem definha. A compra de alguma forma qualifica o seu tempo de vida trabalhado. Nosso poder é a escolha: nossa vida se alia a quem? Nosso tempo patrocina quem?

A gente tem aquela ilusão que saber investir é fazer o nosso dinheiro render mais aquisições. E a ideia da rapidez na compra e na produção alimentou mais essa ilusão de bons negócios. Fast food, fast fashion, olha só o tempo aqui de novo. É rápido e é barato. Uma pegadinha do marketing, meus amigos! Não existe nada barato. O preço baixo daquela blusinha que não é pago com seu tempo, é pago no processo. Alguém está perdendo e provavelmente é aquele trabalhador em condição análoga ao trabalho escravo, ganhando um salário miserável lá do outro lado do mundo, ou é o planeta mesmo, pagando com escassez de recursos naturais e poluição. Então a gente precisa pensar: uma vida vale mais do que outras? A nossa vida vale mais? É justo que algumas pessoas sejam descartáveis e outras não? Meu tempo em forma de dinheiro precisa mesmo investir nesse sistema?

Ok, a economia mundial é muito mais complexa. A gente já nasce com nosso poder aquisitivo pré-determinado só pela nossa posição geográfica, cor de pele, genealogia… e o buraco é muito mais embaixo. Mas isso não justifica falta de empatia em perceber que a desigualdade é cruel e que o sistema é bem errado. Escolher como gastar nosso tempo-dinheiro é um ato político sim, por que eu posso continuar enriquecendo o dono da Zara ou posso parar de suportar o esquema e ajudar um produtor local a se desenvolver, por exemplo. Não só ideologicamente falando, o nosso tempo de vida só é valioso se nós fizermos ele ser.

Ter ficado 15 dias sem comprar, analisando por essa ótica, me trouxe mais liberdade: por enquanto menos dívidas, mais controle financeiro, principalmente mais controle do meu tempo. Nesse processo é preciso calma, eu sei que não vou mudar o mundo com uma compra não feita. Mas a pressa não é catalisadora de mudanças. A gente muda o mundo nos reeducando, discutindo com os amigos, educando filhos pra pensar diferente e comprar diferente, alimentando ideias pra um giro de chave no pensamento. Demora. Mas não quero chegar no fim da vida com a sensação de que essa jornada foi apenas tempo perdido e coisas acumuladas. 15 fucking dias parece pouco, mas é muito.