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A Carta

A…, 
 
Acho que entendi o seu recado. Quando você disse que não ia sumir, foi só por educação, porque o que você vem fazendo há algum tempo é só fugir de mim. Você nunca liga pra mim, nunca retorna uma ligação e arranja sempre um motivo pra recusar qualquer convite meu. Até pra um simples almoço.
 
Mas de verdade, eu não consigo acreditar que aquelas trocas de olhares encabulados que rolavam eram apenas coincidências. Também é difícil aceitar que quando nossas mãos se demoravam em um contato qualquer, por um motivo qualquer, aquilo era sem querer; que quando você chegava por trás de mim e ficava tão perto que eu sentia o seu hálito quente roçar o meu rosto, era só por acaso.
 
Não… Eu estou quase certo que naquela sexta de carnaval, quando você se despediu de mim, o seu olhar me dizia mais do que eu quis perceber; que o modo como você me estendeu a mão pedia mais do que te dei; que quando você me disse “qualquer coisa, eu grito”, você já estava gritando. Mas, naquela hora… eu estava paralisado.
 
Não pense que sou insensível, mas é que até aquele momento, tudo o que eu sentia em relação a você estava em outra esfera, não na esfera do possível. Eu desejava você à distância, como algo inatingível, talvez por medo de ser rejeitado, talvez por medo de afastar você de vez, não sei. Mas naquele momento você pareceu me mostrar que não estava tão longe, que eu importava pra você. E foi isso que me paralisou.
 
Depois disso, você mudou. Não sei se por culpa minha ou por outras coisas que talvez tenham acontecido com você, mas você mudou. Passou a querer se afastar, a me rejeitar, até a me tratar com aspereza sem nenhum motivo aparente. E eu fiquei assustado. Se meus sentimentos já eram confusos, eu fiquei desorientado. Um dia você me tratava bem, noutro me ignorava, noutro ficava me cortando sem mais nem por quê…
 
Mas pode ficar certa de uma coisa: no meio de toda a confusão, pelo menos uma certeza eu mantive. A de que eu gosto de você. E hoje estou mais certo disso do que quando te vi pela primeira vez.
 
Desculpe se isso tudo parece idiota, se eu confundi as coisas, se eu não entendi nada, se eu importunei você com meus convites e, principalmente, se eu estou constrangendo você agora. A última coisa que eu poderia querer na vida era lhe fazer qualquer mal. Ver você feliz é hoje a única coisa que pode me deixar feliz, mas eu precisava dizer essas coisas, para que não ficasse nenhum mal-entendido nessa história.
 
Se você prefere assim, se é melhor pra você que eu saia de sua vida, tudo bem, eu saio. É difícil pra mim, mas eu supero. Já superei muita coisa. Você tem meu telefone, meu e-mail, sabe onde eu moro e trabalho. Quando quiser falar comigo, nem preciso dizer…
 
Um beijo, já com saudade,
 
K…