Critérios Básicos

Quando nos conhecemos, logo no primeiro dia, eu sabia que eu e você não tínhamos nada em comum. Nada. Antes dos primeiros quinze minutos, queria levantar e ir embora, inventar uma emergência com uma amiga, dizer que ela tinha sido sequestrada na rua ou abduzida por aliens, estava passando por um momento difícil e precisava de mim naquele instante, não depois, não amanhã.

Mas continuei lá, em respeito aos meus amigos, que também são seus amigos e que por algum motivo acharam que eu e você seríamos uma boa combinação.

(ainda não decidi se fico ofendida ou não)

Depois, passei a semana toda rezando para que você não desse notícias, para que eu não precisasse dizer não, para que você também percebesse o que eu percebi: nada em comum. Nada.

Mas você apareceu de novo e eu, ouvindo mais as vozes da minha mãe, minhas avós, minhas tias, que estão sempre dentro da minha cabeça me dizendo que “escolho demais”, que “sou fresca”, ouvindo mais isso do que meu bom senso que quase nunca falha, disse sim.

Mais uma vez, nada em comum. Nada.

Talvez eu estivesse errada, talvez eu estivesse confundindo as coisas, você poderia estar nervoso, tímido, poderia ser um cara incrível escondido debaixo dessa pessoa mais-ou-menos, dessa pessoa que não é sim e não é não, que parece feliz só em ocupar espaço, sem sentir necessidade de fazer nada mais interessante que isso.

Talvez o amor seja isso: insistência diante de uma pessoa sem graça alguma.

Talvez só o que me falte é saber esperar.

Quando você me mandou uma mensagem, dizendo que tinha se divertido e que esperava me ver mais vezes, eu demorei dois dias para responder. Mas respondi e então você sumiu. Não me ligou quando disse que ligaria, não me procurou mais, não apareceu mais de surpresa no mesmo bar que eu.

Depois fiquei sabendo que você estava namorando uma outra garota. Mesmo certa de que eu e você nunca seríamos nada, nada, comecei a listar mentalmente todas as coisas que você não gostou em mim. É um vício meu, um problema sério. Eu não queria, mas no momento em que você não me quis, a culpa é minha, o defeito está em mim, o que eu fiz de errado? Isso durou alguns dias.

Depois de alguns meses, fomos jantar todos juntos no aniversário de um dos nossos amigos em comum. Você, com ela. Eu, sozinha. Fiquei incomodada por cinco minutos. E aí você foi escroto com o garçom.

Respirei aliviada.


Esse texto faz parte do meu plano de “30 dias, 30 textos” que eu expliquei aqui.

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