Medida de Segurança

Não me lembro de ter apagado o contato dele do meu telefone. Um dia, fui olhar e não estava mais lá. Agradeci em silêncio. Foi uma decisão inconsciente, mas foi uma decisão muito esperta: evitar o clichê das mensagens bêbadas que se mandam sozinhas, frutos de segundos de demência e causadoras de horas de arrependimento.

Que era o que eu estava prestes a fazer quando descobri que o telefone dele não estava mais na minha agenda.

No meu caso, seria ainda mais humilhante porque ele nunca ligou pras minhas mensagens bêbadas; já enviei algumas, todas respondidas com uma ou duas palavras blasés.

“Você sabe que quando tô meio bêbada fico louca de tesão. Queria te ver, queria você aqui.”

“Bebe água.”

Eu ficava nervosa, mandava à merda, sentia a vergonha queimando bem no meio do peito. Depois entendi que não valia a pena. Ele não gostava do meu “Eu Bêbada”, meu “Eu Bêbada” não era entretenimento.

Meu “Eu Bêbada” não vai desaparecer, diferente de eu e ele. Não sei dizer o que éramos, mas no mínimo éramos eu e ele. Três mensagens de Whatsapp lançaram um feitiço poderoso: eu e ele viramos pó.

No more, no more.

Eu apaguei o telefone dele como medida de segurança aplicável em noites de vinho e de pensamentos desobedientes.

Mas duas coisas aconteceram.

Eu tenho vontade de vê-lo mesmo sóbria. Todo dia. Não é o vinho, ou a cerveja, é saudade. É uma tristeza em pensar que logo não vou lembrar da cara dele. Que triste, que triste.

Eu decorei o telefone dele. Não sabia que isso ainda acontecia na vida real, pensei que era uma coisa que só se via em listas de “Coisas Que Seus Filhos Não Vão Acreditar Que Vocês Faziam”. Decorar o telefone, olha o conceito! Tenho hoje três números de telefone gravados na cabeça: o meu, o da polícia, e o dele.

Como é que eu faço agora?

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