A DESINVENÇÃO DO BRASIL

[Publicado em 09/07/2014]

Desde 1958 que nenhuma seleção estrangeira ganha uma Copa do Mundo. Isso mesmo, ou o Brasil ganha a Copa ou o Brasil perde a Copa. É sempre sobre nós, e nunca mérito do adversário. Em breve retrospectiva veremos que ganhamos em 58, 62, 70, 94 e 2002. E como bem sabemos, por aqui as vitórias da seleção não carecem de explicação e são sempre merecidas. Bem, as demais copas nós perdemos. Perdemos pra Portugal em 66, para Holanda em 74, fomos roubados pela Argentina em 78 (mas o Brasil foi “campeão moral”), para Itália em 82, para França em 86, para Argentina em 90, para França em 98, novamente para França em 2006 e, finalmente, para Holanda em 2010. Quem ganhou a Copa de 1990? Não importa, pra nós ela sempre será lembrada como a Copa em que Maradona e Caniggia nos desclassificaram.

Dessa forma, resolvi seguir uma outra grande tradição brasileira em momentos de derrotas. Irei apontar os grandes culpados pela tragédia do momento, que entrará para história como o dia que o Brasil foi humilhantemente desinventado como o país do futebol. Cada gol da partida será apadrinhado por um grande culpado ou algum fato merecedor de destaque.

A CBF (11´ — Thomas Muller)

É necessário que o balanço de consequências que atinge cotidianamente os técnicos brasileiros se estenda para toda comissão técnica da CBF, e até mesmo para a presidência da entidade. Não é possível que ano após ano estejam os mesmo médicos, assessores de imprensa, preparadores físicos e presidente na entidade, como se aquilo fosse um reinado. Como em qualquer empresa séria, se não se atinge seus objetivos é preciso mudar, e acima de tudo, é imprescindível aumentar muito a sua transparência.

FELIPÃO (23´ — Miroslav Klose)

O time não tinha padrão de jogo, e muito menos alternativas que fossem capazes de mudar o andamento das partidas. Cada reserva parecia ter sido estrategicamente selecionado para substituir o titular sem que nenhuma variação causasse na forma de jogar. Fred e Jô foi um desagradável jogo de espelhos, que quando um estava em campo torcíamos para que ele fosse substituído pelo outro. Mas o ápice da sua teimosia e superstição foi mesmo a convocação antecipada de um goleiro que estava sendo questionado na segunda divisão do campeonato inglês, e se transferia para um potente time canadense.

ESQUEMA TÁTICO (24´ — Toni Kroos)

Nosso anacrônico esquema era baseado numa concepção de futebol defasada pelo menos 12 anos. Não é possível que com tantas seleções jogando modernamente, mesmo com menos talentos disponíveis, o Brasil tivesse que jogar com um time baseado nessa retranca repleta de volantes e com um centroavante fixo. Já começo a ouvir os gritos clamando por técnicos estrangeiros como solução….

TREINOS (26´ — Toni Kroos)

O Brasil que reduziu seus treinos aos rápidos e displicentes rachões foi derrotado, e porque não dizer humilhado, exatamente num desses rachões. A Alemanha parecia o time dos casados que com experiência e toque de bola envolvia o time dos solteiros, na sua tradicional correria e desorganização. Assim foi, sem muita pressão os alemães tocavam a bola até chegarem na cara do gol, e lá decidiam a melhor maneira de marcar, no melhor estilo hotel-fazenda.

TORCIDA FASHION (29´ — Sami Khedira)

Não acho que se tivéssemos hooligans no estádio nosso destino seria diferente, mas realmente contar com essa torcida fashionista de copa do Mundo é de matar. Gente muito preocupada em pintar a cara combinando com a bolsa Louis Vuitton último modelo. Gente que parece mais preocupada em tirar fotos e postar nas redes sociais do que em torcer. Até porque mesmo quando quer torcer não sabe como, e acaba recorrendo as colas com cânticos que parecem ter sido escritas pelos grupos jovens das igrejas interioranas do Brasil.

O ESCOTISMO (69´ — André Schurrle)

O chororô e bom-mocismo dessa seleção de escoteiros me levava à loucura. De que adianta entrar perfilado como no grupo escolar da Tia Celi na Escola Municipal Padre Dehon, se sempre que tomamos um gol vamos nos desesperar. A união é necessária nesses momentos, e não cantando o hino aos berros e lágrimas. Para mim é inconcebível um time tomar sete gols e não ter nenhum jogador expulso. Não digo por uma jogada desleal ou violenta, mas digo por receber dois cartões amarelos resultantes da volúpia de impedir o adversário de seguir marcando gols. Isso pra mim fala muito sobre a alma dessa nossa seleção.

A PREPARAÇÃO (79´- André Schurrle)

No primeiro dia da Copa um repórter perguntou a um dirigente Alemão qual era sua primeira impressão do centro de treinamento na Bahia. Com um sorriso revelador o dirigente respondeu dizendo que na verdade aquela era sua sétima visita ao centro, e que ele havia acompanhado todos os estágios daquela construção. Isso sim é seriedade. Treinaram no calor e se prepararam para jogar em qualquer clima. A despeito do que se fala da Granja Comary não posso achar aquele um lugar adequado. Não dá pra ser aquele oba-oba de marquezines, hucks, globais e patrocinadores todo dia.

NEYMAR (90´ — Oscar)

Nosso atacante foi o nosso gol de honra. Enquanto o deixaram jogar ele fez tudo que se esperava dele. Ele liderou o time e fez tudo que podia para levar alegria aos brasileiros e infernizar defesas adversárias. Até o defeito de segurar demais a bola é um típico “problema bom de ter”, porque em última instancia é causado por excesso de habilidade e vontade de resolver. Duas coisas que nossa seleção está carente. Por sorte Deus, que tantas vezes escalou nossa seleção, o poupou desse vexame. Ele é muito novo, e por isso mesmo tenho certeza que vai poder ajudar bastante na reconstrução da Seleção brasileira para as próximas Copas.

Enfim, gostaria muito de terminar deixando uma mensagem de otimismo e dizendo que se não fossem esses problemas poderíamos ter ganho mais essa copa, mas não é o caso. Dessa vez vou dizer apenas o óbvio: parabéns Alemanha!

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