DONA LÚCIA: A VERDADEIRA CULPADA PELO VEXAME

[Publicado em 11/07/2014]

(Foto: Heuler Andrey/Mowa Press, via globoesporte.globo.com)

Dona Lúcia era conhecida por sua fé inabalável e seu canal direto com os santos mais poderosos. Quando queria algo, intercedia ao sobrenatural e era prontamente atendida. Acontece que o Universo busca sempre uma soma zero, então cada benfeitoria alcançada cobrava um preço inesperado. Foi assim quando rezou para que seu filho passasse no concurso da Petrobras e, recém-admitido, foi alistado na plataforma P-36, cujas explosões o deixaram parcialmente surdo. Ou quando, preocupada com a angústia da vizinha, rogou ao sobrenatural que a filha da Dona Amália não casasse com um moço de sabida má conduta; o rapaz acabou sendo eletrocutado quando tentava pular o muro da casa da amada.

Pois bem. Dona Lúcia, que nunca se interessou por futebol, ficou encantada com o megaevento esportivo em Terra Brasilis. Ela, que sempre alegou não entender nada de futebol, analisou toda a tabela da Copa que veio no encarte especial da edição de domingo do jornal. Comprou álbum de figurinhas dos jogadores, consultou todos os sites esportivos que existem — até mesmo um obscuro quatrotrestres.com.br, tido pelos entendidos como o melhor site esportivo desconhecido do hemisfério sul.

Abertura da Copa. Dona Lúcia tinha o terço em mãos para alguma necessidade. Acima de tudo, não queria que a pátria passasse vexame dentro de casa. É verdade que ficou um pouco incomodada com a performance da cerimônia de abertura, mas sabia que não era motivo suficiente para abusar do seu canal direto com o plano metafísico. Não demorou muito até que visse Marcelo cometendo inédito gol-contra brasileiro em Copas. Versada que estava nas possibilidades matemáticas do campeonato, começou reza forte para espantar o fantasma da eliminação ainda na primeira fase. Não deu outra: com ajudinha do juiz, a categoria de Neymar e o providencial fechamento de Oscar, ela se deu por satisfeita.

Já no dia seguinte, satisfeita com o atendimento do seu pedido, e com o fato de não ter tido nenhum revés em troca, achou que podia sacar um pouco mais do cheque especial do Além e pediu para que a Holanda partisse para cima da Espanha. Afinal, ela pesquisou também a Copa de 2010 e a Copa das Confederações e tinha mais medo da Laranja que da Fúria (sim, Dona Lúcia também já conhecia os nomes de guerra de todos os times, pois decorou todas as páginas do especial da Veja).

Ela, que nunca tinha sido perdulária nos desejos, achou que ainda podia ir além: queria mesmo era pegar o Chile. Certificou-se de assistir o 2×0, sem nem ter que apelar para que o talentoso time do estreito pais sul-americano triunfasse sobre a então psicológica e taticamente esfrangalhada seleção campeã. Também julgou procedente deixar o destino seguir seu rumo nos demais jogos do Brasil na primeira fase, apesar da angústia do empate sem gols contra o México. Afinal, juntou à sua crença nos santos, a inabalável confiança recém-adquirida no “Professor Felipão” — segundo ela “um grande homem e um ser humano ímpar”. Contra Camarões ficou quietinha assistindo o jogo, sossegada com a orientação daquele “homem íntegro e corajoso”.

Nas oitavas de final, o Cosmos começou a cobrar a apólice. Ela jamais esperava aquele sufoco da Seleção diante do Chile. Não teve dúvida que aquele gol anulado do Hulk era compensação pelo seu excesso de pedidos. Mas, desesperada que estava, sacou um pouco mais do crédito rotativo no momento em que Pinilla iniciou aquele chute que explodiu no travessão de Júlio César, aos 30 minutos do segundo tempo da prorrogação. Já que estava no vermelho mesmo, rogou intensamente para que as mãos do goleiro, conhecidas por serem “de alface” (ela não sabia se a alcunha era justa ou injusta, mas não lhe fazia diferença alguma) naquela disputa de pênaltis permanecessem firmes. Ironia do destino, a única coisa que Dona Lúcia sempre apreciou no futebol era a “loteria” dos penais. Mais uma vez o plano etéreo não só atendeu suas preces, como de lambuja lhe concedeu uma cobrança chilena na trave, que compensou os dois chutes infelizes de Hulk e Willian.

Arena Castelão, 4 de julho. Nem bem se passava uma semana do alívio da não-eliminação nas oitavas de final (em casa!) e a tensão já era quase insuportável, pois a Seleção enfrentaria a desta vez temida Colômbia. Arrependida estava Dona Lúcia, porque já tinha calculado todas as possibilidades de emparceiramento na segunda fase e garantido com três rosários, três vezes ao dia, durante três dias, que a Costa Rica e o Uruguai se classificassem. Embora inicialmente ela preferisse enfrentar a Costa Rica (“Deus nos livre daqueles campeões mundiais do Grupo da Morte!”), resolveu dar o primeiro lugar para Los Ticos depois de ver a bela exibição na abertura contra a Celeste sem Suárez. Desconhecido de Dona Lúcia até o segundo jogo, sua reza fez com que o craque se descontrolasse a ponto de dar a dentada impensada no zagueiro italiano e fosse suspenso da Copa.

O Brasil começou a partida contra a Colômbia jogando melhor do que as partidas anteriores, é verdade. Mas o coração de Dona Lúcia não aguentava mais tanta tensão e ela implorou a tudo quanto era mais sagrado que tudo se resolvesse logo: gol de joelho do capitão no começo do primeiro tempo e outro de falta do seu querido (“um ótimo menino, um ‘fofo’, como minha netinha gosta de dizer”) David Luiz no início do segundo. Faltando 10 min para acabar o tempo regulamentar, Dona Lúcia sentiu que os cobradores do outro mundo batiam à sua porta para reclamar a dívida: pênalti contra o Brasil, convertido pelo talentoso James, sem chances para o antes salvador JC. Logo em seguida, a violência despropositada sobre Neymar e o resto da história todos nós sabemos. Deu no que deu.

Arrependia, e ciente da própria culpa, Dona Lúcia mandou uma carta à Seleção, absolvendo Felipão de toda e qualquer responsabilidade.

Esta é até agora a explicação mais verossímil da hecatombe do dia 8 de julho de 2014.

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Originally published at quatrotrestres.com.br.

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