CAIXA-PRETA

[Publicado em 24/07/2014]

Muito bem, já estamos naquela fase em que poucos, mesmo os mais apaixonados, ainda aguentam abordar o assunto do fatídico 8/7/14. A maioria quer mesmo é esquecer e tocar a vida, que Copa do Mundo não paga as contas de ninguém (ou de alguns poucos apenas). Por outro lado, agora é exatamente a etapa em que a ferida ainda está em viva carne, mas o espanto já abrandou, o coração aquiesceu e a curiosidade inata humana começa a martelar, em lampejos, a cabeça dos mais inquietos. O sujeito abre a caixa de leite e pensa “como foi possível?”; está parado no trânsito, olha um moleque fazendo malabares e é assaltado pela dúvida “o que houve com nosso talento atávico?”; na fila do caixa, sofre a perseguição de um bando de “e se…? e se…?”, enquanto a atendente impacientemente aguarda a trivial decisão débito-ou-crédito, que ele não consegue responder com a mesma prontidão de outrora, pois uma ânsia por explicação fica rodando em background, intermitente, no seu córtex cerebral. Se isso assola o cidadão comum, não vai demorar até que venham as teorias mais elaboradas, as teses acadêmicas, as especulações estapafúrdias e quem sabe até um filme do Oliver Stone.

A maneira mais adequada entretanto pode ser a que se adota para investigar acidentes aéreos. A cobertura midiática desses infortúnios invariavelmente repete a máxima de que uma tragédia envolvendo aeronaves quase nunca acontece por uma única causa, mas de uma improvável e bizarra combinação de erros e falhas, muitos deles rigorosamente inéditos. Nesse processo, um sem-número de evidências é analisado à exaustão, dados são cruzados e confrontados, até que hipóteses vão sendo refutadas, reformuladas ou confirmadas. Vão-se juntando os fragmentos de informação que, com método, paciência e tempo, leva à composição de um mosaico que explica o ocorrido.

Pois bem, abrindo a caixa-preta daquela ocorrência funesta, alguns elementos merecem investigação (posterior e de outrem, que a empreitada carece de mentes mais enlevadas e almas mais abnegadas que a deste escrevinhador), porque não se lhe tem, até agora, explicação completa, irrefutável e única:

PRENÚNCIO (?) — “Aula de futebol”, “melhor time do mundo”, “resultado da coletividade”, “futebol moderno” e quejandos ladearam nas manchetes e crônicas os substantivos “vexame”, “vergonha”, “humilhação” e as símiles “partida entre profissionais e amadores”, “embate de adultos contra meninos”. Referem-se ao recente Brasil x Alemanha, certo? Não só, mas também: essas expressões foram as mesmas usadas para o 8×0 de 2/8/13 entre Barcelona e Santos (final do mundial interclubes, com Neymar ao lado de Messi) e o mais distante 18/12/11 (amistoso, com Neymar do lado de cá). Teriam sido aqueles jogos o prognóstico da hecatombe? Seriam sinais de falhas evidentes do futebol brasileiro que culminariam na morte dolorosa do ludopédio tupiniquim?

GERAÇÃO PERDIDA (?) — Como em outros fracassos, mesmo aqueles menores e cuja causa era evidente até para as mentes mais obtusas, fala-se agora em “renovação”, “trabalhar a base”, “descobrir e reter os novos talentos”. Perfeito, isso tudo é válido, mas: e o que dizer sobre MANTER os craques sendo… craques? Vivemos um período em que uma legião de bons jogadores simplesmente deixou de jogar bola: por contusão, por esbórnia, por depressão, por decisões erradas, por desilusão amorosa, por mandinga e sabe-se lá mais quais outros motivos. Essa Copa era para ter contado com Kaká, Pato, Ganso, Diego, Robinho, Adriano e mesmo o ancião Ronaldinho Gaúcho. A aridez de talento ou incapacidade desses atletas (quase todos repatriados) nos últimos tempos é tamanha que a convocação do Felipão foi marcada pela ausência de grandes ausências.

BRUXARIA (?) — Eis a matemática daquela partida fatal:

– finalizações: Brasil 18 x 14 Alemanha

– chutes no gol: Brasil 13 x 12 Alemanha

– cruzamentos: Brasil 22 x 10 Alemanha

– posse de bola: Brasil 52% x 48% Alemanha

– escanteios: Brasil 7 x 5 Alemanha

– impedimentos: Brasil 3 x 0 Alemanha

– cobranças de falta: Brasil 14 x 14 Alemanha

– bolas recuperadas: Brasil 46 x 34 Alemanha

– desarmes completos: Brasil 5 x 1 Alemanha

– passes completos: Brasil 79% x 82% Alemanha

– passes dentro da área: Brasil 19 x 11 Alemanha

– chances de gol: Brasil 55 x 34 Alemanha

Se alguém acordasse hoje de um coma profundo de um mês e visse esses números, qual seria o palpite do placar? Daria para explicar o 7×1 para o assombrado convalescente? Não adianta rever o jogo inúmeras vezes, você não se convence desses dados, e no entanto eles estão lá nas estatísticas oficiais da FIFA.

Enfim, são apenas fragmentos sem resposta, que um dia quem sabe ajudarão a explicar a catástrofe. O diabo é que nesse esporte imponderável, assim como na aeronáutica, algumas desgraças permanecem sem solução para sempre.

Originally published at quatrotrestres.com.br.

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