ESTUDO DE CASO SOBRE O PRECONCEITO: COMO COMECEI A APRECIAR O FUTEBOL AMERICANO

[Publicado em 18/11/2014]

“Não conheço, não gosto”. Essa é, em essência, a tradução da maioria das formas de preconceito. Talvez o bicho humano tenha em seu código genético algo que o estimule a evitar o diferente. Mas, da mesma forma que dispomos de civilização e cultura para amainar nossa violência atávica, também faz parte do nosso caminho evolutivo primata usar essas mesmas ferramentas para combater o preconceito que há dentro de nós mesmos, diariamente.

Ok. Mas como fazê-lo? Como poeticamente descreveu Leandro Beguoci, um dos pontas de lança do 433, o esporte existe também para entender e explicar a dinâmica da vida. Sendo esse blog um espaço para, em princípio, falar de esportes, recorro portanto, à guisa de ilustração em forma de manual de autoajuda, a um jogo pelo qual sempre nutri antipatia hepática e por isso mesmo completo desinteresse: o football americano.

1º. passo: reconhecer o próprio preconceito

Provavelmente por esse nacionalismo quase xenófobo que o brasileiro (embora não se dê conta disso) em geral tem, sempre olhei o football americano com má vontade. Jamais tinha assistido mais do que cinco minutos de uma partida e ainda assim era cheio de opiniões a respeito, alguns com certa razão, outras disparatadas. “É um jogo muito parado, não tem sequência”, “É bruto, primitivo, violento”, “São tantas regras e equipamentos que jamais poderia ser jogado na várzea, numa pelada”, “Como pode ser chamado de football se o pé só é usado em situações menos importantes, complementares?”, dentre tantas outras ideias, sempre no intuito de reforçar o próprio pensamento sobre o tema em vez de buscar uma análise isenta — algo humano, demasiado humano.

2º. passo: querer se livrar do preconceito

Às vezes é necessário abrir mão do estilo e recorrer a um lugar-comum para não prejudicar a clareza: mudar é difícil. Nossa mente e corpo o tempo todo nos incentivam a identificar padrões e estabelecer rotinas. De outra forma o cérebro demandaria tanta energia para funcionar que não seria viável. Entretanto, querer voluntariamente mudar é o que fez o ser humano sair das cavernas, onde vivia da caça ou coleta, para desenvolver agricultura, comércio, organização política, produção fabril, ciência, engenharia, arte, enfim, civilização. Pois bem, retornando ao estudo de caso em questão: certa vez um amigo comentou que seu programa televisivo de domingo à noite há tempos tinha mudado do enfadonho Fantástico para as transmissões ao vivo (em HD!) da ESPN. Aquilo me despertou a curiosidade e resolvi dar uma chance a esse esporte esquisito, em que a bola não é esférica, mas que conta com dezenas de milhões de aficcionados no país que mais promove e lucra com esportes de massa.

3º. passo: identificar semelhanças e entender diferenças

Mais ou menos na mesma época, eu estava fazendo pesquisas para escrever um texto sobre a lei do impedimento no nosso futebol, o “bretão”, quando acabei escarafunchando suas origens lá no Reino Unido do século XIX. Fiquei espantado ao ver que o rugby, de certa forma precursor do football americano, não só tinha a mesma origem do nosso futebol, como era jogado junto, não havendo regras padrão que marcassem claramente o que era um e o que era o outro. Ou seja, os três esportes eram ramos de um mesmo tronco, apesar de serem a princípio tão distintos. Só que, refletindo depois desse momento de revelação, era embaraçosamente óbvio que se tratava de variantes de uma mesma espécie. Senão, vejamos: os três têm onze jogadores de cada lado, traves, uma bola e o objetivo é levá-la à meta do lado adversário. No futebol há resquícios desse passado compartilhado — uso das mãos pelo goleiro e nas cobranças de lateral -, assim como no rugby e no football usam-se os pés — não há outra explicação senão a evolução a partir de um ancestral comum para que haja traves e a possibilidade de chutar a bola em sua direção, já que para os que não nasceram e cresceram acompanhando rugby ou football essa parte do jogo parece um elemento estranho à sequência da partida. Nesse ponto chegamos a um dos sustentáculos mais fortes de qualquer preconceito: ele obnubila a percepção e embota o raciocínio. Por mais que haja evidências das várias semelhanças entre os ligeiramente distintos, as diferenças têm importância desproporcional, como se nos víssemos em um daqueles espelhos distorcidos de parque de diversões mambembe. Enxergamos de maneira tão tortuosa, que não percebemos que a imagem ali refletida é, essencialmente, de nós mesmos.

4º. passo: curtir

Ao me permitir assistir às partidas de football com boa vontade e informação, e portanto sem o viés das ideias preconcebidas, passei a curtir bastante. Descobri que se trata de um jogo de estratégia. Que o técnico tem um papel fundamental e usa as dezenas de jogadores que tem à disposição como um enxadrista manipula as diferentes peças no tabuleiro. Que consegue aliar interesses comerciais de TV, patrocinadores e equipes aos anseios de atletas e torcedores. Que tem uma característica que antes eu só enxergava no nosso futebol — e nisso sempre vi o que talvez seja o principal responsável por sua popularidade planetária — trata-se de uma competição em que vários biótipos são aceitos e até necessários (há até alguns “atletas” com IMC muito acima do recomendado pelas associações de cardiologistas), com maior diversidade que o futebol moderno. Que é portanto também uma alegoria da nossa humanidade, tanto na sua vertente racional, quanto na sua igualmente legítima e definidora brutalidade animal. Que é um jogo de muita emoção, em que a qualquer momento pode acontecer um contra-ataque fulminante ou um lançamento magistral. Eis outro ponto fundamental para se passar a gostar de um esporte alheio: descobrir a estética do jogo, aprender a separar um lance trivial de uma jogada de gênio. A partir daí, buscar identificação com um time cujos valores, história e cultura representem a própria pessoa. Afinal, como afirmei no início deste texto, o ser humano gosta de identificar-se com seus semelhantes, e eis uma forma de canalizar essa necessidade: buscar o senso de pertencimento a partir da coletividade de algo em princípio inofensivo, como torcer por uma agremiação. Evidente que jamais terei pelo football a mesma paixão que carrego pelo futebol, que esses sentimentos se desenvolvem de verdade lá na infância. Dia desses perguntei ao Marcos Caetano, head coach do 433 e autodeclarado “torcedor roxo” do Green Bay Packers, histórico time “de uma cidade de trezentos mil habitantes, que sistematicamente coloca cem mil em seu estádio”, quais seriam as equipes fundamentais do esporte mais assistido dos EUA e ele respondeu sem pestanejar: “Lá existem três times arquetípicos. GB pela tradição e Vince Lombardi, 49ers pelo offense, Dallas pelo defense”. Fez uma analogia com escolas de samba (o que confesso que foi o que realmente me fez compreender melhor, mas que não reproduzo aqui já que citação já tão extensa poderia ser configurada como plágio ou na melhor das hipóteses reprodução não autorizada) para depois arrematar:

- Green Bay: national treasure.
- 49ers: the dream team, the golden team.
- Dallas: all-american team.
- Os demais: nunca serão.

Falou o mestre.

Buscar vencer o próprio preconceito é, acima de tudo, algo potencialmente benéfico para a própria pessoa. Não apenas para ser socialmente aceito, mas por uma razão basicamente egoísta: ao buscar conhecer o até então insondável, o indivíduo passa a se conhecer melhor e a se permitir novos conhecimentos. Passa a entender melhor o mundo e a existência humana. Só há vantagens em assim proceder. Se você é religioso, assim “não estará julgando, para não ser julgado”. Se tem amigos, não será visto como obtuso. E se você tem filhos, para que não seja tido por eles como retrógrado, como certeiramente escreveu uma amiga: “Os fatos nos convidam a mudar. Eu confesso que tenho preconceitos entranhados na educação que recebi desde os anos 80, mas logo lembro que tenho um filho, para quem devo passar valores em que acredito, sabendo que devo contribuir para a formação de uma pessoa que irá atuar em um mundo diferente do meu. Tolerância, eis a lógica dessa época de agora.”

Sem mais.

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Originally published at quatrotrestres.com.br.

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