GALLARDO PAROU DE CHUTAR MAS NÃO PAROU DE GANHAR

Gallardo: “Gestiono un equipo y trato de hacerlos sentir valorados y convencidos”

Muñeco, como é conhecido pela torcida do River Plate, parou de jogar a quatro anos atrás e como muitos outros aposentados da bola, optou por permanecer no futebol como treinador e o sucesso que obteve nos gramados está se repetindo agora como técnico. Sua primeira experiência na casamata foi no Nacional-URU, clube onde consquistou sua última taça como jogador, e de cara foi campeão uruguaio em 2011 como técnico. Assumiu o River em junho de 2014 e em menos de 40 jogos pelos Millonarios já tem mais títulos internacionais que Fluminense e Botafogo juntos: Copa Sul-Americana, Recopa Sul-Americana e a Libertadores da América, em sequência.

Garoto pobre da província de Merlo, aos 7 anos, queria ser piloto de avião e não gostava de futebol. Mas um dia, aos 9 anos de idade, o menino Marcelo que não queria saber da pelota, agarrou a bola e nunca mais largou. Seu primo não podia acreditar no que via, fazia de tudo com a bola, de um dia para o outro.

“Una vez que la agarré, no la solté. Fue mágico.” — disse o hoje técnico ao jornal Lá Nacion.

Muñequito foi um grande jogador da história recente do futebol argentino. Gallardo sempre esteve entre os mais habilidosos de sua época. Ganhou quase tudo como jogador pelo River, estreou na equipe de cima em 1992 aos 17 anos e ganhou 5 campeonatos argentinos, 1 libertadores e 1 supercopa libertadores até se transferir ao Monaco em 1999. Entre idas e vindas para França ainda deu tempo de ganhar mais um campeonato argentino em 2004 pelo River. Marcelo se aposentou no mesmo Nacional-URU onde iniciou sua recente carreira de DT.

Quis o destino que quando chegasse ao River fosse para substituir Ramon Diáz, seu treinador na época mais vitoriosa do River nos últimos 20 anos. Ramon treinou a equipe que venceu a Libertadores de 1996. Um time mítico dos Millonarios comandados por Francescoli e Crespo.

Escalação da final: Burgos; Hernán Díaz, Ayala, Guillermo Rivarola e Altamirano; Almeyda, Escudero (Gómez), Cedrés e Ortega (Sorín); Francescoli e Crespo (Gallardo)

Não, o River Plate não joga o futebol mais bonito das Américas e não parece capaz de fazer frente ao Barcelona. Foi inferior ao Tigres em quase todos os momentos da Copa e mesmo assim levou o título para o Monumental. O culpado é Gallardo.

Começou muito mal essa jornada vencendo apenas uma partida na fase de grupos, a última. Ainda dependia que, veja só, o Tigres vencesse ou ao menos empatasse a sua partida final nessa fase, fora de casa. Num jogo com duas viradas os mexicanos bateram o Juan Aurich-PER e assim deram ao River a chance de continuar na competição. A partir daí, Gallardo dá uma aula de como transformar uma equipe na fase eliminatória. É verdade que, às vezes, seu time passava do ponto nas faltas, como foi na única partida terminada do superclasico nas oitavas. Também é verdade que não dava um único espaço no meio-campo. Fez sua pior partida no mata-mata contra o Cruzeiro em casa quando não matou o jogo no primeiro tempo e viu os mineiros pressionarem no fim da partida, Marquinhos fez o gol que parecia mais uma vez acabar com o River nessa edição da Copa. A imprensa brasileira já dava como certa a classificação azul e projetavam um confronto nacional nas semi-finais. Resultado: 3 a 0 River fora os ameaços. A fórmula? muita marcação no meio-campo, liderada por Kraneviter. Jogadas de bolas paradas ensaiadíssimas. E mais uma vez, assim como em 1986 e 1996, um uruguaio como dono das ações ofensivas no meio-campo: Sanchez. À essa altura, Marcelo já tinha mudado o jogo e fez do River candidato ao título e nem se preocupou com a perda de Téo Gutierrez, melhor jogador da América em 2014. Trouxe Lucas Alario, centro-avante do Colón, para substituir ao colombiano que foi jogar em Portugal pelo Sporting.

Pela primeira vez, River era o favorito numa partida eliminatória, e passou sem dificuldades pelo Guarani-PAR que havia eliminado Corinthians e Racing. O dedo do técnico estava ali mais uma vez: Alario fez o gol da classificação no Paraguai.

Ao mesmo tempo que perdia jogadores machucados ou negociados, Gallardo ganhava novas opções dentro do próprio grupo
Rodrigo Mora faz um golaço na partida de ida das quartas
Mercado fez o primeiro gol numa partida nervosa. Mais uma vez numa jogada parada o River decidia a partida.

Enfrentaria o já conhecido Tigres na final, este reforçado por três contratações: Jurgen Damn — de acordo com jornais mexicanos o segundo jogador mais rápido do mundo — Aquino e o francês Gignac — vice-artilheiro do último campeonato francês.

Na partida de ida no México, Gallardo perdeu mais dois jogadores: Rodrigo Mora por lesão e o lateral direito Mercado levou o terceiro cartão amarelo. Perdeu jogadores, mas não a partida.

Eram desfalques importantes, jogadores que não possuem substitutos naturais no elenco e mais uma vez Gallardo surpreendeu. Chamou Cavenaghi que claramente não tem mais condições de jogar partidas tão decisivas e num nível alto de competição. Elencou Cavenaghi por sua importância histórica. Jogou a responsabilidade em alguém que era capaz de absorver a pressão e pudesse aí tirar uma vantagem ao seu time visívelmente inferior técnicamente. A estratégia técnica era bem clara: plantar os dois centro-avantes, Cavenaghi e Alario, dentro da área e obrigar ao Tigres uma postura mais cautelosa. Contou com a sorte por diversas vezes, Sóbis não dominou a bola que em 2006 dominaria, Gignac não finalizou como finalizaria num jogo mais tranquilo contra o Rennes na Ligue One, Aquino estava irreconhecível e Jurgen Damn precisa aprender a fazer outra coisa com a bola que não seja correr.

A camisa pesou, o estádio pesou, a marcação foi pesada. O juiz foi caseiro. Os cartões apareciam aos montes para os mexicanos mas isso já era sabido por todos antes de entrar em campo. Cavenaghi deveria ter sido expulso, assim como as faltas de Ponzio foram todas para cartão. O Tigres não entendeu que tinha mais esse adversário e foi presa fácil. Gallardo, ainda deu mais uma prova de que o Muricybol não morreu, no final do jogo, o fraco zagueiro Funes Mori fechou o caixão num escanteio batido por Pisculichi jogada já conhecida da Copa Sul-Americana do ano passado.

Assim, o River de Gallardo faz história na América. Diego Simeone faz o mesmo no Atlético de Madrid, mais um ex-jogador argentino que triunfa no banco depois do sucesso nos campos. Você pode não gostar desse estilo de jogo, dessa coisa truncada e feia que ambos vêm fazendo prevalecer ao futebol técnico dos adversários, mas a ida de Muñeco para a Europa, possívelmente à França, é algo inevitável e assim eles vão transformando o futebol do velho continente num microcósmos de Sudamerica.