GALVANOTIPIA

[Publicado em 02/07/2014]

“A gente só joga no ataque” é o lema deste tabloide eletrônico. Calouro que sou no time, não posso me dar ao luxo de “pedir pra não bater pênalti” e ficar de fora da histórica goleada do quatrotrestres desde ontem: 4 posts até o momento.

Em parte porque a palavra galvanótipo inexplicavelmente martelava minha cabeça, como um título em busca de um texto, em parte porque o melhor site desconhecido de futebol tem um alçapão mais recôndito ainda (o grupo de WhatsApp de seus colaboradores), sob o qual se discute tudo o tempo todo, um fluxo de pensamento incessante, estimulado pelo sobe-e-desce emocional dos últimos dias, exigia ser transcrito ao papel.

Assim, me preparo para [um tiro de 11 metros de] vários clichês nas próximas linhas.

[Pego a bola, caminho lentamente para a marca do pênalti.]

Para ganhar uma Copa, é necessário combinar tática, talentos individuais, garra e sorte.

[Ajeito a bola, olho para o goleiro.]

A Copa dos goleiros milagreiros. Qual seria a média de gols + milagres dessa Copa?

[A estatística e a lógica dedutiva me mandariam chutar no meio, forte.]

Tática já se sabe que não é o forte do Felipão. Pelo menos o Parreira está lá, ainda resta alguma esperança (a despeito de 2006 e o ilusório “quadrado mágico”…).

[Se o goleiro defender, vão me chamar de burro.]

A Copa das Copas. A Copa dos Copos. A Copa das Zebras. Ou seria a Copa do Equilíbrio?

[Melhor no alto, no canto. Assumo o risco.]

Fazer as alterações necessárias no time, render-se às evidências: o time está jogando mal.

[Respiro fundo. Encaro o goleiro. Escolho o lado. Dissimulo.]

Talentos individuais. Nunca tão escassos para nós, nunca tão ausentes quando imprescindíveis. Ochoa, Sáchez, Pinilla? Não são um Neruda, longe de serem um Paz. Seria James (leia-se “Rames”, não “Djeimes”!) um García Márquez? Temos agora apenas um Machado — não é pouco! Mas já tivemos Rosa, Ramos, Bandeira e Verissimo ao mesmo tempo. Deus nos livre de enfrentarmos o Borges.

[Passos para trás. Corridinha para frente. Apoio na perna esquerda, alavanca com a direita.]

Garra nos falta: na torcida e em campo. A torcida não ajuda. O time chora descontroladamente. A Copa das Viradas. A partida contra a Colômbia pode (tem que!) ser o jogo da virada. Jogar em casa de verdade. Jogar direito. Jogar bonito.

[Goleiro pula para a direita, chuto no outro canto — mais forte do que devia. Tomara que a trave se mova um pouco mais para lá. Rogo sorte durante o voo interminável. Pênalti sempre carece de um pouco de sorte.]

Tivemos sorte. Argentina também. Tenho mais medo da Argentina com sorte que jogando bem.

[Observo a bola chegando ao fim do seu trajeto.]

A Copa que não ia acontecer já está no seu fim. Quem sabe a Seleção contraria as evidências e o histérico Galvão vai gritar um atualizado e ainda mais tresloucado “É Hexaaaa! É Hexaaaa!”.

[A angústia vai acabar, de um jeito ou de outro.]

A angústia vai acabar, de um jeito ou de outro.

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Originally published at quatrotrestres.com.br.

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