EPITÁFIO

[Publicado em 22/07/2014]

Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante, existiu um programa de TV chamado Grande Resenha Facit. O conceito de mesa redonda sobreviveu à passagem dos anos e chegou, ainda que envelhecido e amargurado, aos dias de hoje. Já as máquinas de escrever Facit, que patrocinavam o falecido programa dos anos 70, bem como a TV Rio, que o lançou em 1963, ficaram pelo caminho. O que não se discute é que a cultuada mesa foi a gênese de tudo o que veio depois no universo da cobertura esportiva. Os titulares da resenha eram: Armando Nogueira, Nelson Rodrigues, João Saldanha, José Maria Scassa, Hans Henningsen (o célebre “Marinheiro Sueco”),Vitorino Vieira, o ex-jogador Ademir e, como âncora, Luiz Mendes, “o comentarista da palavra fácil”.

Não tenho idade para ter visto a Resenha, o que é uma falha grave na biografia de qualquer cronista esportivo, mas conheço histórias formidáveis sobre grandes ideias, frases, tiradas e pancadarias verbais que floresceram naquele covil de craques. Quem mais brigava — além do João Saldanha, que batia boca até com presidente milico — eram Nelson Rodrigues e Armando Nogueira. Isso porque, enquanto Nelson era um autêntico Policarpo Quaresma, defensor da indiscutível supremacia futebolística do Brasil, Armando não conseguia disfarçar sua admiração pelas escolas europeias, algo que vinha dos tempos da gloriosa Hungria de Puskas. E foi antes mesmo da Resenha Facit, ainda na copa de 1958, que Nelson, mestre dos mestres dos mestres cronistas, eternizou em um texto antológico a rixa com o colega.

Na tal crônica de 1958, o pernambucano tricolor desancou as teorias do acriano botafoguense, que defendia com devoção a supremacia física dos atletas soviéticos (outra coisa que o tempo varreu das nossas vidas). Para Armando, com férrea disciplina e jogadores com saúde de vaca premiada, a União Soviética aplicaria uma inapelável sova nos talentosos, porém pouco preparados brasileiros. Ocorre que, para azar das teorias sobre a superioridade física e espiritual do Velho Continente e para sorte de Nelson e do Brasil, Garrincha e Pelé estrearam em copas do mundo justamente naquele jogo. Como gostava de dizer Didi — que, aliás, bancou a escalação dos dois gênios –, o que corre é a bola. E assim foi. Em poucos minutos, Garrincha desmontou o Sputnik do Armando e, com dois de Vavá, a Seleção ganhou sem fazer força. O título da crônica do Nelson não podia ser mais explícito: “As vacas premiadas somos nós”. Uma obra-prima, cujo recheio eu nem preciso comentar.

Catorze copas e cinco títulos mundiais brasileiros depois daquele jogo, é deprimente constatar que não somos mais as vacas premiadas. A coisa, no entanto, é bem pior do que parece. Sim, porque o Brasil podia ao menos ter cumprido tardiamente a profecia do Armando para a Copa de 1958: um time brilhante e talentoso que acabaria derrotado por outro mais forte atleticamente e mais organizado taticamente. Foi assim que perdemos em 1982, por exemplo, sem que sentíssemos um pingo de vergonha, embora náufragos em um oceano de dor. O problema da Seleção Brasileira que levou a maior goleada de sua história centenária foi que não apenas os alemães foram as vacas premiadas como também carregaram o estandarte do jogo bonito. Isso sim, é o que me causa profunda depressão — no sentido tarja preta da palavra.

A Alemanha da última e já saudosa Copa do Mundo (embora definitivamente não por isso) varreu o nosso time do mapa jogando como uma espécie de cruzamento do Brasil de 1982 com a União Soviética de 1958. Confesso que, ao ver os alemães treinando na sauna para simular o calor dos jogos de uma da tarde, o moderno centro de treinamento construído por eles, os reservas que davam piques em campo logo após o apito final dos jogos oficiais, não me impressionei. Ao contrário: tive foi um acesso de Nelson Rodrigues. Disse para mim mesmo que aquilo tudo era visagem, que os alemães eram os novos soviéticos, que nosso talento ia falar mais alto, que o malemolente menino Neymar — qual um Macunaíma emo de óculos de aros grossos — resolveria a parada e que, ao fim e ao cabo, as vacas premiadas continuariam sendo nós. Pura ilusão.

Quando eliminamos os valentes Chile e Colômbia, deixei o estádio com aquele velho chavão na cabeça: jogaram como nunca, perderam como sempre. Depois do 7 x 1, com o mundo como conhecemos já totalmente devastado, o que me veio à cabeça, além de uma puta dor, foi o seguinte: perdemos como nunca porque jogamos como nunca. De fato, nunca jogamos tão mal uma partida de futebol. Simplesmente não é suposto que o Brasil perca um jogo daquela maneira. Nem nos mais doces sonhos dos alemães, nem nos meus mais atrozes pesadelos. Nem quando eu sou o Brasil e meu filho João — um sarilho do FIFA 14 — opera o joystick pela Alemanha.

Tenho quase 50 anos, o que me credencia como um ser meio velhusco que já viu o Brasil perder a bagatela de nove copas. Nenhuma delas — repito: nenhuma! — com mínimos vestígios de desonra. Inventário breve: Em 1974 perdemos de 2 x 0 para o time que inventou o futebol moderno; em 1978 não perdemos um jogo sequer e fomos mesmo é roubados; em 1982 perdemos e o mundo chorou conosco a morte definitiva do futebol sublime; em 1986 perdemos em uma decisão por pênaltis; em 1990 perdemos nosso melhor jogo para um passe de Maradona; em 1998 e 2006 perdemos para Zidane e a melhor geração da história do futebol francês; e finalmente em 2010 dominamos o jogo, mas perdemos para uma espetacular Holanda. Arrependimentos? Alguns. Vergonha? Absolutamente nenhuma.

O inapelável saldo final é que nós não somos mais as vacas sagradas. E, pior, que os arautos do futebol-arte agora são eles. Nossa lápide da Copa de 2014 poderia trazer a seguinte inscrição: “Aqui jaz o Brasil que tentou jogar como Alemanha, humilhado por uma Alemanha que ousou jogar como Brasil”. Mais devastador do que isso, impossível. Que a terra nos seja leve. Porque derrotas são passageiras, mas vergonhas são eternas.

P.S.: Nelson Rodrigues não era dado a jabás e, por isso, escrevia seus textos em uma máquina Remington.

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