NEM SEMPRE AOS DOMINGOS

[Publicado em 05/08/2014]

Há vinte anos, depois de vinte e quatro anos de espera, o Brasil ganhava o Tetra.

No momento em que o Baggio perdeu o pênalti e o Galvão (e o Brasil inteiro) começou a gritar, naquela explosão de sentimentos eu só conseguia pensar em duas coisas: no Senna e na eterna gozação dissimulada dos meus tios nos almoços familiares de domingo na casa do meu avô.

Eu ainda não tinha chorado a tragédia que ocorrera havia pouco mais de dois meses, em parte porque não assistira a corrida ao vivo, em parte porque não queria acreditar — até aquela idade a morte simplesmente não fazia parte da minha vida. Enquanto a bola subia infinitamente no Rose Bowl, o característico “Tema da Vitória” foi tocado na transmissão da TV, em meio à histeria coletiva.

“Agora eu também vi o Brasil campeão!”, eu queria poder dizer aos meus tios, que sempre diziam que meus primos e eu jamais havíamos visto o Brasil ganhar uma Copa, que não tínhamos ideia do que era isso e eu sentia uma inveja corrosiva, pois tinha certeza de que nunca veria mesmo.

Eu estava na sala da minha mãe. Chorei tanto — e aqui não há hipérbole — que ficou uma poça de lágrimas no chão. Meu avô estava junto.

Dias antes, numa segunda, quatro de julho, eu tinha sido estúpido com meu avô que, como todos os sábios, era incapaz de fazer uma grosseria com alguém. Estávamos assistindo o tenso jogo de oitavas-de-final entre Brasil e EUA e ele fazia pilhéria do meu nervosismo. (Como todo sábio, meu avô tinha um humor refinado e provocador.) Houve um instante em que não aguentei e declarei minha irritação profunda com aquela atitude. O velho ficou numa mágoa só. Na época me arrependi, claro, mas depois achei que minha culpabilidade era injusta. Afinal, eu só tinha pedido que ele parasse com aquilo, que Copa do Mundo era a coisa mais importante do universo — pelo menos do meu universo até então. Mesmo sabendo no íntimo que eu não havia feito nada demais, em duas ou três ocasiões, anos depois, eu reiterei sinceramente o pedido de desculpas.

Oito anos depois, no Penta, o vovô já não estava por aqui. E no apito final daquela extasiante manhã de domingo, eu chorei. Também por ele.

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Originally published at quatrotrestres.com.br.

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