O HOMEM QUE CONTAVA OS SEGUNDOS

Preso entre os dentes do juiz, o apito metálico tremia covardemente ao tentar se equilibrar no precipício labial em que se encontrava. A iminência do apito inicial parecia atrasar o próprio tempo. Lentamente, o punho esquerdo do árbitro se levantou, cerrado, e o cronômetro preso a ele foi zerado. Zero segundo e zero milésimo. A mão direita subiu, espalmada e rígida, e apontou certeira em direção ao centro do campo. Veio então o silvo inconfundível — um assopro tão forte que quase terminou por empurrar o apito metálico do abismo. O som pareceu dar vida a tudo. No punho esquerdo do árbitro, ainda cerrado, disparou o cronômetro. Simultaneamente, a mão direita, já estendida, indicou com um movimento claro que a bola podia e devia ser tocada para frente. Iniciou-se assim a partida. Era o primeiro segundo de jogo.

A vida adentrou Osmar pelo ouvido e atravessou seu corpo como um choque gelado. O camisa oito deu um biquinho leve na bola, fazendo com que ela saísse de cima da linha que dividia o gramado, obedecendo assim a instrução do juiz. Depois do toque, Osmar fez o sinal da cruz — mais por mania que por fé — e tirou seu corpo já previamente aquecido do momentâneo estado de repouso em que esteve por alguns instantes. A bola, por sua vez, muito mais rápida que o mais rápido dos homens, enquanto Osmar dava seu primeiro trote na parte adversária do círculo central, já chegava aos pés do volante Claudino, que faria com que ela chegasse — como sempre o fazia — ao zagueiro Fumaça, capitão da equipe. O cronômetro no punho esquerdo do árbitro alcançava os dois segundos de jogo.

Osmar não vivia seu melhor momento dentro de campo. Aliás, muito longe disso. Para o camisa oito nunca houve um bom momento, por assim dizer. Os lampejos de um virtuoso futebol, se somados aqui e ali, não davam um momento inteiro, se é que isso pode ter qualquer tipo de completude. Verdade é que Osmar demonstrava ter mais talento com a sorte que com os pés. Seu time, o Operário de Tocantins, havia conseguido a vaga na Copa do Brasil por um milagre quase que Expeditino — e o mesmo milagre se operou com Osmar. Ferrolho, o meio campo titular do time que conquistou a vaga, tinha sido transferido de município nesse meio tempo entre a classificação e o início do campeonato — Ferrolho trabalhava para o Banco do Brasil. Buiu, o reserva, distendeu a virilha pouco antes da estreia e foi cortado. Peladeiro profissional, assíduo frequentador do bar do Estádio Ribeira Alves e amigo dos boleiros da cidade, Osmar foi convocado para preencher a vaga no meio campo. Vestiria a camisa oito na estreia contra o gigante Palmeiras. Porém, por insegurança inconsciente ou consciência total de sua incapacidade, assim que tocou a bola Osmar direcionou seu trote na diagonal contrária a qual ela corria — uma troca de passes entre o lateral direito Fusca (“Vai, mas num vorta.”, brincava a torcida) e o volante Claudino. A distância da bola reconfortou Osmar em seu nervosismo. Manter-se distante dela o manteria distante da infâmia inevitável, o que mais o apavorava. Decidiu: faria isso durante os noventa minutos — correria sempre em direção contrária a ela. Se tivesse que tocar, tocaria sempre para trás, para evitar qualquer erro. Não havia vergonha alguma nisso; vergonha maior seria dar vexame. Nem era para ele estar ali mesmo. Ferrolho maldito! Tinha que ter sido transferido bem agora? Estava decidido — e a decisão foi aos três segundos de jogo.

Sem ter nada com isso, a bola rolava prosaica pelo gramado. Fusca a recebeu de Fumaça; um atacante adversário se precipitou entre os dois, impedindo a costumeira devolução de Fusca para a zaga. O lateral direito teve então que tocar para o meio. Claudino, volante-volante, como dizem por aí, recebeu a bola e girou, buscando um clarão na lateral esquerda. Acontece que o Palmeiras era muito mais time que o Operário e marcava a saída de bola deles. Os atacantes alviverdes bloquearam as opções mais óbvias de Claudino (Osmar não se classificava como uma, para registrar.). O volante, sem opção, pensou em recuar para o goleiro Jongo, mas um som fez com que mudasse de ideia. Foi “pss”, acima de seu ombro direito. Claudino sabia o que isso significava: era o Fusca subindo. O cronômetro marcava quatro segundos.

Osmar viu o lance da intermediária rival: Fusca deu o sinal e avançou nas costas do ponta esquerda palmeirense. Claudino bateu sem olhar — depois de anos jogando juntos, ele sabia exatamente para onde Fusca correria. A bola foi lançada atrás dos volantes adversários. O corredor estava livre e Fusca vinha com tudo. O lateral do Palmeiras se adiantou, mas com um toque leve Fusca o deixou para trás. Cinco segundos.

Osmar não poderia deixar de acompanhar o lance. Se corresse para trás, na direção contrária, sua fuga covarde seria desmascarada em transmissão nacional. Sem ter o que fazer, correu para o ataque, mas para não ficar livre e correr o risco de receber um cruzamento, se escondeu atrás de um volante adversário. Ficaria ali até que a investida se perdesse pela linha de fundo — afinal, Fusca jamais passaria pelo zagueiro que fazia a cobertura. Porém, para sua surpresa, Fusca passou. Seis segundos.

Diante da possibilidade de marcar — talvez a única que teriam no jogo, os atacantes do Operário avançaram em direção ao gol. Fusca tinha a cabeça de pé e calculava a medida exata da força e da curva que colocaria em seu chute para que a bola alcançasse algum deles. Mas não era Fusca quem decidiria alguma coisa ali. Nem ele, nem Claudino, nem mesmo o Palmeiras. Todos as suas vontades eram, naquele campo, uma enorme besteira. Naquela noite, afinal, era o destino quem estava jogando. Como Fusca tinha deixado um zagueiro palmeirense para trás, foram os volantes que tiveram que entrar na área para defender o gol palestrino. Um deles era aquele atrás de quem Osmar se escondeu no início do lance. Desfeito seu esconderijo, mesmo sem querer, ficou livre. Fusca o avistou e cruzou em sua direção; a Osmar coube fazer a única coisa que lhe restava naquele instante: fechar os olhos e chutar. O cronômetro no punho esquerdo do árbitro marcava sete segundos e vinte e três.

O Operário de Tocantins não conseguiu avançar uma fase sequer da Copa do Brasil. Também não conseguiu marcar um golzinho que fosse diante dos seis que tomou do Palmeiras em São Paulo. Mas nada disso importou aos habitantes da pequena cidade. Dentro de casa, haviam vencido a primeira partida contra o então campeão nacional por um a zero e forçado o segundo jogo. Só isso já bastava: o nome do time estava estampado nas manchetes dos principais jornais do Brasil em letras garrafais: OPERÁRIO. E mesmo depois que as colunas esportivas esqueceram a humilde façanha daquele Davi que derrotou um Golias, outro motivo de orgulho ainda restava: o nome do herói daquele feito ficaria registrado para sempre na história da competição: o gol mais rápido da Copa do Brasil — Osmar, 7s23.

O que ficou no papel, contudo, é bobagem. Sorte que não havia nem internet nem celulares na época, pois estes só fazem destruir lendas. A cada vez que contava sua história, Osmar a contava diferente: na noite anterior, sonhou que faria o gol da vitória — e não deu outra, foi aos 7s15. Acordou sentindo algo estranho, como se suas pernas quisessem correr uma prova de cem metros rasos — e não deu outra, foi aos 6s48. No vestiário, na hora em que os jogadores se abraçaram para rezar, teve uma visão de que faria o gol em menos de dez segundos — e não deu outra, foi aos 5s36. Quando Fusca chegou na linha de fundo, ele teve que gritar, pois caso contrário Fusca não tocaria — e não deu outra, foi aos 4s58.

Ao longo do tempo, os próprios habitantes e torcedores do Operário criaram suas versões daquele tento. Diz que baixou um espírito que fez ele correr mais rápido que todo mundo — e fez o gol aos 4s13. Diz que ele tinha meio que um pacto com o bicho-ruim — e fez o gol aos 3s33. Diz que no estádio tinha mais de duzentas mil pessoas (quatro vezes mais do que tem hoje a cidade) — e ele fez o gol aos 2s39.

Assim, a contar segundos, Osmar passou sua vida. Não fez fortuna com seu grande momento no futebol, mas de um jeito ou de outro, viveu dele. Fazia aparições em eventos sociais, dava pontapé inicial em campeonatos pelo interior, fez discursos em aniversários de cidades vizinhas e, por quatro anos, até exerceu mediocremente a função de vereador. E cada vez que contava sua história, mais rápido tinha sido o gol. Chegou a inacreditáveis 1s19.

Osmar morreu aos sessenta e quatro anos, bastante debilitado por uma doença que consumiu suas memórias. No leito de morte, pediu para que seus familiares lhe contassem a história daquele covarde que marcou um gol sem querer contra o Palmeiras. “Não me venham com a versão de um segundo e pouco!”, berrou. A versão de sete segundos, ele pediu. Já não tinha pressa alguma.

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Originally published at quatrotrestres.com.br.

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