O HOMEM QUE FANTASIAVA O CARNAVAL

Muitos anos depois, frente à marca do pênalti e o gol, o capitão Amaral Bonfim, camisa quatro e braçadeira, recordaria aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o carnaval.

Fama, no sul de Minas, era então uma cidade de vinte e tantas casas simples e convidativas, construídas à margem de um lago de águas diáfanas, a represa de Furnas, que se precipitavam por um leito de pés de café. O mundo era tão recente para o menino Amaral Bonfim que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo. Todos os anos, por uma semana de fevereiro, um cortejo de foliões fantasiados plantava o seu bloco na cidade e, com um grande alvoroço de apitos e tambores, dava a conhecer os novos inventos.

Primeiro trouxeram o confete. Um folião corpulento, de barba postiça e gancho no lugar da mão, que se apresentou com o nome de Barbarossa, fez uma divertida demonstração pública daquilo que ele mesmo chamava de “a farra da chuva”, uma maravilha criada pelos alquimistas do carnaval. Foi de casa em casa arremessando confetes pelas janelas, e todo o mundo se espantou ao ver aquela chuva colorida, que caía fazendo bagunça nas casas antes silenciosas, e o chão das salas se fantasiava de arco-íris, os móveis de madeira maciça remexiam suas cadeiras, e até os objetos perdidos há muito tempo apareciam onde mais tinham sido procurados, e corriam atrás daquele que fazia chover alegrias. “As coisas têm vida própria”, apregoava o folião com sotaque bêbado, “tudo é questão de despertar a sua alma.” José Amaral Bonfim, pai de Amaral Bonfim, cuja desatada imaginação ia sempre mais longe que o engenho da natureza, e até mesmo além do milagre e da magia, pensou que era possível se servir daquela invenção inútil para jogar na água e fazer tinta, e ganhar dinheiro algum com isso.

Barbarossa, que era um pirata bêbado, porém honrado, preveniu-o: “Para isso não serve.” Mas José Amaral Bonfim não acreditava, naquele tempo, na honradez dos piratas e arlequins, de modo que trocou sua vaca e seus leitões por dois sacos de confete. Úrsula Inácio, sua mulher, que contava com aqueles animais para aumentar o raquítico patrimônio doméstico, não conseguiu dissuadi-lo. “Muito em breve vamos ter tinta de sobra para pintar essa cidade inteira”, respondeu o marido. Durante vários meses empenhou-se em demonstrar o acerto das suas conjeturas. Passou dias separando os confetes por cores. Depois, misturou-os em água, em álcool, em cachaça e até em sua urina. Mas nada de tinta. Tudo o que conseguiu foi uma parede da sala manchada em vários lugares.

Em fevereiro os foliões voltaram. Desta vez traziam serpentinas, que exibiram como a última descoberta dos salões cariocas. Uma colombina foi para a frente do bloco que tomava a praça, Barbarossa ficou no fundo. Atiraram-se as serpentinas, que cortaram o céu em dois fios de cores que sambavam no ar. “O carnaval elimina as leis da física”, apregoava trôpego Barbarossa, que neste carnaval já vestia outra fantasia mas José Amaral Bonfim insistia em chama-lo pela alcunha do pirata. “Dentro em pouco o homem vai pular carnaval voando.” José Amaral Bonfim, que ainda não se consolara de todo do fracasso dos seus confetes, concebeu a idéia de utilizar aquele invento como uma ferramenta de comunicação entre cidades. Barbarossa, outra vez, tratou de dissuadi-lo. Mas terminou aceitando três moedas de dinheiro colonial em troca das serpentinas. Úrsula chorou de consternação. Aquele dinheiro fazia parte de um cofre de moedas de ouro que seu pai acumulara em toda uma vida de privações e que ela havia enterrado debaixo da cama, à espera de uma boa ocasião para investi-las.

José Amaral Bonfim nem sequer tentou consolá-la, entregue que estava por inteiro às suas experiências táticas, com a abnegação de um cientista e até mesmo com o risco da própria vida. Tentando demonstrar as qualidades da serpentina como meio de contato entre cidades vizinhas, ele mesmo se expôs a perigosos arremessos do alto dos morros das Minas Gerais. Diante dos protestos da mulher, alarmada por tão perigosa inventiva, passava longas horas no quarto, fazendo os cálculos das possibilidades do invento, até que conseguiu compor um manual de uma assombrosa clareza didática e um poder de convicção irresistível. Tentou vendê-lo aos Correios.

Por fim, cansado de esperar uma resposta da companhia, lamentou-se diante de Barbarossa do fracasso da sua iniciativa e o folião, então, deu uma prova convincente de sua honradez líquida: devolveu-lhe os dobrões e deixou, para ele, além disso, uns discos de marchinhas e sambas-enredos e vários instrumentos musicais. De seu próprio punho e letra escreveu uma apertada síntese do conhecimento musical baiano e carioca, que deixou à sua disposição para que pudesse se servir dos confetes, serpentinas e instrumentos musicais.

José Amaral Bonfim passou os longos meses de chuva fechado num quartinho que construíra no fundo da casa, para que ninguém perturbasse as suas experiências e devaneios sobre como poderia ganhar dinheiro com aquilo. Tendo abandonado completamente as obrigações domésticas, permaneceu noites inteiras lendo a teoria musical escrita por Barbarossa e conhecendo os instrumentos. Quando se tornou perito no uso e manejo deles, passou a ter uma noção do tamanho da folia que lhe era permitida: por cinco dias no ano, poderia navegar por mares incógnitos, visitar territórios de sonhos e travar relações com seres esplêndidos. Foi por essa ocasião que adquiriu o hábito de cantarolar sozinho, passeando pela casa sem se incomodar com ninguém, enquanto Úrsula e as crianças, entre elas Amaral Bonfim, que em breve despontaria para o futebol, suavam em bicas na horta cuidando da banana e da horta, do aipim e do inhame, do cará e da berinjela. De repente, sem anúncio prévio, a sua atividade febril se interrompeu e foi substituída por uma espécie de fascinação. Esteve vários dias como que enfeitiçado, repetindo para si mesmo em voz baixa canções de outros tempos, de Mangueira e Ataulfo, de Portela e Noel, sem dar crédito ao próprio entendimento. Por fim, soltou de uma vez todo o peso do seu tormento. As crianças haviam de recordar pelo resto da vida a augusta solenidade com que o pai se sentou na cabeceira da mesa, tremendo de uma febre festeira, devastado pela prolongada vigília e pela pertinácia da sua imaginação, e revelou a eles a sua descoberta:

– O carnaval é a melhor época do mundo.

Muitos anos depois, frente à marca do pênalti e o gol, o capitão Amaral Bonfim, camisa quatro e braçadeira, recordaria aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o carnaval. Não podia errar a cobrança; àquela altura, sustentava toda a família e não deixaria seu pai voltar às incursões insanas em busca de dinheiro. Queria que seu velho vivesse só de carnavais; por isso, não podia errar a cobrança.

O juiz apita, como apita um mestre de bateria.

Nota do autor: como é carnaval, fantasiei-me de Gabriel García Márquez para celebrar cento e tantos anos de festa. O trecho original — e mesmo no carnaval há quem liga para originalidades — está aqui.

Comentários

Comentários


Originally published at quatrotrestres.com.br.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.