O HOMEM QUE JOGAVA COM OS ESPÍRITOS

Como se conduzida pela força de um calafrio, a bola de capotão rolou pavorosamente por toda a extensão mundana do túmulo, cruzando em seu trajeto a camisa sete do Santa Cruz de Belmonte, aberta com diligência e assombro sob o agourento luar, antes de atravessar a linha mítica que separava duas velas-de-sete-santos já consumidas há tanto pelas chamas.

Cosme, de joelhos ao lado da sepultura, estendia sobre elas suas mãos, dando as costas para o que prometia o céu e oferecendo as palmas para o que segredava o chão. Repetia ininteligivelmente os pobres versos de rimas órfãs que lhe foram confiados pela cigana dada à mediunidade. “Tem que acreditar, meu filho”, recomendara a velha. Por conta desse conselho, Cosme não percebeu o rolar desalmado da bola até que ela caísse do túmulo, afinal, em demonstração de fé, ou por puro medo, ele não abrira os olhos durante os enlutados segundos que se consumiram naquela trajetória. Foi um susto: o quicar da bola a chegou a levantar o jogador do chão. Apesar do alarme, entretanto, era o sinal que Cosme precisava para crer que a magia havia dado certo.

Camisa apanhada, velas apagadas e o som áspero da bola correndo pelo piso do cemitério. Para trás, o epitáfio: “Ídolo eterno, joga agora nas nuvens”.

Ou o início de uma arrancada heroica ou a confirmação de uma temporada desastrosa: tal era o significado da partida que a tensão que encobria o ambiente era esperada e natural. Mas apesar do semblante enrugado no rosto de todos os jogadores, não era isso que absorvia Cosme. No vestiário precário, comum à série B do Baiano, o camisa sete, que assim como o Santa Cruz ainda não havia empolgado naquele campeonato, estava amuado. Acordara decepcionantemente igual ao que fora dormir na noite anterior. Mulher trapaceira! Aquelas velas não foram baratas. Depois do jogo iria tirar satisfações com a maldita cigana.

Cosme foi o último a entrar em campo. Não que tenha se prolongado amarrando os cadarços ou colocando a camisa para dentro do calção. Acontece que ele podia jurar que, assim que deixara o vestiário em direção ao gramado, ouvira seu nome ser chamado, duas vezes e em sussurros, lá dentro. Cosme. Cosme. Não é um nome fácil de ser confundido. Cosme não se dá com nada. Não é um João que com qualquer pão já se embaraça; nem um Mário, que de tão afetuosa sonoridade se dá às piadinhas obscenas por aí. Cosme só é Cosme.

Mas não teve tempo de explicar tudo isso ao preparador físico, que lhe tirou do vestiário com um violento empurrão. Cosme atravessou o imundo corredor que findava no campo se perguntando se aquilo que ouvira pudesse ter alguma relação com a noite anterior. Mal teve tempo, porém, de concluir o pensamento: Cosme tomou outro violento empurrão, que dessa vez o jogou para dentro do campo. Enfezado, já que nem em seus melhores dias aceitaria tamanho atrevimento, muito menos hoje, virou-se para trás já com os palavrões que cuspiria no treinador encaixados na língua. Contudo, para seu espanto, não havia ninguém ali. Ninguém estava próximo de Cosme. Absolutamente ninguém.

Com o apito inicial do juiz, tudo ficou ainda mais confuso. Parecia haver muito mais do que vinte e dois jogadores em campo. Quando se virava para acompanhar um lance, Cosme via jogadores do seu time, o Santa Cruz, do time adversário, o Apogeu de Bom Jesus da Lapa, e outros tantos que não podia reconhecer, muito menos contar. Na primeira bola que recebeu, Cosme ouviu tantas vozes, tantos gritos, tantas instruções, que foi patética a forma com a perdeu. Cosme. Cosme. Perdido em campo, chegou a tropeçar, que vergonha, em um jogador do seu próprio time. Cosme. Cosme. O primeiro tempo terminou com dois a zero para o adversário e um Cosme moribundo.

Eram tão ruidosas as broncas, os pitos e os sabões que podiam ser ouvidos claramente do lado de fora do vestiário. O treinador, um grosseiro criador de gados da cidade, chegou a balançar Cosme pelo colarinho na tentativa desesperada de acordá-lo. Precisavam tanto dele e justamente hoje ele parecia estar em outro mundo. Duvidou de sua qualidade, cogitou sua substituição; mas ruim com ele, pior sem ele. Cosme era o mais talentoso do time. Em meio às instruções para o segundo tempo, Ubiratã, o capitão do Santa Cruz, um negro de cabelo à Pelé, tacou água no rosto de Cosme: “É vida ou morte, Cosme.”, justificou.

Na volta para o campo, de novo o camisa sete ouviu seu nome ser sussurrado na saída do vestiário. Cosme. Cosme. A voz agora estava mais nítida, mais real, mais viva. Cosme, depois de tudo que se passara até ali, já não tinha dúvidas do que estava acontecendo. “Você não pediu a nossa ajuda? Deixa a gente jogar.” Cosme, assombrado, não ousou olhar para trás; apenas seguiu caminhando lentamente para o campo enquanto ouvia as instruções. Que não fizesse nada e que deixasse o jogo com eles, alguma pergunta? “Em quantos vocês são?”. O porta-voz do grupo respondeu: estavam em cinco. “Cinco?!”, Cosme revelou num grito seu ceticismo. Ouviu-se então uma risada de muitas vozes, desdenhosa e divertida. “Pode deixar que a gente dá conta”, foi a última coisa que Cosme ouviu naquela tarde. Junto com ele, entraram em campo Gilmar, Nilton, Didi, Mané e Ademir.

Ao final da segunda etapa, o placar exibia: Santa Cruz 5 x 2 Apogeu. Cosme deixou o gramado nos braços de seus companheiros. Seus pés não tocavam o chão.

Para os poucos torcedores do time de Belmonte, a temporada seguia espetacularmente sobrenatural. O Santinha — o diminutivo não havia sido cunhado devido a qualquer afeto, mas sim pela histórica modéstia financeira e técnica do clube — heroicamente se levantara das sombrias posições dos subterrâneos da tabela e alcançara os líderes. Desde aquela memorável virada contra o Apogeu, o Santa Cruz nunca mais passara noventa minutos sem marcar ao menos quatro gols. Em campo, era um time irreconhecível até ao mais fiel santa-cruzense, pois afinal sempre há um. Homens que antes mal conseguiam trocar três passes seguidos agora executavam jogadas brilhantes por pura intuição. Nas arquibancadas, pseudo-videntes previam glórias eternas.

(Inexplicavelmente, o time só jogava mal quando vestia seu segundo uniforme, que era negro. Foram quatro jogos e quatro derrotas seguidas até que, percebida a coincidência, prontamente um supersticioso comerciante local ofereceu um novo segundo uniforme ao Santinha. Fora de casa, indo contra ao que registrado no estatuto do clube, fato que ninguém se importou, para o bem da verdade, o Santa Cruz passou entrar em campo de vermelho.)

Para a torcida, a reação tinha nome: Cosme. O camisa sete psicografava com os pés. Era o artilheiro do campeonato e o melhor jogador do estado. Empresários vinham de toda parte para ver suas atuações no mal conservado, mas agora lendário, estádio de Belmonte. Estava em uma fase tão brilhante que, diziam alguns, podia jogar até de olhos fechados: com sentidos quase mediúnicos, ele sabia exatamente onde colocar a bola. E, geralmente, era no ângulo.

À vista dos inocentes torcedores, febrilmente iludidos por uma glória jamais imaginada, tudo aquilo era um milagre — um milagre delicioso de se testemunhar. O que não enxergavam, entretanto, eram os cinco espíritos, os cinco espectros, os cinco fantasmas geniais que entravam em campo junto com o camisa sete do Santinha. Assim que o apito soava, cada craque incorporava um perna-de-pau e o jogo ganhava ares de outro mundo. Jogavam brincando: faziam tabelinha entre si, só que em corpos diferentes; roubavam a bola sem que ninguém pudesse gritar “ó o ladrão”; e, fundamental para suas idades, podiam correr eternamente sem se cansar. Dentro das quatro linhas brancas, Gilmar, Nilton, Didi, Mané e Ademir pareciam flutuar. Era ali, em cima do gramado, que aquelas almas geniais pertenciam, e não sob ele.

Só Cosme não os recebia. Como veio dele o convite para reencarnarem, os missionários do futebol-arte tinham-no como um legítimo companheiro do time. E que time! Que sorte tinha Cosme! Como era fácil jogar ao lado dos mestres. Eram os seus guias-táticos-espirituais. Cosme recebia a bola sempre em condição perfeita para o tento; tinha sempre duas opções de passe em toda e qualquer jogada; e quando um chute sai mascado, era corrigido no meio caminho que levava às redes. Foi assim que o camisa sete, ao final da temporada, foi vendido para um time da série A do campeonato nacional como a maior revelação do futebol brasileiro nas últimas décadas.

Cosme e os espíritos jogavam em harmonia plena. Haviam assinado um acordo invisível, cuja assinatura foi aquele quique da bola ao lado do túmulo, em que o jogador fornecia às almas as condições materiais para que elas voltassem a fazer o que tanto amavam, e as almas compartilhavam com o jogador uma fração de seu talento agora desperdiçado em baixo da terra. Contudo, a verdade é que, à altura do final da temporada daquele ano, nenhum contrato místico teria sido necessário, afinal a amizade já os unia. Com a conquista do título e da artilharia e a venda concretizada para um time grande, tinham, espíritos e jogador, muito a comemorar.

Foi em uma dessas celebrações, porém, que o laço inesperadamente se desfez.

Não foi o conversível importado nem a Clicquot; não foi o ouro no pescoço nem o apartamento no Leblon; não foram as capas de revista tampouco as orgias romanas que fazia com elas. Nada do que Cosme fez com sua fama repentina ou com seu dinheiro adiantado incomodou os fantasmas. Afinal, enquanto vivos, os espíritos do futebol nunca jogaram nem por fama ou por dinheiro. O motivo que levou à quebra daquele contrato, ao retorno das almas para seus túmulos e ao fim trágico da carreira promissora de Cosme foi outro, este muito mais nobre: o amor.

Assim como o jogador, os espíritos também celebravam, e muito, a boa fase em que se viam. Uma noite, em um plano paralelo ao qual Cosme se esborniava, uma festa capaz de deixar coradas as almas penadas embalava os desejos mais carnais dos cinco atletas fantasmas. Suficientemente alegres para tal, tiveram a ideia de trazer Cosme para que curtissem juntos a noitada. O convite foi aceito e os espíritos ofereceram a proteção necessária para que o jogador transitasse entre os dois mundos. Era o fim.

Cosme foi apresentado a grandes lendas do futebol mundial, ouviu histórias da Copa de 30, do nascimento dos clubes, do primeiro Fla-Flu, e de como eles, os agora deuses do futebol, alteravam o decorrer das partidas à mercê de suas vaidades. Em uma dessas animadas rodas de conversa, o jogador de carne e osso conheceu Daiane, um espectro angelical inutilmente desencarnado, por quem fatalmente se apaixonou. Eram almas-gêmeas.

Cosme foi expulso do plano espiritual aos pontapés. Desacompanhado dos seus cinco companheiros, estreou mal na série A do Campeonato Brasileiro e bastaram alguns jogos para que não saísse mais do banco de reservas. Não tirava Daiane da cabeça. Passava noites em claro pensando em como poderia revê-la. Enfim descobriu. Estampada na capa dos jornais, que nada sabem sobre o amor, a foto de Cosme trazia na legenda a trágica notícia de seu suicídio.

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Originally published at quatrotrestres.com.br.

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