O HOMEM QUE NÃO AMAVA AS CHUTEIRAS

O bandeirinha se projetou em frente à bola, impedindo uma cobrança rápida de Vavá. O arranca-rabo na área estava tão inflamado que o auxiliar dava tempo ao árbitro para que este tentasse tolher a contenda. Em vão. Vavá, impossibilitado de alçar a bola a seus companheiros, gesticulava incompreensões ao bandeirinha. Exaltava-se, o Vavá. Xingava com gosto e esmero. As obscenidades pareciam pular de sua boca em saltos ornamentais: até o tradicional “filho da p***” ganhou um twist carpado antes de atingir o bandeirinha. Mas mesmo assim o maldito não arredava o pé de frente da gorducha.

Era semifinal do Brasileiro, anos antes da implementação do até hoje enfadonhamente justificado formato de pontos corridos. A partida, jogo de volta, acontecia na casa do adversário, que garantia a classificação se conseguisse manter o empate impregnado no placar. O quarto de círculo que demarcava o escanteio estava devastado, resultado da pressão que o time visitante impunha ao defensor. Era o décimo segundo tiro de canto, mais da metade neste mesmo lado e todos batidos com perigo por Vavá. Um silvo e uma mão espalmada indicaram a autorização da cobrança. O bandeirinha voltou para trás das linhas laterais, seu devido lugar. Um copo de plástico cheio de cerveja, ou de mijo, passou por um triz da cabeça de Vavá. Concentrado no que provavelmente seria o último lance da decisão, o jogador ignorou a agressão líquida e efetuou a cobrança.

Gilmar Matraca vestia a camisa nove. O centroavante era o principal receio de uma defesa já desgastada pela missão de contê-lo. Artilheiro isolado do campeonato e afeito a decisões, um tento seu era, desde o momento em que pisava em campo, iminente. Gilmar conseguiu tal alcunha por causa de suas tão peculiares entrevistas, engraçadíssimas mesmo quando polêmicas. Não poupava ninguém aos microfones. Quando chegou um novo treinador, Matraca deu seu parecer: “Esse técnico parece lista telefônica. Só fica falando de quatro três cinco um, três cinco dois quatro… De número, eu só sei contar gol.” Quando um goleiro deixou passar um chute fraco seu, explicou: “O goleiro veio da roça, coitado. Trabalhava na horta. Por isso que tem mão de alface.” Ao sair de campo depois de ter marcado um gol com a mão, alegou: “Quem não tem cão, caça com gado.” Seu apelido era assim mais que justificado.

A bola chutada por Vavá viajava em direção ao furdunço da grande área. Puxa, empurra, cotovela, abraça, pula, segura, pisa. Pisa. Enquanto Paulão, companheiro de ataque de Gilmar, acertava uma perfeita cabeçada em direção ao gol, um zagueiro pisava na parte de trás da chuteira direita de Matraca. No empenho em marcar o tento salvador, Gilmar continuou a jogada de ataque, abandonando sua chuteira entre as travas do zagueiro e o gramado maltratado. No rebote do goleiro, marcou com o pé descalço.

Que festa! Embriagado em êxtase, Gilmar Matraca não sabia nem para onde correr. Foi Paulão quem o direcionou para sua torcida (estes também não eram os tempos de jogos com uma torcida só). Matraca deu um pique daqueles de deixar adversários para trás e saltou no alambrado. Jogou-se assim nos braços da massa. Todo seu time veio atrás. Naquele momento, eram um só, time e torcida, torcida e time. Até o arqueiro, esquecido na melancolia fria das balizas não atacadas, abandonou sua meta e se atirou à massa. Estavam todos na final.

Contudo, alegando o bom uso da regra quatro daquelas que regem a prática do futebol, o árbitro erroneamente anulou o gol de Gilmar Matraca. Colocou na súmula: “O jogador não usava calçado quando marcou”, como se fosse isso um crime. Tempos depois, foi punido pela confederação de arbitragem e nunca mais apitou uma partida da primeira divisão (não, não estamos no tempo da Série A). Porém, naquele jogo, enquanto autoridade máxima dentro das quatro linhas, sua decisão prevaleceu: gol anulado.

A partida terminou em quebra-quebra. O empate, entretanto, prevaleceu insistente e imbatível. O time de Gilmar não avançou às finais. O clube chegaria a ser bicampeão brasileiro nos anos seguintes, mas Matraca já não fazia mais parte do scratch. Após o incidente da chuteira, ele nunca mais jogou como antes.

A primeira decisão de Gilmar ao ver seu time injustamente eliminado do campeonato foi romper o contrato com sua patrocinadora de chuteiras. Com uma lógica única e inalcançável, como um dos seus chutes, anunciou isso na coletiva de imprensa que se seguiu ao tumultuado jogo. Nos dias seguintes, choveram propostas oportunistas. Gilmar Matraca, que terminou aquela temporada quebrando o recorde da artilharia, foi inundado de ofertas milionárias: todas as marcas de material esportivo queriam calçá-lo. Cada uma garantia que a sua não escaparia dos pés milagrosos do atleta. Gilmar treinava com uma, “muito macia”. Gilmar treinava com outra, “muito dura”. Tentou um número maior. Tentou um número menor. Uma empresa até mandou trazer o par de chuteiras que o melhor jogador do mundo à época usava, mas Matraca recusou-a também. Gilmar não se satisfazia mais com chuteiras.

Passadas as festas de fim de ano, o imprevisível atleta se apresentou ao clube calçando chinelos de dedo. O treinador disse que ele não poderia treinar assim. Pois não, disse Gilmar. Tirou os chinelos dos pés e calçou-os nas mãos, como qualquer menino que cresceu jogando bola na rua. Descalço, fez o seu maior treino. Até hoje, nos recantos que cercam o clube, conta-se que se aquele treino tivesse sido filmado, seria a maior atuação de um jogador de futebol já vista na história do esporte.

Naquele início de temporada, o time fez de tudo para que seu atleta pudesse jogar o campeonato descalço e com os chinelos nas mãos. Apelou à CBF e ao STJD, a torcida tentou fazer um abaixo assinado, missas foram encomendadas junto ao arcebispo. Mas foi tudo em vão.

Gilmar Matraca encerrou sua carreira com uma média de três por jogo no campeonato amador de São José do Rio Preto. Todos marcados com os pés descalços.

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Originally published at quatrotrestres.com.br.

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