O HOMEM QUE NÃO JOGAVA EM DIAS SANTOS

Quanto mais dura a falta que cometia, mais grave era a penitência em busca de redenção. Um pontapé simples, desses dados para parar a jogada, lhe custava dez ave-marias. Um tostão maroto, para impedir que o maldito cristão continuasse a infernizar a defesa, rendia quinze louvações à virgem e um padre nosso (Padres nossos eram os juros cobrados quando havia uma intenção pecaminosa por trás da ação). Um carrinho, mas um carrinho daqueles tão descomedidos a ponto de arrancar grama do chão, culminava em alta expiação: cinquenta ave-marias, dez padre nossos e um credo, pela periculosidade do ato. Por fim, uma cotovelada, uma tesoura ou um tapa na cara, casos mais raros, é verdade, resultavam em mandar rezar missas pelo atingido. Foi dessa forma que, por todas as suas promessas penitentes, o camisa cinco Valdir, volante-volante do Americano, foi batizado de Valdir da Jura.

Valdir era jogador de futebol com ascendência eclesiástica. Seu dom era parar um ataque. Sua dádiva era o coice. Recebeu a missão divina (Divino era o técnico do Americano) de ajudar os pobres zagueiros. Defendia a grande área como ortodoxos defendem a Santa Sé. Seus maiores pecados eram o número alto de cartões vermelhos que recebia e a lacuna de compaixão para com o próximo, lição esta que ainda lhe era necessário aprender.

Não era um atleta de talento inigualável, o tal Valdir, mas teve algumas partidas memoráveis ao longo de sua breve e casta carreira. O maior deles entrou para a história como “O jogo do ‘Deus te abençoe’”. Era a final do campeonato regional de futebol amador. O humilde Americano enfrentava o forte e endinheirado Silvianense e precisava segurar um empate que lhe garantiria o título. O time adversário adentrou as quatro linhas com três meias e dois atacantes em sua escalação, decididos a conquistas todas as glórias dos céus. Para contê-los, ao Americano bastou um tal camisa cinco com fama de coisa-ruim, Valdir da Jura. Carrinho ele distribuiu aos cachos, pernadas saíram às dúzias — só cotovelada e cuspe que não ofereceu por atacado: um de cada. Dos três meias e dois atacantes que iniciaram o jogo pelo Silvianense, uma parte deixou o campo contundida e o restante não teve forças nem canelas suficientes para enfrentar a perseverança inabalável de Valdir.

Um milagre, contudo, se operou naquela tarde quente dos infernos. Da Jura, incumbido de dolorosa missão, mal sabia que seria o operário de tal obra. Quis o Criador que ele se redimisse por cada um dos lances que faziam a arquibancada chiar. Depois de cada pancada, depois de cada sopapo, ele se ajoelhava ao lado do pagão e dizia: “Deus te abençoe, meu filho”. Cena tão comovedora se viu ali se o jogo não fosse no interior de Minas só poderia ser em Canaá, na Galileia.

Vencido o “jogo do ‘Deus te abençoe’”, o Americano ergueu o caneco daquele campeonato. Valdir tornou-se o messias da pequena legião — minúscula, para o bem da verdade — que torcia para o Americano. Renderam-lhe oferendas: Da Jura constantemente recebia em sua casa frangos assados, cartuchos de doces, canjicadas, cachaças de alambique e outros agradecimentos em formas e sabores deliciosos. O problema é que quanto mais elevado aos céus ele era, mais Valdir da Jura se agarrava à crença. Sentia que Deus lhe dera missão ingrata demais, um fardo cujo peso sentia na faixa de capitão. Sabia-se um instrumento de defesa dos oprimidos, daqueles que nasceram sem o dom da ginga e da malemolência, sem a vocação para a meia-lua e a caneca. Foi talhado para conter o ataque dos afortunados e a humilhação dos que eram eleitos pelos deuses da bola. Batia por convicção, enfim, mas deixava o campo cheio de culpa.

Na temporada seguinte, requisitou que um padre da sua congregação acompanhasse o time nas excursões pelo interior. Padre Valério, conhecedor da profunda e basal importância do esporte para a sociedade (e torcedor fanático do Americano), aceitou o prestigioso chamado. Da Jura desejava com isso poder confessar imediatamente os pecados que os torcedores testemunham em campo. No começo, confessava-se após as partidas e cumpria as penitências ainda no ônibus, durante a viagem de volta. Depois, passou a se confessar nos intervalos: já não mais escutava as instruções do técnico Divino — ajoelhava-se ali mesmo e pagava por cada pontapé entregue.

Inevitável era o incômodo que a presença do Padre Valério causava nos colegas de time. O palavreado passou a ser comedido, os assuntos tornaram-se estéreis. Nas derrotas, sermão. Nas vitórias, senão. Mas pior que a presença celibatária do clérigo era a baptismal figura na qual se transfigurava Valdir. Seu primeiro ato foi obrigar o time a orar antes de entrar em campo. Cada verso do padre nosso passou a ser cantado em tom de cruzada. Depois, pediu ao sacristão que produzisse camisetas com versículos bíblicos para que os jogadores usassem por baixo do uniforme. “Buscai ao Senhor enquanto se pode achar”, Isaías 55:6, foi o escolhido. Por fim, Valdir da Jura decidiu que não jogaria mais em dias santos.

A decisão veio em uma partida que se deu em um 26 de setembro, dia de São Cosme e Damião. Valdir da Jura chegou ao vestiário calçando chinelos de dedo e trazendo sacos e mais sacos de doces. Distribuiu-os a todos os jogadores, ao técnico e depois partiu para as arquibancadas, de onde viu seu time ser derrotado rodeado por crianças com as bocas lambuzadas de chocolates.

Seguiu assim: São Francisco, Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora Aparecida e até mesmo os menos prestigiados, como São Jerônimo e Santa Luzia. Em nenhuma dessas datas Valdir da Jura entrou em campo. É claro que sua decisão causou um rebuliço na cidade. Houve revolta e quebra-quebra. Colegas de time praguejaram, torcedores blasfemaram. Houve até quem acusasse Jesus de Yoko Ono.

Em vão. Valdir da Jura pendurou as chuteiras atrás da porta da sacristia. Hoje ele ajuda na limpeza e na organização das vestes e dos objetos litúrgicos. Nunca cometeu uma falta. Jamais foi expulso.