O HOMEM QUE VOLTOU

“Voltar quase sempre é partir para um novo lugar” Paulinho da viola

Haveria de voltar, sempre soube que sim. Em sua última partida pelo clube, uma memorável virada em cima do América, despediu-se com uma garantia: haveria de voltar. Hoje, diante dos microfones na improvisada sala de coletiva, lembrou-se daquela entrevista que deu ainda em campo, mais de uma década atrás, sem camisa e com olhos d’água. Haveria de voltar. Voltou.

Quis o destino que aquela vitória sobre o arquirrival, no qual cravou os tentos decisivos, apesar de marcar o ponto mais alto da história alviverde, se tornasse injustamente o título de menor expressão da sua carreira. Depois daquele jogo, Julião embarcou para o estrangeiro, foi campeão francês, transferiu-se para a Espanha, onde bateu recordes de artilharia, estrelou campanhas publicitárias, levantou a Champions, cumprimentou o Blatter a contragosto, namorou uma angel da Victoria’s Secrets, foi aclamado na Itália e sua camisa onze foi exposta tanto em lojas quanto em museus. Conquistou o mundo. E antes que suas pernas já não pudessem mais fazer o que faziam tão bem, decidiu voltar para o clube que o revelou. Devia isso àquele escudo e pagaria sua dívida com que sabia fazer de melhor: gols.

Não se fez necessária qualquer negociação. Seus próprios agentes trouxeram os patrocínios que, estampados na camisa e nos backdrops do time, custearam seus salários. A injeção de dinheiro também gerou uma revolução na pequena cidade. O setor hoteleiro colocou mármore nos banheiros para receber membros da imprensa; os restaurantes incluíram comida japonesa no cardápio para atender a demanda; a prefeitura reformou o trevo da cidade, agora apto a receber os ônibus de delegações e de torcidas organizadas; a grama do estádio municipal foi importada e já não pinicava mais. O time, quem diria, lançara até um programa de sócio-torcedor.

Como consequência do dinheiro, o clube foi convidado a voltar para a segunda divisão do Estadual. Aceitou. Julião retornou oficialmente aos gramados de sua cidade em uma partida contra a Tombense. Deitou e rolou. Fez três gols — o décimo sexto hat-trick da carreira, o primeiro testemunhado de perto por seus conterrâneos. Novos jogadores chegaram, o técnico foi substituído. E reforçados, garantiram vaga para a final do campeonato sem maiores dificuldades. Pela primeira vez na história do clube, eram favoritos de alguma coisa.

Na noite anterior à partida histórica, contudo, Julião chorou. Na manhã seguinte surpreendeu seus colegas de time, seus agentes, sua cidade e toda imprensa esportiva com um pesaroso post nas redes sociais: despedir-se-ia do futebol ainda naquela tarde. Aquela final seria o seu adeus.

Taticamente, o jogo não foi dos melhores; mesmo assim, a vitória por dois a um trouxe a taça para a cidade. Com ela nos ombros, o time circundou o gramado em uma inebriante volta olímpica, a qual foi acompanhada de perto pela torcida. Extasiados, ninguém reparou, nem torcida nem jogadores nem imprensa, que Julião deixou o campo aos prantos.

Haveria de voltar; voltou. Nada mais ali, porém, era como ele se lembrava.

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Originally published at quatrotrestres.com.br.

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