O SEQUESTRO DA SELEÇÃO

[Escrito em 2010, logo após a eliminação do Brasil da Copa na África do Sul, e re-publicado em 21/07/2014, por ocasião da re-contratação do Dunga]

Dunga sequestrou a Seleção.

Essa é a sensação que pairava desde o começo. A falta de coerência na convocação, o mau humor (e a desnecessária grosseria nas coletivas de imprensa), a inapelável reclusão no tempo “livre”, a teimosia em acreditar em uma etérea “coletividade”. Nada disso parecia a Seleção.

Mas, tudo bem, o brasileiro sempre teve problemas com técnicos. Não era essa a questão. E não que as copas anteriores tenham sido um primor de técnica do nosso futebol. Mas sempre houve um Romário, um Ronaldo, um Rivaldo, um Zagallo ou até mesmo um Dunga (jogador) que desse uma esperança de brilho ou pelo menos uma cara ao time. Algo que na verdade fosse um espelho para nós, refletindo o que de melhor ou de pior o brasileiro tem.

Em vez disso, Dunga apostou na mediocridade, como se, anulando a quase genialidade de uns poucos, fosse possível alcançar a patologicamente almejada “coletividade”. Aposta errada. Como escreveu Luís Fernando Veríssimo: “Um dos paradoxos do futebol moderno é que, quanto mais o conjunto supera o indivíduo, mais ele depende da jogada individual”.

Aí é onde residia o problema: de alguma forma, faltava identificação com esse time. Dunga “sequestrou” os jogadores e, junto com eles, a chance de sintonia entre o povo e sua Seleção. Não era a “nossa” Seleção, era simplesmente a equipe de Dunga. Eram os jogadores queridos dele, que o obedeciam cegamente (muitos deles o faziam simplesmente por gratidão, já que certamente não seriam jamais convocados por outro treinador). Essa formação, aliada a uma inescapável ideologia, resultou num grupo de fato unido, mas que em nada nos inspirava. Pela primeira vez tínhamos um time que não tinha opções no banco! O diferencial do Brasil afinal sempre foi levar um elenco suficiente para montar dois times — por vezes capazes de chegarem a campeão e vice. E nas entrevistas percebíamos mais ainda o distanciamento: pareciam autômatos reproduzindo um script combinado, reféns lendo um depoimento de que estão bem fisicamente, enquanto aguardam o pagamento do resgate.

Mesmo assim, da mesma forma que um irmão caçula é frequentemente vilipendiado pelo mais velho e ainda assim lhe continua nutrindo um amor incondicional, seguíamos no desejo de estarmos errados e que pelo menos esse sequestro terminasse com o resgate pago ao final, com a redentora conquista do hexa. A gente buscava ver a Seleção e só via o general Dunga e sua antipática empáfia. Porque o bom da Copa é exatamente essa utopia passageira, em que todos se permitem um pouco de loucura, de fantasia, de excessos. Maior prova disso é que as crianças se misturam aos adultos nas comemorações de uma forma que não acontece normalmente. Todos voltam à leveza alegre e inconsequente da infância. Sem contar o lado também utópico de uma “identidade nacional”, da tentativa de viver um sentimento de pátria e de supremacia desta sobre os demais povos. O “último refúgio dos canalhas” é temporariamente permitido, aceito e até incentivado.

Como em todas as Copas que perdemos, buscamos os culpados, tentamos “aprender lições”. Bobagem. De fato, nada muda muito. Fica só aquela sensação nauseante de quem acabou de acordar repentinamente de um sonho intenso. E depois a lembrança daquela dor vivida. E a vida segue.

Teve algo de bom? Claro que sim. Se lembrarmos a Copa passada, vemos que, dessa vez, os jogadores sinceramente se esforçaram, lutaram, sentiram o peso da “amarelinha”. Após a derrota, saíram de cabeça baixa, chorando, envergonhados, como tem que ser. Esse foi o momento em que fugiram do cativeiro, já exaustos de tanta pressão. Por isso é que a raiva nacional não foi direcionada a eles (com exceção, claro, ao já tão falado Felipe Melo, discípulo emblemático da doutrina dunguista). Lúcio, um gigante, incansável, onipresente. Kaká, mesmo machucado, lutou o que pôde. Luís Fabiano, Robinho e Júlio César também, sentindo todo o peso da responsabilidade sobre eles. Mas não eram eles como são. Eram eles acorrentados ao grilhão neurótico de Dunga. Infelizmente, agora é ver esse restinho de Copa, escolhendo algum time para “torcer”. Porque a nossa Seleção, na verdade, esteve sequestrada e não se apresentou na África do Sul.

03/07/2010

[Eis o que nos espera novamente. Será?]

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Originally published at quatrotrestres.com.br.

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