RELATO DE UM VICIADO EM COPAS NO PAÍS DO NÃO-FUTEBOL

[Publicado em 24/06/2014]

“Os americanos representam grande parte da alegria existente neste mundo.”, escreveu certa vez o Caetano*.

Assim eu planejava começar este texto, quando aterrissei no aeroporto de Newark para passar quatro dias no país do não-futebol, enquanto no Brasil acontece, a despeito das inúmeras pressões contrárias, a já assim merecidamente apelidada “Copa das Copas”. Pretendia aproveitar a estada nos EUA para observar como os americanos estão percebendo o campeonato mundial de soccer** — se é que dele sequer têm conhecimento — e compor o meu relato. Longe de querer abordar as questões histórico-culturais que fazem com que o “world football”*** seja tão desimportante para o povo que mais promove, acompanha e monetiza os esportes em geral, minha intenção era simplória: captar sinais, se algum, de interesse no evento que movimenta a maior parte do mundo nesses dias. Afinal, quem mais entende de entretenimento não deveria se permitir ficar de fora desse acontecimento planetário.

Já tinha até anotado algumas impressões, como a quantidade de traves, daquelas com rede e travessão, nos quintais das casas sem muro de Nova Jérsei (ainda muito menos que as tabelas de basquete, claro, mas com certeza bem mais do que havia anos atrás) ou o quão frequente é deparar com garotos jogando bola nas escolas ao dar uma volta de carro pelos subúrbios ou a pé pelos centros urbanos daquela região. Ou ainda os bares e lanchonetes que, além da ubíqua e permanente placa de banheiro “empregados devem lavar as mãos antes de voltar ao trabalho”****, nesses dias tinham suas TVs sintonizadas nos jogos da FIFA. Ok, alguém pode replicar que era porque estavam sintonizados na ESPN, como sempre. Eu treplicaria que: 1) a ESPN ocupar seu canal principal com a Copa já nos diz algo; 2) bares com placas do lado de fora convidando para Nigéria vs. Bósnia (tenho foto!) é mais que mera atitude para “cumprir tabela”, convenhamos.

Meu intento era simplesmente observar não apenas porque uma análise completa seria assunto para além de tese de mestrado, mas também porque escapar dos clichês e axiomas de balcão que invariavelmente rondam esse tema é tarefa quase impossível. No relato, eu iria mencionar as pessoas nas ruas de Nova Iorque com as respectivas camisetas dos jogos daquele dia — com a ressalva de que não eram tantas assim que chamassem atenção de um olhar sem viés interessado como o meu, e de que, afinal, a Grande Maçã abriga gente do mundo inteiro, não valendo como impressão genuína sobre os ianques em geral.

Certamente me aprofundaria na cobertura televisiva e em especial nos comerciais. Falaria dos vários programas entrevistando transeuntes ou repassando a biografia dos jogadores da seleção americana e suas reais chances ou apresentando as cidades brasileiras. Principalmente no domingo, dia em que a América enfrentaria a seleção portuguesa, esses temas estavam em vários canais, não apenas esportivos — de shows de auditório a telejornais. Contaria que os comentaristas dos jogos incluem ex-jogadores como o alemão Ballack, com um inglês aparentemente perfeito, o holandês van Nistelrooy e seu vocabulário claudicante, e também o americano Alexi Lalas, que jogou contra o Brasil naquele nervoso quatro de julho de 94, irreconhecível sem a característica barba-de-bode. Tampouco faltaria alguma digressão sobre a tranquilidade informativa dos narradores de sotaque britânico, em contrapartida à tagarelice irritante da transmissão em espanhol. Citaria os bem-humorados e criativos reclames da Hyundai (googlar: #becausefutbol) ou o do McDonald’s, que aborda um tema comum numa nação de imigrantes: um pai torcendo para seu país de origem e seu filho se juntando às escondidas aos amigos compatriotas para torcer pelos Estados Unidos. Sem o ufanismo abobalhado das atuais propagandas de bancos brasileiros, até mesmo o fronteiriço #IBelieveThatWeWillWin, da Nike, confirma que eles lá são especialistas em filmes curtos promocionais; no fútbol não seria diferente, mesmo com menos anunciantes que os desportos tradicionais.

Pois bem, pretendia eu descrever tudo isso e algo mais, não fossem os acontecimentos do final da tarde de domingo. Já estava na fila de embarque no mesmo aeroporto para retornar ao Brasil, pensando em pitorescas idiossincrasias americanas e tentando encontrar algum nexo que permitisse uma ilação, uma analogia que fosse, delas com o futebol para incluir na nesta dissertação-descrição (pensamentos tão frívolos quanto: por que diabos é permitido virar à direita mesmo com o semáforo fechado). Enquanto enfrentava o calvário ocioso, logo potencialmente criativo, do raio-x pós-11/09 (pés descalços, mãos ao alto), algo me impedia de continuar a devanear: é que já rolava o primeiro tempo de Portugal vs. EUA! Findo o security check, já se iam vinte e cinco minutos de bola rolando e eu sem nem mesmo informação do placar.

Qualquer viciado em Copas vai entender como normal minha ansiedade e angústia. Tentei wifi do aeroporto, sem sucesso. Consegui conexão via Skype Wifi: maravilha! Mas os aplicativos de streaming do SporTV e da ESPN me disseram o que eu esperava: “vídeo não permitido fora do Brasil”. Passados longos vinte minutos, última tentativa: arrumar um restaurante ou quiosque com TV. Eis que no final do terminal avisto uma pequena aglomeração: bingo! Um bar com várias TVs. Gente do lado de dentro e do lado de fora.

Segundo tempo começa, descubro que houve apenas um tento e a “equipa” lusitana está em vantagem. Uma certa apreensão dissimulada no ar. De repente, um jogador americano erra um gol feito e o espontâneo grito de espanto é geral. Consigo me esgueirar na multidão e arrumar um banco de frente para uma das telas. Peço uma cerveja para justificar meu assento privilegiado. 9,36 dólares (!), deixo 11 sem aceitar troco, em parte pelo costume local da obrigação voluntária da gorjeta, em parte pelo inconveniente de moedas estrangeiras no retorno.

Gol dos EUA! A galera vai ao delírio. Camisetas azul-branco-vermelhas surgem por cima das cadeiras. Ler “Dempsey” nas costas delas aplaca um pouco minha instantânea, atávica e inevitável ojeriza a tais cores, típicas do arquirrival do meu time, o centenário alvinegro cearense. O tempo passa, a tensão aumenta. Dos convivas fortuitos e minha, pois meu embarque se aproxima. Por sorte, o portão 111 fica em frente ao bar. Nada de chamarem. Atualizo o app da United, ops, mudaram o portão! 115. Saio, procuro, não acho. 113 é o último. Apreensivo, encontro uma escada rolante. Desço. É lá mesmo. Voo sairá com atraso, fico sabendo. Normalmente me preocuparia, já que pode comprometer minha conexão em Washington. Mas em tempo de Copa tudo muda, a começar pelas prioridades. Escada rolante (quebrada) acima então.

Assisto do lado de fora agora. Número de espectadores cada vez maior. Mal consigo enxergar o jogo, mas ouço a narração em meio aos gritos e suspiros. Tempo passa. Desço novamente. Ainda dá tempo de ver mais um pouco. Subo de novo. Desço, subo, desço, subo, desço, até que não há alternativa senão ir para a fila mesmo.

De repente: “Goooaaal!”, ouve-se em estrondoso uníssono. Surpresa: praticamente todos os integrantes da fila abandonam seu posto e sobem em manada para ver o replay, da mesma forma que um alarme de incêndio os moveria incontinênti (faço parte da boiada, havia dúvida?). 2×1, mais uma virada nessa Copa quebradora de certezas e estatísticas. Desço de novo, embarco. Através da janela vejo algo que também seria motivo de certa preocupação para mim em uma época qualquer: a aeronave é de hélices! Mas nessa situação só consigo me importar com: quanto será que está a partida?

Avião que nem turbina tem não é de se esperar que tenha wifi, óbvio. Ainda bem que inventaram pacote de roaming de dados com ativação remota imediata, WhatsApp e iMessage. Pronto: amigos também viciados em Copa me narram os minutos finais. Alguém avisa que Portugal empatou aos 50, último minuto dos acréscimos! Espero um segundo informante fornecer o mesmo dado para ter certeza que não se trata de uma peça marota de quem sabe que estou praticamente incomunicável. Agora o avião pode decolar*****.

Mais do que estatísticas de audiência, esse episódio do aeroporto tem a contundência incontornável do fato: cada vez mais americanos são infectados pelo vírus do futebol. Não todos, é verdade. Uns mais, outros menos, claro. Se o time estadunidense avançar, então… Como disse um amigo americano, cuja opinião aqui transcrevo, em tradução livre: “Não nos importamos, até que vençam. Se perdemos, as pessoas que se importam ficam um pouco tristes e depois declaram que vão torcer para o Brasil”. O soccer está virando moda; está saindo de um esporte acompanhado basicamente por imigrantes latinos e praticado somente por garotas na escola. Mesmo exponencial, esse processo pode ainda demorar, principalmente porque é necessário um passado no esporte para que haja verdadeira ligação emocional.

Mas o futebol está destinado a se tornar de fato o que inexoravelmente sempre foi: universal******.

* Nem o Marcos, nem o Léo: o Veloso — não o ex-goleiro, no caso. ** Palavra intragável e desgraçada. *** Novo termo politicamente correto para o nosso “bola-pé” jogado predominantemente com os pés, para disfarçar a arrogância imperialista e reducionista implícita no termo “soccer”. **** Informação da mesma família do “verifique se o mesmo se encontra no andar” dos elevadores de Sampaulo. ***** Dado irrelevante: cheguei a tempo de (correr feito um Robben para) pegar o outro voo, donde escrevo este relato (graças à principal invenção do Steve Jobs, complementada pela sempre indispensável tomada de energia elétrica que alguns aviões de turbina têm debaixo dos assentos). ****** A sexta estrela é homenagem à iminente conquista do hexa. ;-)

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