TRÊS DICAS

[Publicado em 05/04/2015]

“É, ele é mais para intelectual”, ouvi da dentista. Devia ter não mais que sete anos, e estavam lá alguns primos e minha irmã, os objetos do “mais para” em comparação. Era ocasião dessas assepsias periódicas que mães e às vezes pais infligem aos filhos em parte por desincumbência amorosa, em parte para não serem acusados de descuido. Embora não me recorde da resposta ao perguntar o significado de “intelectual”, lembro cristalinamente a sensação agradável de receber uma definição: eu era algo. Não importava exatamente o quê, mas eu era algo. Aquele misto de embaraço e júbilo, por alguém (gente grande!) ter dignado parte do seu escasso tempo a me observar, formular uma impressão e, glória das glórias para mim, emitir sua opinião.

Pois bem, intelectual eu seria, e necessário era fazer jus à alcunha. As letras seriam o caminho óbvio. Recém-alfabetizado e sob a égide moral de um avô sábio e culto — que me deu três dicas na vida: “leia, leia e leia!” -, os livros me foram sendo entregues como se dão brinquedos e guloseimas às demais crianças. Não que estes me tivessem faltado em algum momento, injusto seria afirmar isso, mas aqueles vinham geralmente com a menção especial de que tinham sido escolhidos especialmente para mim, um intelectual, ora pois. Acontece que cedo mostrei aptidão para matemática, que anos depois se desdobrou em gosto por física e logo também por química, e a classificação adquiriu feição mais cartesiana que literária. “É muito bom com números, com certeza será engenheiro”. Numa família de advogados e funcionários públicos, seguir a carreira de exatas conferia o charme adicional de ser um excêntrico, um obstinado, um livre-pensador, mais ou menos como o que na Sampaulo do final do século passado e início deste fez com que boa parte da juventude enveredasse pelo ramo da publicidade.

Um intelectual de exatas. Em outras palavras: dado ao mundo das ideias, e à suposta concretude dos números, mas não à poesia das palavras. Naquele momento, não me era dado perceber a abstração mágica da aritmética, o alheamento racional da álgebra, a materialidade subjetiva da geometria. As matemáticas eram o que eram: frias, solenes, estoicas. “Ele lê muito”, ouvi certa vez minha mãe dizer a um desses conhecidos desconhecidos que saem emitindo opiniões mesmo quando não convocados. “Mesmo? O que ele está lendo, ‘Guerra e Paz’?”. No momento não entendi a jocosidade desnecessária, baseada na extensão da obra em quatro volumes, nem a ironia involuntária do comentário, pois Tolstoi sugeria a supremacia do determinismo irrefutável sobre o livre arbítrio.

A limitada coordenação motora só veio a corroborar com a inclinação inata à intelectualidade. Num mundo desde sempre dual, o agraciado com o dom da capacidade cognitiva não seria merecedor também dos dotes físicos. Apesar de gostar de futebol, as sucessivas tentativas de jogar bem logo frustaram as poucas expectativas e confirmaram essa suspeita, tanto que cedo desisti da linha e tentei ser goleiro. Tive até um relativo sucesso inicial, antes que as traves crescessem mais rápido do que minha estatura, e encerrei minha breve carreira amadora no dia em que entrei para a escolinha do Círculo Militar. Naquele dia, depois de ter salvo todas as bolas indefensáveis, terminando o coletivo invicto, fui por isso premiado pelo treinador com o direito a uma segunda partida. “Você aí, novato, não tem muita altura mas jogou bem. Entra aí de novo”. Resultado: levei uma quantidade de gols que o hipocampo cerebral fez questão de esquecer. Tentei ainda basquete, vôlei e natação, mas a compleição diminuta não ajudava.

Até que veio alguma maturidade e junto com as rugas e os cabelos brancos também a relativização das certezas autoimpostas e das verdades incutidas ao longo da vida. Hoje tenho como hobbies principais: escrever e correr. Há não muitos anos eu jamais pensaria que um dia faria essas atividades com frequência e principalmente com prazer. Não que eles importem para alguém além de mim: faço-os porque me fazem bem. Os rótulos que vamos acumulando ao longo da vida acabam bloqueando possibilidades, por menores que sejam, como a que aconteceu hoje comigo: me arrisquei a “surfar” (se é que se pode chamar assim) num “stand-up paddle”, no mar calmo de Guaecá, com a vista para Ilhabela ao fundo.

Algo que pode parecer simples e até trivial para os esportistas por natureza, não o é para os demais dos humanos. No meu caso, apesar de ter nascido e sido criado numa cidade litorânea, o surfe nunca fez parte da minha vida. Diferente de lugares como o Rio, onde quem não é surfista é um wannabe surfer, Fortaleza é uma cidade “na praia”, e não uma cidade “de praia”, como bem define um amigo surfista paulistano de quatro costados que morou lá por um tempo. Respeito e admiro o mar, mas a relação com a praia sempre foi de um lugar para encontrar pessoas, beber e comer.

Antes de começar, o instrutor Jonas me deu três dicas básicas: como entrar no mar, como subir na prancha e como remar. Pode parecer pouco ou parecer muito, dependendo do ponto de vista. Muito, porque em suma abrange de fato os principais pontos para sair navegando; pouco, porque há um sem-número de detalhes e imprevistos que só a própria experiência é que ensinará. A despeito da vergonha inicial de ter que ficar em posições vexatórias para subir na prancha, da incerteza do equilíbrio e dos inevitáveis tombos espetaculares, a mistura de desafio, atenção, cansaço e recompensa, comum à maioria dos esportes, vale a pena.

Para iniciar algo novo, depois de vencer todos os medos e preconceitos próprios dos próprios rótulos, tentamos muitas vezes seguir cartilhas teóricas ou manuais práticos elaborados. Na verdade, o que precisamos mesmo é da energia inicial de querer e da coragem de começar. O resto é seguir umas poucas dicas dos entendidos, como quem já teve a oportunidade de tentar aprender a esquiar na neve por conta própria, e depois com a ajuda de um instrutor, já descobriu dolorosamente. Claro que isso não se aplica aos que nasceram com alguma aptidão sobrenatural. Nem é suficiente para quem quer ser profissional. Tampouco é um indulto para a imprudência de um banzo mais afoito, que é surpreendido por um elemento da natureza mais forte e inesperado como uma rajada de vento, uma pedra solta, um rio irrequieto.

Para quase tudo na vida, para começar bastam não mais que cinco, mas geralmente três, dicas. E só. O resto é com você.

PS: até hoje ainda não li Guerra e Paz. Quem sabe um dia.

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Originally published at quatrotrestres.com.br.

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