UMA SELEÇÃO PREDESTINADA

Texto escrito em tabelinha com meu pai, Oswaldo Luiz Mariano.

Não há questão humana que não possa ser debatida em um campo de futebol. A superfície de grama ou terra, de cimento ou asfalto, engana quem enxerga o jogo com ingenuidade; ela guarda as profundidades mais inatingíveis da alma humana. Em uma partida, oficial ou pelada, de uniforme ou sem camisa, o homem revela quem verdadeiramente é.

Os gols justificam os meios? Deus existe — ou foi só mais um camisa 10?

Como em Nazca, as linhas retas e círculos perfeitos de um campo de futebol provocam indagações sobre nossa própria existência.

Há vida após a degola? Somos livres para escolher um time?

O futebol é a ágora dos pobres. O teatro cotidiano dos mortais.

Uma dessas questões humanas me ocorreu em uma monótona tarde de domingo de um monótono campeonato brasileiro: a bola na trave, de diâmetro tão ínfimo comparado à dimensão da linha de fundo, é um deslize milimétrico do atleta ou um sopro travesso do destino?

Diante da questão, recordei aquele chute de Pinilla, que aos 119 minutos de jogo de uma oitavas de final contra a seleção brasileira, explodiu no travessão — e assim, sem entrar, o jogo seguiu para os pênaltis, quando o Chile foi eliminado da Copa de 2014. Lembrei-me do Pagliuca, que na decisão da Copa de 1994, beijou o pé da trave, depois que o poste o salvou em uma bola complicada. Seria a bola na trave um erro de cálculo do atacante ou uma brincadeira serelepe do acaso? Seria a vida uma sequência de escolhas e suas consequências ou uma sucessão de fatos predestinados pela fortuna?

Não há questão humana que não possa ser debatida em um campo de futebol. E enquanto o jogo se arrastava maçante na tarde de domingo, investi na pergunta: seriam os jogadores de futebol seres predestinados? Ou basta esforço para se fazer um ídolo? Debatemos. E foi assim que chegamos à Seleção dos Predestinados.

A parte as seleções históricas, as seleções do ano e as das Copas, a parte as seleções compostas por amigos de um craque, seleções de um campeonato e as dos sonhos, há uma seleção formada por jogadores cujos destinos foram traçados em uma ou duas palavras logo na maternidade, atletas que tiveram seu talento registrado no cartório, homens que quando nasceram não ganharam uma certidão, mas sim, uma camisa com um nome nas costas. Destino? Sorte? Não se sabe. E em nossa ignorância a respeito do que rege o mundo, escalemos a Seleção dos Predestinados:

Goleiros: Dizem que um bom goleiro precisa, além de habilidade e destreza, de sorte. Por isso a camisa #1 ficou com Milagres, do América Mineiro, deixando Márcio Defende, do Vasco, no banco de reservas.

Zagueiros: Com três zagueiros, a seleção equilibra força e mente: Márcio Paulada, do Atlético Mineiro, e Sapatão, do Flamengo, são a força; já Odivã, do Vasco, é a mente equilibrada.

Meio-campo: Adaptados nas alas, Edu Bala, do Palmeiras, é a velocidade pelo lado direito; Gilson Gênio, a inteligência pelo esquerdo. Capitão, da Lusa, usa a faixa e protege o meio. A filosofia do time é trabalho para o Sócrates, e Swing, também do Corinthians, é quem usa seu, bem, suingue, para infiltrar.

Atacantes: O ataque tem a explosão do Dinamite, do Vasco, e a malandragem do gremista André Catimba.

Banco de reservas: O técnico Neném Prancha, do São Cristóvão, tem ao lado de sua prancheta os reservas: Aladin, do Corinthians, que pode mudar o jogo a qualquer momento de acordo com o desejo do técnico; Roberto Cavalo, do Vitória, para os jogos mais pegados; Toninho Guerreiro, do São Paulo, para lutar até o fim; e o terceiro goleiro Mão de Onça, ágil como um felino.

Está posta a Seleção dos Predestinados: homens que não negaram a missão que lhes foi dada na carteira de identidade. Destino ou coincidência? Nunca saberemos.

Há vida em outros planetas? Mas então de onde veio o Messi?

Fica para outro texto. Afinal, não há questão humana que não possa ser debatida em um campo de futebol.

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