É preciso vencer o cansaço que nos impede de escrever no calor do momento

Um lembrete de mim para mim

Todos os dias em que abro e vejo os 25 rascunhos do Medium inspiradamente começados e que jamais serão terminados eu me arrependo por ter desistido de insistir naquele momento. Enquanto eu estava no avião e preferi dormir, na praia que o sol fritava meu cérebro, no parque onde o braço não se acomodava confortavelmente para apoiar a caneta no caderninho. É ali que os projetos começam e nem sempre terminam.

Lamento porque vejo que aquilo que fiz e, modestamente, gostei, sempre saiu em um momento de extremo que não cabia só dentro de mim e o papel foi apoio.

Quando a felicidade de chegar a um lugar novo era tão imensa que eu precisava registrar além da foto. Quando a saudade de casa doeu tanto e o teclado do computador ofereceu ajuda. Quando a ansiedade parecia que não dava mais e só passou quando eu vomitei palavras entre vírgulas mal colocadas, erros de digitação mal revisados e uma repetição vocabular perdoável.

As incontáveis fossas surpresas merecem um parágrafo só para elas. Talvez eu não tivesse sobrevivido sem aqueles parágrafos começados no meio de uma madrugada. Eu só consegui dormir quando eu tive a certeza de que aquele pensamento já tinha sido transferido da cabeça para a a escrita.

É uma pena não ter terminado eles. Eu nunca mais vou saber o que eu queria dizer além daquele parágrafo. Hoje eu lamento por aquele texto nunca terminado sobre as meninas que ajudavam refugiados na Grécia, o rascunho introdutório sobre uma das minhas primeiras recaídas amorosas, o projeto de poesia durante uma crise de ansiedade. Como é que será que teria terminado?

Eu nunca mais vou saber o que eu quis dizer naquele momento, além do que já está. Talvez melhor assim. Arrogante ou confiante.


Conte até três e não mais do que isso
Respira fundo e pula desse avião
Mergulha na imensidão
Esquece o paraquedas
Tiro e queda
Vento gelado não deixa respirar

Rascunho que nunca será finalizado.