Nós não podemos ter o mundo todo

Mas todos podem ter o mundo

Um mapa de pintar para grudar na parede do quarto foi o pior melhor investimento que fiz nos últimos tempos. É ótimo o jeito que quase a totalidade dele em branco me provoca a me levantar da cama em alguns dias que ela parece ser o lugar mais interessante do globo. É horrível a ansiedade que esses mesmos espaços causam ao pensar que nem a pau vai que dar tempo de conhecer tudo direito e ainda correr atrás de outros sonhos de vida. É frustrante. É ambição demais.

O mapa na parede é um ótimo entretenimento para os visitantes do meu quarto.

Sempre rende assunto e conversas legais. Só que tem um amigo que aos 28 já conheceu tanta coisa do mapa que eu nem sabia que era possível nesse tempo de vida. Que privilégio. Ele sabe, e eu também.

Depois que conheci ele, ficava um pouco intimidade toda vez que ele via meu mapa em branco. Na minha cabeça, ele tinha pena de mim por isso. Saber que alguém tem dó de você é pior do que saber que alguém te odeia.

Aceitar a situação foi o que fiz e não mudei o hábito de encarar o mapa quase não pintado a cada manhã. O amigo é bem próximo, sabe até que bastante da minha vida. Dia desses, falando sobre passados e planos, ele me manda a seguinte:

Você tem amigos pelo mundo todo!

E em uma frase verdadeira o amigo que frustrou a minha visão do mapa fez com que eu mudasse o ponto de vista. Assim, eu percebi que é verdade, eu tenho uma pessoa para chamar de amigo em cada continente desse planeta. Eu tenho certeza que onde quer que eu chegue, conseguirei, pelo menos, o conhecido de um amigo para qualquer suporte que for preciso.

Quando eu comecei a entender o que era morar em outro continente e a ter noção das dificuldades relacionadas à distância e imediatismo, eu usava a tática de pensar que eu estava a somente um avião de distância.

Essa tática continua valendo. Só que com o bônus de que eu olho para o mapa agora e dimensiono a imensidão do mundo quando se trata da diversidade e a pequenez quando se trata das pessoas.

Onde quer que nós estejamos, teremos gente maravilhosa. Onde quer que os outros estejam, ali na esquina, ou na África, eles nos têm. Ter a certeza do valor de cada relação, estranhamente, é o que esse mapa significa agora.

Toda vez que eu olho para os espaços em branco, penso na gente do meu coração que ali está, esteve ou estará. Nós não podemos ter o mundo todo. Mas todos podem ter o mundo.


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