Desculpa, eu errei.

Querido diário #20171502

(Imagem extraída de: http://samluce.com/2016/07/teaching-kids-say-sorry-isnt-good/ )

Querido diário, eu errei de diversas formas. Claro que acertei de tantas outras. Porém é a consciência disso que faz quem eu sou. O entender como funciona o balanço do mar, e como as coisas vão e vem. Entender que estou em construção, e que a última e melhorada versão de mim com a qual terás contato, estará no ponto final desse nosso contato de hoje. Vais perder muitas outras, que virão e que surgirão; e, algumas ficarão, outras se apagarão no vento como uma nuvem. Uma daquelas que a gente deita na areia, na beira da praia, para olhar o céu e vê-las se transformando de dragões a pessoas sentadas. De caretas a golfinhos.

Quando a gente se aproxima ou se afasta das pessoas, e isso vale para o tempo também, elas também saem de caretas a golfinhos, ou de uma flor para um monstro. A vista embaça. Embaça mesmo. Pelos nossos sentimentos, e pelas nossas escolhas, e principalmente pelo o que a gente escolheu sonhar.

Eu quero me desculpar com todos os meus eus passados. Todas as versões de mim que não tem a consciência que eu tenho hoje. Quero me desculpar com qualquer coisa que qualquer uma delas tenha feito. Seria fácil fazer isso se parte do perdão não viesse do outro, mas facilita quando a gente entende que o mais importante é se perdoar.

Eu lamento por não ter vindo aqui nos últimos dias, para nossas conversas. Por mais ‘monólogos’ que possam parecer, você me devolve algo que não tenho em mim, que é a capacidade de me ver de fora.

Lamento, mais pela minha visão das coisas, e a falta de clareza de sentimentos. Não lamento o passado, esse não volta. O lamento, a desculpa, funciona como a dor do exercício, funciona para elevar a gente. Mas tem gente que vive se lamentando (um exemplo é o texto de onde eu tirei aquela foto, ele fala sobre isso), preferindo a desculpa, ao lamento. O lamento verdadeiro, que transborda e vira perdão, vem aos poucos, como uma tertúlia que soa no campo, como um canto de anjos e bater de asas. Como um rio, longo e sinuoso, que move o pequeno grão de areia pelo seu curso, que para o rio é um ballet e para o pequeno grão uma tempestade sufocante.

Quando a gente acorda, quando desperta emocionalmente, a gente lamenta muita coisa. Quando a gente se liberta do lamento, a gente se perdoa, e fica leve. Não aprendemos ao longo da vida a nos libertar de forma fácil. Ouço muito as pessoas falando “aprendi” “fui criado”, e terceirizando toda a culpa. Eu também aprendi certos conceitos, fui criado sob certas óticas, e em algum momento fui grato a ela, em algum momento eu comunguei com esses conceitos e óticas, mas um dia amadureci. Entendi onde a vírgula entra. E comecei um caminho inverso, o de desconstrução. Ele demora. Demora e muito. Porque a rotina traz as maiores lamentações. A rotina faz os pesares e os imperdoáveis hábitos é o que distorce as relações.

Sinceras desculpas querido diário, não como forma de dizer “oi, estou aqui, voltei, agora vou estar sempre”; NÃO! Como forma de dizer que vivo o meu lamento. Um lamento silencioso e barulhento, calmo e agitado, que vai me levando correnteza abaixo me fazendo refletir sobre os meus sentimentos, meu propósito no mundo, as consequências do meu calar e meu falar sobre as pessoas com as quais me relaciono. Os preços que achei que deveria pagar, e aqueles que me acovardei. Sinceras desculpas querido diário, pois acordei de mais um sonho da Matrix. E esse lamento, ainda trará tantos outros. E por mais tristonho que possa parecer essa nossa conversa, te dou olhos para ver que meu semblante sorri, minha alma está leve, pois compreendi que quando a gente vira nosso próprio guia, de vez em quando é bom esquecer de conduzir o grupo e olhar a paisagem.

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