Humildade

Querido Diário #20170118

Eu hoje refleti muito sobre humildade. Sobre as muitas nuances que essa palavra tem. Sobre os muitos sabores e dissabores que ela traz. Entendi que quando a gente encontra a verdadeira humildade, aquela do aprendiz que ama a tarefa e se encanta com tudo mais ao redor, pois todos os detalhes fazem parte da tarefa e sempre há algo que poderá lhe trazer uma nova lição.

Foi difícil respirar para escrever esse parágrafo aí de cima. Quando eu ler novamente, vou poder lembrar deste fato!

Voltando ao que interessa. O simples fato de eu começar a colocar as minhas memórias e impressões nesse papel virtual, fez com que eu percebesse outras nuances, minhas também.

Eu tenho dois tambores ao lado do altar aqui de casa, um meu e um do Cris, São tambores xamânicos, produzidos em uma oficina com uma vivencia profunda e esclarecedora. Hoje, eu estava escovando os dentes, antes de vir deitar (sim, estou escrevendo antes de dormir, esvaziando a mente), ou melhor, esperando para poder escovar, fiquei observando o tambor.

E ele me chamou. Feito artesanalmente, com as minhas mãos, couro e madeira, ambos claros. Peguei a baqueta, construida também nesse mesmo dia. Azul, carregando a energia da minha intenção no momento da confecção. Comecei a bater em ritmo lento a baqueta contra o tambor. O som seco no começo, depois como se fosse ficando morno, alto e vibrante. Caminhei até o centro da sala.

Comecei a soltar o braço conforme sentia meu corpo, e o ritmo foi se alterando, alternando e me conduzindo. Senti algo nos meus pés. Abri os olhos levemente e vi meu gato passando por minhas pernas, roçando e ronronando, até que se deitou. Nesse momento eu lembrei da crença dos Egípcios de que os felinos são seres que vibram entre dois mundos. Passei meu pé sobre o gato levemente, continuando as batidas no tambor, tentando me treinar para fazer os dois ao mesmo tempo.

O gato se virou e abraçou meu pé. Como se fosse brincar. Então de repente ele deitou novamente. Eu respirei profundamente, sentindo o carinho dele e relaxei o corpo. Eis que eu sinto dois leões se aproximando pelas minhas costas. E sentam, na minha direita e na minha esquerda. Sinalizam com o cabeça para o gato. E eu ali, tambor em mãos, vibrando no ritmo duas vezes o da batida do coração. Fui levando ao meu corpo a minha consciência, e sentia que era diferente. Me sentia esguio, alto, e por um momento, como se me visse fora do corpo, vi um sujeito de pele escura, dourada, roupas em couro cobrindo apenas os genitais, uma faixa de couro no braço esquerdo. Cabeça raspada, uma faixa de couro parava na testa e começava de um laço na nuca.

Por além do sujeito vi uma cidade em tons de argila, imensa, monocromática nas construções, mas colorida no horizonte de natureza com o imenso céu azul ao fundo. Como se terminasse o tempo fora do corpo, me senti puxado de volta, mas ainda era outro espaço, outra dimensão, e foi então que diversas cenas começaram a passar pelos meus olhos. Senti que deveria escrever sobre isso. Um nome ficou soando na minha cabeça, Hamath. Assim que acordar amanhã vou fazer uma pesquisa sobre isso.

Pretendo amanhã praticar mais com o tambor e ver se consigo essa conexão novamente. É interessante como essas duas coisas me parecem associadas, a questão da humildade e essa visão desse guerreiro que tinha o respeito de dois leões. Coisas para refletir amanhã!

Dehdo

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