Tem gente demais na terra

Um dia para provar que não #QueridoDiário #20170127

Querido diário, como a vida é simples e complicada de maneiras tão diretamente conectadas. Tem gente que pensa que tem gente demais no mundo. Pensa nas questões planetárias, na salvação da espécie e esquece da salvação do relacionamento com o outro. Tem gente que pensa demais na relação consigo, com o prazer, com o momento e esquece a relação com o outro. E tem gente normal, que gosta de gente.

Eu sempre soube que era alguém que gostava de gente. Nunca quis nenhum rótulo pois sempre quis ser amigo de todas as gentes. E a vida me levou a descobrir que isso era impossível. Alguns desses traumas foram longe demais, tiveram consequências graves, outros só embalaram a triste e sedosa melodia que invadia meus pensamentos ao compor poesias na adolescência.

Quando eu era pequeno, 5 ou 6 anos (confesso que tenho problemas com minhas idades e os fatos da minha vida), costumávamos acampar todos os anos, e no camping, próximo a piscina, um restaurante melhorava seu serviço ao som de uma boa e eficiente música ao vivo. Meus pais gostam de cantoria, então todas as noites em que a atração aparecia, éramos público cativo.

Quem me conhece superficialmente, sabe uma das minhas muitas características, eu sou barulhento. Meu cérebro se mexe demais, e isso faz barulho. Só que sempre fui “recatado e do lar”, vamos dizer melhor, eu sabia ouvir quando estava fora do meu território (até porque ‘do lar’ precisaria de algumas páginas para chegar nessa história). Ou melhor dizendo, eu era um “anjo do senhor” (até onde as câmeras alcançavam). ‘Aie’, tá difícil chegar na metáfora que eu quero, eu era comportado, mas extrovertido, acho que assim explica.

Bom, naquela época, sem a menor vergonha, eu subia na cadeira, e ficava dançando, ajudando o músico no entretenimento da noite. Fazia aquilo com felicidade. Me sentia sentindo a música. Só que o tempo foi passando e eu fui me dando conta de que as pessoas me olhavam, fui envelhecendo e vendo mais olhos. Até que como quem recebe um ‘milagre’, do dia para noite, parei.

Muito obviamente devem ter tido muitos outonos e invernos e primaveras, em torno desses verões, e dessa atividade artística não remunerada, mas observada. Eis que passo a achar que o mundo tem muitos olhos. No CTG, em grupo, sempre me senti seguro. Mas ainda assim, o mundo tinha gente demais.

Mas avançando um pouco, quero lembrar de um momento, eu com quinze anos, a moça que cuidou de mim desde os meus 0 até uns 10 ou 11 (já disse que tenho problema com idades e fatos), fazia uns 2 anos que não me via. Encontrei com a irmã dela quando voltava da escola. Ela me disse que a irmã estava com saudades de mim e que estava na parada de ônibus naquele horário. Eu enchi minha mente com possíveis cenas de reencontro, tipo a Lessie encontrando a família perdida. Chego na parada, cumprimento, digo quem sou. Ela diz que não pode ser, que deve ser brincadeira, que não me conhece. Eu não insisto. Viro as costas, vou embora, e fecho meu coração para minha segunda mãe. Pronto, a partir daí eu acho que o mundo tem gente demais, e que se a gente passa muito tempo longe, vira poeira da memória.

Depois disso, eu sempre ficava com 5 ou 6 passos atrás de falar com pessoas que não vejo há muito tempo, reviver a mesma sensação era uma preocupação. Era, até pouco tempo. Me curei disso me conhecendo, me curei das duas coisas. Não tenho mais por que me recolher quando apareço sozinho, essa cura eu tive quando comecei a dar aulas. E não tenho mais receio, de levantar, de ir até a outra mesa, e dizer ‘oi lembra de mim’. Ao menos eu sei que estou valendo as memórias que tenho. Só que tudo isso ainda era de dentro pra fora. Faltava o de fora para dentro.

Eu observo, e assim como eu muita gente observa sem dizer ‘oi, lembra de mim’, simplesmente porque não teria um assunto para continuar, ou teria medo de ter que continuar. Quando o mundo cresceu mais do que o vizinho da caverna ao lado, a gente foi desenvolvendo mecanismos de defesa que nos afastam, quando tudo que a gente mais queria era poder dizer era ‘sim, eu lembro’, lembrar e sorrir, e simples assim, voltar à vida. Saber que o pó do rastro que deixamos no tempo ficou também na história de alguém, saber que o mundo não tem gente demais, só gente que se encontra de menos.

E a gente não se encontra, porque, cada um vive uma vida, só que cada protagonista é coadjuvante de outra história, e cara, saber que isso tá sendo registrado por diversas memórias diferentes, não tem preço.

Hoje uma brincadeira boba no face, me fez ver de fora para dentro que a poeira existe e que nem gente demais, nem gente de menos, tem gente. Que pensa como a gente, que lembra como a gente, e que tá crescendo como a gente. Deixar boas lembranças é um bom peso no tempo, e que essas linhas sejam só um exemplo do dia em que me dei conta de que quem gosta de gente é normal, tão normal que dá problema às vezes.

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