O Inferno das Escolas Públicas e o apelo do fascismo
As escolas públicas são, em grande medida, uma espécie de “réplica”, imitação, das particulares tradicionais, em termos de sua estrutura organizacional, baseadas em disciplina, sujeição aos professores, tarefas intermináveis impostas aos alunos, nenhum espaço para este dar opiniões, etc etc. Contudo, com o extremo desinvestimento, esses mecanismos de controle entraram eles mesmos em colapso: com as escolas públicas se transformando em simples depósitos de alunos, que ficam ali confinados num ambiente de stress insuportável.Não se tem alunos motivados para estudar o currículo usual, nem autoridade do professor para que fiquem no estado de silêncio mórbido necessário para se realizar uma aula convencional para o qual essa estrutura de sala de aula foi otimizada. Ou seja, que o modo de escola tradicional que as escolas públicas imitam, não consegue se ajustar na condição precária que os alunos se encontram, para não falar no fato de que não veem de uma cultura familiar que lhes encoraje o “empreendedorismo” e a lógica de “passar no vestibular” que, somado com a estrutura precária e as salas superlotadas, torna esse modelo completamente ineficiente como meio de aprendizado. Seria, no caso, como alguém malas com roupas “para praia”, só que no sul da Patagônia. Disso a impressão de que as escolas públicas seriam uma “anarquia” criada por pedagogos “esquerdistas” maldosos. Teoria de conspiração aliás muito em voga nos círculos de direita. Como se esses problemas não tivessem muito mais relação com a política de precarização em massa seguida a décadas por governos neoliberais, do que supostos “seguidores do Paulo Freire, que, aliás, nunca tiveram espaço para remodelar as políticas públicas. Então, no lugar da escola pública “formar” “bons alunos” no sentido de submissos e voltados para “meritocracia” e o mercado (o que seria danoso, aliás, pois não haveria meios de absorvê-los todos),ela se torna uma caricatura das escolas particulares, criando rituais que “imitam” esta, mas de uma forma grotesca. E os alunos ficam “livres” e “soltos”, mas de uma forma completamente aparente:como a barulheira na sala de aula é infernal, e o nível de stress, extremo.Para não falar dos inúmeros traumas decorrentes da situação de miséria, violência e marginalização por que passam e trazem de suas comunidades e lares.E que “ganha vazão” ali dentro da escola, numa sala de aula minúscula de alunos apinhados, que se torna uma “arena” para que esses demônios pessoais que os alunos carregam se “libertem”. Tal mecanismo por sua vez, se auto-alimenta: a desordem provocada por alguns, torna impossível para outros realizarem projetos construtivos, o que, por sua vez, impele a estes eles mesmos tentarem “bagunçar” junto a aula como uma distração. Na prática eles simplesmente se agridem entre si, ou se ocupam com “zoeiras”, sem, por exemplo, conseguir se focar na leitura de um livro, ou tocar um instrumental musical.Assim, as escolas públicas “lembram” escolas tradicionais, só que em permanente motim. Ou seja, mesmo a coerção direta do professor falhando (de “impor silêncio na sala”), o espaço em si inviabiliza usos construtivos/livres dele. E no entanto, isso não significa nem de longe que estão todos saindo anarquistas de lá, ou sequer mesmo “esquerdistas”.E sim que viveram o caos destrutivo de ficarem empilhados na sala de aula, sem nada construtivo para fazer.Seu potencial mantido inerte.Ainda que tentem aproveitar as estruturas precárias de vigilância para, precariamente, desenvolver algum projeto pessoal paralelo (rigorosamente punido se descoberto). Isso por sua vez torna muito apelativos os ideais conservadores de “trazer de volta a ordem”,que, no ver deles, faria a educação pública atingir o patamar das particulares, com os alunos sendo coagidos a “se esforçar mais”.Afinal, a escola foi, de fato, otimizada para funcionar melhor assim, com a ideia de militarizar a sociedade/as escolas, etc etc,justo como “solução” para a desordem que vivem.

