Minha experiência no Aceleradev + QuintoAndar

Stephany Nusch
Feb 27, 2020 · 7 min read

Há alguns meses me deparei com este post incrível do Gabs Ferreira discutindo o fato que as empresas querem sempre contratar os melhores profissionais, mas nunca desenvolvê-los.

Durante os meus anos de atuação como Desenvolvedora de Software, passei por bastante coisa. Desde crises de ansiedade e síndrome do impostor — que quase me fizeram desistir — até meetups que me fizeram sentir a própria Ada Lovelace.

Uma breve contextualização

É necessário fazer recortes de gênero, raça, classe, orientação sexual e mais um bocado de particularidades de cada pessoa para entender a sua trajetória e os seus objetivos de vida. Enquanto mulher, as dificuldades que enfrentei no mercado da tecnologia foram diversas: a solidão em ser a única em todos os times, em ser mais cobrada que os garotos, em ter suas skills justificadas pelo fato de ser mulher e não por ter estudado e se esforçado… a lista é grande. A maioria das mulheres que lerem esse post vão entender bem onde quero chegar.

Gráfico mostrando a porcentagem de mulheres em grandes empresas de tecnologia.

Mesmo assim, sou completamente consciente de todos os privilégios que me contemplam e de maneira alguma quero que esse post transmita a ideia que meritocracia sozinha explica o sucesso das pessoas. Precisamos ser realistas e entender que existem problemas profundos e estruturais na nossa sociedade que impedem que uma grande parcela da população “chegue lá” e, mais que isso, a cargos de liderança. Também não quero desmotivar ninguém e, na verdade, espero poder inspirar alguém mesmo que em dimensão diferente.

Como tudo começou…

No dia 7 de setembro de 2019 eu participei de um evento focado na inclusão de mulheres em áreas técnicas promovido pelo Programaria e pude conversar com representantes de algumas empresas em evidência no mercado - uma delas sendo a QuintoAndar. No momento do meu bate-papo com a representante do RH, ela me disse que eles estavam com esse programa de aceleração de carreira focado em back-end e perguntou se eu queria participar. Como fullstack em desenvolvimento e mais experiente em front-end, aceitei de cara.

Dois dias após o evento, recebi um e-mail que me convidava a participar do Aceleradev — uma parceria QuintoAndar e Codenation. Em 10 sábados iríamos do básico de Java até a construção de uma API e deploy de um sistema simples em produção. Só mulheres.

Eu não tinha muitos amigos na área e os que eu tinha eram homens. A troca de experiências nunca era simétrica e eu sempre acabava me sentindo menos capaz, menos confiante… enfim, é sempre bom se sentir representada nos lugares, com uma base de apoio de pessoas que passaram por experiências similares. Eu ainda não tinha isso.

Tendo aceitado o convite, cancelei todos os compromissos que eu tinha para aquele primeiro sábado e me dediquei a chegar com toda a minha disposição naquele prédio às 9 da manhã. E de cara fomos recebidas com vários brindes, além de um bate-papo com engenheiras da empresa falando um pouco de suas trajetórias e motivações para contratar mais mulheres.

Brindes do primeiro dia de Aceleradev: uma ecobag com adesivos, um caderno para anotações e uma camiseta.
Brindes do primeiro dia de Aceleradev: uma ecobag com adesivos, um caderno para anotações e uma camiseta.

Absolutamente todas as pessoas envolvidas no processo eram mulheres. Alguns homens da empresa deram apoio à iniciativa, claro, mas o protagonismo foi completamente delas. Foram mais de 2 mil inscritas e 33 selecionadas para participar desse projeto que mudou a vida de todas nós.

Toda aula se iniciava com uma palestra diferente — testes, arquitetura de sistemas, escalabilidade, boas práticas, etc. Depois entrávamos no conteúdo mesmo, focado em Java e lá ficávamos até as seis da tarde (com pausas pra lanchinhos e almoço, obviamente).

A gente também tinha acesso a uma plataforma para enviar os desafios da semana (a famosa lição de casa) e para tirar dúvidas com as monitoras e com a equipe da Codenation. Conforme o tempo foi passando, fomos nos conhecendo e criando laços umas com as outras.

Autossabotagem vs Autoconfiança

O lance com as mulheres na tecnologia e, na real, acho que com qualquer minoria, é que existe um paralelo psicológico a ser tratado junto com o aspecto técnico. Esse TedTalks fala um pouco sobre o fato das mulheres aceitarem menos desafios que os homens porque são ensinadas a não errar. Não nos permitimos falhar e, portanto, não tentamos. Aconselho todos a assistirem esse vídeo. Eu frequentemente volto nele pra ouvir as sábias e reconfortantes palavras de Reshma Saujani.

Durante todo o tempo que passamos no antigo escritório do QuintoAndar na Av. Paulista, era como se mais uma dose de autoconfiança fosse injetada em mim. Principalmente porque dava pra perceber que as meninas da empresa levaram aquilo pro pessoal. Era a pauta, o sonho delas. Assim como era o nosso também. Então todo mundo entrou de cabeça e não foi nem um pouco difícil se sentir parte de algo maior.

Do primeiro dia até a apresentação do projeto final, eu entrei de cabeça. Tentei ao máximo motivar as minhas colegas também. Além de tudo, aprendi muito sobre mim mesma. Eu sabia muito mais do que imaginava e era incrível aprender com todas aquelas meninas diferentes que tive a oportunidade de conhecer.

Um pouco dos bastidores do Aceleradev + QuintoAndar.

Apresentação do projeto final e contratação

No último sábado, 23 de novembro de 2019, foi o momento de se despedir. Cinco grupos apresentaram suas próprias versões e interpretações do mesmo projeto. Todas as entregas foram ótimas. Havia uma bancada “examinadora” do QuintoAndar também — toda formada por mulheres, que fazia perguntas a respeito do processo e, nesse momento, a gente podia contar um pouco mais sobre a nossa experiência enquanto equipe.

Meu Squad e a nossa orientadora, Ariane. ❤
Meu certificado! ❤
Todas as meninas e monitoras juntas! ❤

Na semana anterior à apresentação, a maioria de nós participou do processo seletivo da empresa. Foi uma entrevista super agradável que durou cerca de duas horas e meia. A primeira hora consistiu na resolução de alguns problemas a nível de código mesmo, propostos por um líder técnico deles. Foi a minha parte favorita porque eu consegui resolver os três problemas que me passaram com certa facilidade. Depois, com uma hora e meia de duração, veio a parte de arquitetura de sistemas, que eu confesso não ter sido o meu forte — trabalhando nisso, aliás.

No dia 26 de novembro eu recebi um email de um líder técnico da QuintoAndar pedindo pra bater um papo comigo a respeito do processo seletivo. Na ligação, a notícia de que eu tinha passado e o convite para fazer parte do time.

Eu não aceitei de primeira porque, fun fact, eu estava há apenas 15 dias em uma outra empresa. Mas sabe quando você entende o que vai ser melhor pra você? Foi isso. No mesmo dia, mais tarde, enviei um email dizendo que aceitava sim a proposta. 9 de dezembro seria o meu primeiro dia na #firma.

Conclusão

Acredito que todo ser humano trave batalhas consigo mesmo dentro da própria cabeça. Quando você faz parte de uma minoria, essas batalhas são mais difíceis e a quantidade de obstáculos aumenta conforme você se encaixa em grupos cada vez menos representados.

O Aceleradev foi uma experiência incrível porque, além de tudo, nos desenvolveu para dar o próximo passo em nossas carreiras. Das 33 selecionadas para o programa, 27 foram até o final, 23 participaram do processo seletivo, 11 propostas foram feitas e, delas, vieram 10 contratações. Algumas meninas foram para empresas diferentes, outras se desenvolveram nas que já estavam. Tem também quem continue estudando para tentar mais uma vez. O fato é que todo mundo saiu de lá melhor do que entrou.

O mais legal é que todas as meninas que palestraram e ajudaram a gente durante o Acelera passam do nosso lado nos corredores, trocam ideias, algumas estão nas mesmas equipes que a gente… então o contato continua.

Meu squad maneiro (essa foto precisa ser atualizada).

Minha opinião geral é que gente precisa entender o nosso valor enquanto profissionais e sempre buscar o melhor. É claro, se você gosta do que faz. Apesar do stress diário, eu gosto muito do caminho que escolhi — e tive sorte em poder escolher, desenvolvendo soluções com tecnologia.

É bom ser reconhecida, ter espaço pra dar a sua opinião e sentir que realmente levaram o que você disse em consideração. Desenvolver espaços mais saudáveis deveria ser uma obrigação de toda empresa. Digo com tranquilidade que saí de todos os lugares que saí por conta disso. É complicado — vivemos numa sociedade capitalista, afinal de contas. Precisamos cumprir prazos e bater metas. Gerar valor, etc. Mas antes de mais nada, somos pessoas e a nossa saúde mental não vale nenhum CNPJ (eu vi isso no Twitter, não sei quem falou, mas eu concordo tá?).

No mais, busquem conhecimento, comam vegetais e bebam água!

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She/her. Neurodiverse software developer. I like languages, games, music and frogs.

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