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O cemitério de áudios do WhatsApp

Quando lançaram o WhatsApp, minha intuição avisou: é treta. Logo eu, que nem curto muito esse lance de intuição. Não deu outra, até briga de namoro rendeu, por conta de visualização de mensagem, um dos muitos mecanismos de vigilância e controle da sociedade contemporânea.

Gravar áudios, então, tenho certo pavor. Dificilmente faço. Prefiro mandar em ocasiões especiais, como aniversário, fazer uma declaração de afeto, um podcast personalizado.

Admito uma vontade romântica de preservar o registro da voz e da intimidade, evitar a banalização, uma opção. Não deixo de me assustar, toda vez que imagino o acervo crescente de memórias sonoras dos que optaram pelo interessante recurso. Imagine sua coleção de áudios no futuro. Depois das milhões de fotos, vídeos, bumerangues e outros arquivos, que talvez sejam acessados apenas uma vez na vida, as gravações de voz.

O cemitério de áudios do WhatsApp terá finitos que parecem infinitos “bom dia”, “bom dia, grupo”, brigas de casais e famílias, discussões por causa da Dilma, do Lula e da Lava-Jato, sons ambientes enviados por engano, falas interrompidas, desabafos, confissões de bêbados, declarações de amor, indicações de como encontrar o bloco de carnaval e clássicos como hoje é dia de maldade e a história do cara que desceu o Alto da Boa Vista deslumbradíssimo depois de tomar MDMA. Obviamente, terá milhões de mensagens apressadas de trabalho, relatando atrasos, engarrafamentos, prazos, instruções, discussões.

Segredos compartilhados, músicas, boatos planejados, vozes de crianças, velhos, gravações sexuais, num amálgama de intimidades e registros do cotidiano, um dia talvez explorados por antropólogos digitais, que farão escavações em bytes, nuvens de dados, servidores divididos por regiões geográficas, países, operadoras, seguradoras. A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos já deve ter algum plano pra guardar essa babel do microcotidiano.

Ladrões levam nossos aparelhos e, com eles, nudes, registros fotográficos únicos, contatos, vídeos e nossos áudios. Taxistas não devolvem os celulares deixados no banco de trás e lá se vão umas gravações tão íntimas, coisas que, em público, alguns só falariam baixinho, ou nem falariam. Mas a gravação de áudios é desenfreada, justificável e tem sua lógica: por que digitar, se posso fazer algo mais rápido? A sociedade tem pressa. No final, vamos todos morrer mesmo.