O Samba é Meu Dom #01
Nesse programa, Rogerio de Araujo apresenta uma série de canções históricas e a relação com o trabalho.

A intenção é alinhar os sambas tocados com alguma temática histórica, ou homenagear sambistas que ajudaram a forjar a identidade do samba brasileiro.
Hoje nós estreamos o programa “O Samba é Meu Dom”.
Neste primeiro programa tocaremos sambas que falam da malandragem, da orgia, da preguiça, do trabalho.
Dividimos o programa em três partes: Na primeira parte, Wilson Batista nos apresenta a figura do malandro no clássico Lenço no pescoço. Wilson, com grande entusiasmo, diz:
Sei que eles falam desse meu proceder/Eu vejo quem trabalha andar no miserê/Eu sou vadio porque tive inclinação/Eu me lembro era criança tirava samba canção.

Prosseguimos com sambas que exaltam a malandragem. Há uma coisa muito explícita nestes sambas: O malandro só ousa abandonar a malandragem se for para ser sustentado por uma mulher, esse negócio de trabalhar jamais! Veja os versos de Bide em a Malandragem: Arranjei uma mulher que me dá toda vantagem /Vou virar almofadinha ou tentar a malandragem.
Também não há a menor possibilidade de o malandro trabalhar para sustentar mulher, olha o samba Caixa Econômica, de Nássara e Orestes Barbosa:
Você diz que eu sou moleque porque não vou trabalhar/ Eu não sou livro de cheque pra você ir descontar.
E termina nos dizendo que a preguiça do malandro é hereditária:
Meu avô morreu na luta/ E meu pai, pobre coitado, fatigou-se na labuta/ Por isso eu nasci cansado/ E pra falar com justiça, eu declaro aos empregados/ Ter em mim esta preguiça herança de antepassados.
Na segunda parte do programa, apresentamos músicas escritas entre 1939 e 1945, período histórico inserido no contexto do Estado Novo(1937–1945).

Ismael Silva
Em 1939, o governo de Getúlio Vargas institui o DIP-Departamento de Imprensa e Propaganda- que tinha por objetivo, entre tantos outros: 1- promover uma imagem positiva do Estado novo para a população brasileira, principalmente no que diz respeito às conquistas trabalhistas; 2- Incentivar as criações artísticas populares, promovendo concursos de composições, e a organização do carnaval; 3-Praticar censura prévia.
Com a prática da censura, o bicho pega para malandragem, esse negócio de exaltar a vadiagem e zombar do trabalho não se alinha ao trabalhismo Getulista, que exigia composições mais afeitas ao status quo, inclusive composições elogiando o trabalho.
Há quem diga que o malandro foi cooptado pelo Getulismo. Outra proposta, com a qual concordamos, entende que o malandro precisou adequar as suas letras, pois não fazia sentido algum bater de frente com o DIP. Essa tese se confirma porque ao final do Estado Novo, o malandro volta a descer o pau no trabalho, como veremos na terceira parte deste programa.
Isso não quer dizer que o malandro saiu de cena, ele só precisava ser mais sofisticado.
Da exaltação ao trabalho, temos o clássico O Bonde São Januário, de Wilson Batista:
Quem trabalha é quem tem razão
Eu digo e não tenho medo de errar
O bonde São Januário leva mais um operário
Sou eu que vou trabalhar
E também temos Eu Trabalhei, de Roberto Roberti e Jorge Faraj:
Eu hoje tenho tudo, tudo que um homem quer
Tenho dinheiro, automóvel e uma mulher
Mas pra chegar até o ponto em que cheguei
Eu trabalhei, trabalhei, trabalhei
Eu hoje sou feliz e posso aconselhar
Quem faz o que eu já fiz só pode melhorar
E quem diz que o trabalho não dá camisa a ninguém
Não tem razão
Não tem, não tem
Nesta fase dos sambas criticando a malandragem, encontramos o eu-lírico feminino suplicando ao malandro que ele largue a orgia e trabalhe, afinal ela passa o dia no lesco-lesco na beira do tanque pra sustentar a casa, enquanto o malandro não larga o samba, como na letra de Inimigo do batente, de Wilson Batista.
Eu já não posso mais a minha vida não é brincadeira
Estou me desmilinguindo igual a sabão na mão da lavadeira
Se ele ficasse em casa ouvia a vizinhança toda falando
Só por me ver lá no tanque lesco-lesco, lesco-lesco, me acabando Se lhe arranjo um trabalho ele vai de manhã, de tarde pede as contasE eu já estou cansada de dar murro em faca de ponta
Ele disse pra mim que está esperando ser presidente
Tirar patente no sindicato dos inimigos do batente
Por fim temos a terceira parte do programa, com sambas pós Estado novo, neles não há resquícios de exaltação ao trabalho, como neste
Diploma de Pobre:
Diploma de pobre é marmita
O rico é quem vive em boca rica
Enquanto o filho do rico vai estudar
Coitado do filho do pobre vai trabalhar
Coitado do filho do pobre que mal ganha para se sustentar
Quatro ou cinco bocas que ficaram em seu lar
Enquanto o filho do rico estuda e vai ser doutor
O filho do pobre nasce e morre trabalhador.
Na letra acima, percebemos não apenas uma crítica ao trabalho mas também à conformação de classes, o que podemos perceber também na marchinha Pedreiro Valdemar, de Wilson Batista, que fecha a nossa lista:
Você conhece o pedreiro Valdemar
Não conhece, mas eu vou lhe apresentar
De madrugada toma o trem da circular
Faz tanta casa e não tem casa pra morar
Leva marmita embrulhada no jornal
Se tem almoço, nem sempre tem jantar
O Waldemar que é mestre no oficio
Constrói um edifício e depois não pode entrar
Bom.. é isso, esperamos que tenham gostado da nossa programação.
Agradecemos ao nosso querido amigo Pedro Nathan, que incluiu o samba Greve de Alegria à nossa lista, os demais agradecimentos estão no final do programa O Samba é Meu Dom #01.
Abraços e até a próxima.
Lista das músicas deste programa:
Parte 1
Parte 2
Inimigo do batente (Dircinha Batista)
Inimigo do batente (Cristina Buarque)
Parte 3

