O Samba é Meu Dom #04 — Especial Wilson Batista

Wilson Batista de Oliveira tem uma importância pouco reconhecida como compositor. Sua obra vai muito além da polêmica musical que teve com Noel Rosa, a partir da qual costuma ser lembrada. Só pra se ter uma ideia, chegou a compor em torno de 600 músicas (isso se contabilizarmos apenas as canções que ele registrou em seu nome).
Preparamos para este programa uma seleção de músicas desse grande sambista, além de alguns breves comentários sobre sua obra.

Wilson Batista
Nascido em Campos de Goytacazes, no Rio de Janeiro, em 1913 e falecido em 1968, ele foi sobretudo um dos que melhor souberam levar adiante uma tradição iniciada por Noel Rosa: do samba como crônica, retratando os problemas e acontecimentos do dia a dia. No caso de Wilson, essas crônicas musicais costumavam trazer uma galeria de personagens originais com uma enorme carga dramática, sempre acompanhados de diálogos e dotados de uma personalidade marcante.
Embora, assim como outros sambistas de sua época, também tenha reproduzido em muitas de suas músicas o machismo arraigado na sociedade, Wilson foi um dos primeiros a fazer uso do eu-lírico feminino em letras de samba, assim como a tratar as relações entre homens e mulheres com questionamentos pouco habituais para os padrões de sua época, sobretudo nas décadas de 30 e 40.
Dentre os muitos temas que tratou em sua obra, não podemos deixar de mencionar o futebol carioca, a partir do universo de seus torcedores: era um flamenguista roxo e conseguia transmitir nos sambas todo o seu sofrimento e devoção. Mas também é preciso dizer que traduziu como poucos o universo da malandragem da Lapa e do morro, em seu auge e em sua decadência, juntamente com as transformações do próprio samba ao longo do século XX.

Inovador, não somente nas letras, Wilson Batista foi também um melodista de mão cheia. Mesmo já se destacando como um grande sambista e compositor de marchinhas, também soube passear por outros gêneros musicais com maestria — como por exemplo, a valsa, o bolero, o fox-trot e a marcha-rancho (embora não soubesse tocar nenhum outro instrumento além da caixinha de fósforos). Há quem diga que a música de Wilson Batista foi precursora de algumas variantes do samba, que mais tarde seriam conhecidas como ‘samba de breque’ e ‘samba sincopado’ — respectivamente levadas às últimas consequências pelos sambistas Moreira da Silva e Geraldo Pereira.
Apesar de uma obra tão rica, com tamanha força e influência inegáveis sobre os rumos de nossa música popular, Wilson Batista jamais conseguiu alcançar uma situação financeira minimamente estável por meio de seu trabalho como compositor. Em diversos momentos teve de se valer da venda de suas composições — e, por vezes, até mesmo da autoria delas (algo bem comum no meio musical de sua época) para satisfazer as necessidades mais imediatas. Wilson morreria em 1968, já bastante debilitado, vítima de uma doença popularmente conhecida como “coração de boi”; por ironia, poucos anos antes de um movimento cultural de resgate e valorização do samba (que viria a dar destaque, por exemplo às obras de Cartola, Noel, Zé Keti e Nelson Cavaquinho). Lamentavelmente, não teve a oportunidade de testemunhar e participar desse momento. Em todo caso, ainda que sem o reconhecimento merecido, o fato é que ele conseguiu fazer através de sua obra aquilo que deixou expresso no samba “Mundo de Zinco”: deixou o seu nome na história!
MÚSICAS DO PROGRAMA:
BLOCO 1
Mulato calado (Wilson Batista/Benjamin Batista) Clementina de Jesus
Ganha-se pouco, mas é divertido (Cyro de Souza/Wilson Batista) Aracy de Almeida
Mundo de madeira (Wilson Batista/Jorge de Castro) Orlando Silva
E o 56 não veio (Wilson Batista/Haroldo Lobo) Paulinho dá Viola e Roberto Silva
Não é economia (Wilson Batista/Oswaldo Lobo) Deo
BLOCO 2
Cabo Laurindo (Haroldo Lobo/Wilson Batista) Jorge Veiga
Flor da Lapa (Wilson Batista/Cezar Brasil) Cristina Buarque
Chico Brito (Wilson Batista/Afonso Teixeira) Paulinho da Viola
BLOCO 3
Que malandro você é (Wilson Batista/Erasmo Silva) Zélia Duncan
Gênio mau (Wilson Batista/Rubens Soares) Cristina Buarque
Oh, Seu Oscar! (Wilson Batista/Ataulfo Alves) Ciro Monteiro
Lealdade (Wilson Batista/Jorge de Castro) Orlando Silva
Mundo às avessas (Haroldo Lobo/Wilson Batista) Claudia Ventura e Rodrigo Alzuguir
BLOCO 4
Lenço no pescoço (Wilson Batista)
Silvio Caldas
História da Lapa (Wilson Batista/Jorge de Castro) Nelson Gonçalves
Rei Chicão (Wilson Batista)
Tantinho da Mangueira
BLOCO 5
Samba rubro-negro (Wilson Batista/Jorge de Castro) João Nogueira
No boteco do José (Wilson Batista/Augusto Garcez) Cláudia Ventura e Rodrigo Alzuguir
BLOCO 6
A voz do sangue (Walfrido Silva/Wilson Batista) Rodrigo Alzuguir
Miss Mangueira (Antonio Almeida/Wilson Batista) Jorge Goulart
Se não fosse eu (Haroldo Lobo/Wilson Batista) Claudia Ventura
Sabotagem no morro (Haroldo Lobo/Wilson Batista) Aracy de Almeida
Não era assim (Haroldo Lobo/Wilson Batista) Cristina Buarque
BLOCO 7
A mariposa (João da Bahiana/Wilson Batista) Carlos Galhardo
Amor de parceria (Wilson Batista/Noel Rosa) Cristina Buarque
É mato (Wilson Batista/Alvaiade) Tia Surica da Portela
BLOCO 8
Artigo nacional (Wilson Batista/Germano Augusto) Elza Soares
Cadê a Jane (Wilson Batista/Erasmo Silva) Os Cariocas
Dolores Sierra (Wilson Batista/Jorge de Castro) Nelson Gonçalves
Nelson Cavaquinho (Wilson Batista) Teresa Cristina
BLOCO 9
Transplante de coração (Wilson Batista) Wilson Batista
INDICAÇÕES DE LEITURA:
WILSON BATISTA E SUA ÉPOCA, de Bruno Ferreira Gomes. Funarte, 1984
PERFIS DO RIO — WILSON BATISTA, de Luis Pimentel e Luis Fernando Vieira. Relume-dumará, 1996
WILSON BAPTISTA — O SAMBA FOI SUA GLÓRIA!, de Rodrigo Alzuguir. Casa da Palavra, 2013.
INDICAÇÕES MUSICAIS:
GANHA-SE POUCO, MAS É DIVERTIDO — CRISTINA BUARQUE CANTA WILSON BATISTA. Jam music, 2000:
https://www.youtube.com/watch?v=HsZCRiO2W1A&list=PL1CbPR2E0Wo177S3q5461Y7zp6u8EdAOZ
WILSON BATISTA — JOYCE E ROBERTO SILVA. Funarte, 1985.
https://www.youtube.com/watch?v=lI8F226nCww
O SAMBA CARIOCA DE WILSON BAPTISTA. Biscoito fino, 2011.
https://play.spotify.com/album/4KTXAm1jJABLDB1GRUxbDa
Produção de Pedro Nathan e Rogerio Araujo

