Às vezes dá para escolher ser negro.
Nem sei se pode-se chamar de “tática”, mas é fato que parte da dominação (cultural, social, econômica, etc.) é subverter costumes, valores, hábitos e a cultura de uma população. Em outras palavras, parte da afirmação de domínio e superioridade é a apropriação pelo dominador de coisas que a população dominada é e faz. Um bom exemplo disso são as várias datas e celebrações cristãs católicas cujas origens reais são celebrações pagãs e foram “adaptadas” para servirem à igreja. Este é um tópico extremamente abrangente, que vai deste a religião até o próprio racismo, e eu não tenho pretensão alguma de fazer um estudo sobre: a limitação aqui começa na pele.
Já há muito tempo o “bronzeado” é uma coisa. Aliás, sequer poderia ser diferente: é uma reação natural do corpo humano a adaptação da cor da pele como proteção para contra os efeitos nocivos do Sol (diga-se de passagem, sequer é exclusividade: a maioria dos mamíferos têm mecanismos iguais ou similares). Nesses milhares de anos de evolução de hominídios e a posterior organização em sociedades e criação de culturas, se bronzear teve várias funções e significados diferentes, que aliás persistem até os dias atuais: no Japão, por exemplo, o padrão de beleza é a palidez, mas ao mesmo tempo a estética ganguro é exatamente o oposto.
É esta diferença de entendimento do que pele bronzeada significa que levou à centenas de invenções e criações nestes séculos todos: é o motivo por trás de protetores solares, sombrinhas e guarda-sóis. É o motivo por trás de chapéus, turbantes, robes e lenços, utilizados das mais variadas formas, tamanhos, cores e padrões ao redor do mundo. E pode parecer doido falando isso, mas ao mesmo tempo em que nós, como espécie, nos preocupávamos de inventar formas de nos proteger do Sol, também nos preocupamos em criar óleos bronzeadores, bronzeamento artificial, câmaras de bronzeamento, pílulas de bronzeamento e até mesmo aplicação de hormônios para bronzeamento. Com o maior entendimento dos riscos que a exposição ao Sol pode trazer para nós, nós nos damos ao trabalho de criar fórmulas e estratégias de reduzir estes riscos, de ter um bronzeado saudável… sendo que, há muito tempo, já estudamos a necessidade da exposição ao Sol e seus efeitos benéficos para a saúde. Enquanto o bronzeamento como parte da moda e do vocabulário da beleza só começou na década de 20, o ato em si faz parte da história da humanidade.
Porém é justamente na seara da beleza e da estética que fica o problema: para além da reação orgânica da pele escurecer, o bronzeamento — que, vale notar, é justamente chamado de “bronze”, do metal cobre, e não de “enegrecimento” — virou uma ferramenta social. Há milhares de casos no qual o bronzeamento, indiferente de método, foi e é utilizado para “ter um negro” ou “ser negro” mas sem realmente ter negro nenhum na história. Há exemplos no mundo da moda, nas influencers do Instagram, no próprio ganguro japonês, na música. O termo atual, blackfishing, é de 2018 e descreve exatamente o ato de utilizar estéticas negras sem ser negro.
O bronzeamento em si, sozinho, pouca diferença faz, mas aliado à outras estéticas, atos e costumes — à vestimenta, joias, vocabulário, cortes de cabelo, etc. — a questão deixa de ser simplesmente cor de pele e passa a ser de racismo… eis aqui que entram a apropriação e a dominação. Porque permitem à pessoas não-negras a “fazerem o papel” de negros.
Tenho certeza que tem gente que pode quebrar este debate em vários outros pontos, mas quero apontar dois óbvios. O primeiro é que este “fazer o papel” reforça a ideia de que outras raças e etnias são superiores aos negros, afinal estas pessoas podem ser negras E não ser negras ao mesmo tempo, numa demonstração de “versatilidade” étnico-racial absurda. O segundo ponto é consequência direta do primeiro: se tem gente “interpretando” negro, por que ter negro “de verdade”? É muito mais fácil não ter que lidar com questões como representatividade, igualdade salarial, igualdade de acesso e tantas outras se você pode, às vezes literalmente, pintar alguém de preto.
É por isso que o atual blackfishing é apontado por alguns como uma nova forma de black face (aliás, mais alguém percebe a ironia gigante em negritar estes termos?): é igualmente um mecanismo de domínio sobre populações negras que, ao mesmo tempo em que retira destas suas características para ganho próprio, também as marginaliza porque elas não são mais necessárias. A diferença entre o blackfishing e o black face é, como já diz o ditado, aquela entre mel e vinagre, mas o resultado é o mesmo.

O que me chamou a atenção para este debate para início de conversa foi um texto que, infelizmente não achei de novo. Só para ilustrar a questão, serve esta matéria aqui, que fala sobre a mesma coisa: homens fazendo marquinha de fita isolante durante o bronzeamento. Até aí sem problema algum, mas alguém (e com “alguém” eu realmente quero dizer “não lembro quem foi”) problematizou a questão justamente por causa do bronzeamento (e, meio que curiosamente, não por causa da marquinha), dizendo que tinha gente — branca — que “escolhia” ser negra sem precisar passar pelas dificuldades que os negros passam.
Eu entendi o que a pessoa quis dizer. Fazia e faz total sentido… ainda assim, soou errado. Porque bem, se bronzear é natural. Natural porque é resposta biológica do nosso corpo, natural porque é comum no mundo inteiro e principalmente no Brasil, natural porque velho… deixa as pessoas se bronzearam, tá ligado? Não tá machucando ninguém.
Isso foi há um tempo, então o blackfishing ainda não tinha nome, apesar de já acontecer e ter sido notado pelas pessoas. Ainda não tinha entrado na minha vida o conhecimento de que gente se passando por negro é uma realidade… claro, não tem nada de novo em wannabes, mas uma coisa é a galera querer ser gangster, outra coisa é querer ser negro. Primeiro porque raça, etnia e cor de pele não são escolhas, literalmente se nasce com elas, e segundo porque a grande maioria das pessoas que “querem ser” negros — ou, no caso do blackfishing, utilizam estéticas negras — não fazem absolutamente nada pela população negra: não combatem preconceito, não trabalham para mitigar as disparidades sociais, não se engajam em debates sobre representatividade… o maior ato é justamente este de “ser” negro sem ser negro, de colher louros por parecer ser algo, mas sem levantar um dedo sequer para combater o racismo que as pessoas que elas emulam sofrem.
Foi este entendimento que eu demorei um pouco para ter quando vi a crítica daquela pessoa sobre o bronzeamento, que, na verdade não tem muito a ver com o bronzeamento (ou talvez a pessoa tenha sim algo com o bronzeamento né, vai saber). E é aqui que entra a minha experiência nesta questão: eu sou branco. Tem gente mais branca que eu, mas eu definitivamente sou branco… e estou quase que totalmente bronzeado.
Por conta de uma lesão no joelho precisei fazer exercício físico, e com piscina em casa, ela foi a primeira opção: não tinha impacto na articulação e, de quebra, ajudava com o calor. O tempo de limpar a piscina, fazer os exercícios e, de forma geral, aproveitando o dia do lado de fora da casa, fizeram com que eu bronzeasse, e rapidamente passei a dedicar um tempo justamente à isso: fazia muito, muito tempo desde que tinha me bronzeado pela última vez, e depois de literalmente uma década de marca de camiseta e chinelo eu tinha cansado delas. Isso foi há quase três anos. Tem gente que me conheceu assim e acha que meu tom de pele atual é meu tom de pele natural: não só não é, como tem uma diferença enorme entre os dois.
É verdade que é uma minoria que não percebe que minha pele está bronzeada: a grande maioria percebe sim… porém, tem uma outra minoria. A minoria que me diz que eu estou preto.
Invariavelmente é gente que conhece minha cor de pele natural (e, claro, isso inclui gente da família), porque tem algo que posso garantir nesta história: absolutamente ninguém nunca achou que eu fosse negro. Aliás, mesmo minha pele estando vários tons mais escura que o meu natural, absolutamente ninguém nunca achou que eu não fosse branco (não só isso não faz sentido como também é tão intrinsecamente brasileiro que chega a ser ridículo, mas divago).
Este “você está preto” não é sério, não é literal, é… racista. Porque se não for branco, mas branco “de verdade”, é preto. “Claro que não tem problema nenhum em estar preto”, mas não é mais branco.
Nunca tive problema nenhum por conta da minha pele… o nível que posso dizer isto é tão intrínseco, que eu faço parte da galera branca que felizmente fica bronzeada ao invés de virar um pimentão… não que isto tenha me poupado de queimaduras e da nomenclatura acompanhante de “napolitano” (dá, inclusive, para ilustrar como a parte do “preto” continua na questão). Ainda assim, nunca aconteceu comigo de ninguém, de raça alguma, me dizer que o bronzeado era um problema. A cor da minha pele, seja qual cor eu tenha tido na minha vida, da mais clara à mais escura que eu consigo atingir, nunca foi um problema.
Eu nunca quis ser negro (e eis aí um grupo de número muito reduzido…), nunca me disse negro, nunca ninguém achou que eu fosse negro e eu nunca me bronzeei para parecer negro… mas eu me bronzeio. Nos últimos anos eu tenho mantido este tom de pele. Por que? Bem, primeiro porque eu ainda preciso fazer exercícios na piscina; segundo porque eu definitivamente não quero marca de camiseta de novo; e terceiro porque… é a minha pele?
Eu posso escolher o tom da minha pele. Há limites, claro, e eu estou falando de um limite natural, já que eu não uso bronzeador algum, mas eu tenho escolha. Ainda que eu não conjugue meu tom mais escuro possível (que, aliás, não é o atual) com os outros atos do blackfishing, eu tenho a agência se eu quero aquela aparência de “copo de leite” ou de “acabei de passar a semana no litoral, e vocês?”, e junto de cada uma delas e da capacidade de escolha em si, vêm as vantages… até onde consigo pensar, não tem desvantagem alguma, não socialmente (biológicamente falando estão aí os riscos aumentados de câncer de pele e envelhecimento precoce).
Não sei se é racista se bronzear… sei que o blackfishing definitivamente é, mas bronzear? Para mim e para gente como eu, isto aqui é o natural. Minha pele bronzeada é tão normal quanto minha pele não bronzeada (e, quem diria, tratar as pessoas diferente por conta da pele delas é errado), mas se tem algo que o bronzear é, é privilégio. E é um interessante porque abrange muita gente branca, mas não todas as pessoas brancas, e ao mesmo tempo abrange muita gente não-branca: muita gente parda, muito cabloco, muito cafuzo (aliás, “caboclo” e “cafuso” ainda são nomenclaturas válidas?)… é um privilégio vindo da miscigenação, e está aí algo raro de se poder dizer.
É bem possível que hajam pessoas que entendam o bronzeamento como uma atitude intrinsecamente racista. Porque (e isto é uma noção absurdamente ridícula porém muito real) tem gente que nasceu com o mesmo tom de pele que eu tenho neste exato instante e que sofre racismo por isso. Tem gente com pele mais clara que a minha, e que sofre racismo por isso. E isso é absurdo, porque a única diferença é que eu tive que ficar debaixo do Sol pra ficar deste jeito, enquanto estas outras pessoas literalmente nasceram assim.
E essas pessoas enfrentam todo o tipo de dificuldade, violência, crime e discriminação, enquanto eu, que escolhi esta pele, não sofro absolutamente nada: muito pelo contrário, é comum gente elogiar o meu bronzeado, e obviamente não é exclusividade minha. Porque, no fim, racismo não é sobre a sua pele, é sobre a sociedade em que você vive.

