A ruiva do banheiro

Evelyn não sai do banheiro há horas.

Hoje é dia dela, comentam as funcionárias que voltam do banheiro, algumas um pouco incomodadas. Só queriam resolver necessidades bem básicas. Mas Evelyn é insistente.

Ela vende bijuterias dentro do banheiro.

É isso mesmo, de vez em quando ela aparece e fica o dia todo lá, as moças dizem sem espanto. Resolvo ir atrás.

Considerando o que conheço de banheiros desse prédio, o feminino deve ter também três cabines individuais, talvez quatro, dada a ausência de mictórios. Uma pia larga e contínua com três torneiras e um espaço onde fica um pequeno armário. É um bom banheiro, espaçoso, sempre limpo.

A porta de entrada é daquelas que ficam sempre fechadas, mas hoje ela está escorada por uma lata de lixo. Antes de eu arriscar o contato, uma funcionária entra. Fico no corredor de frente para as janelas, olhando a vista do fim de tarde, com um bloco de notas na mão. Logo começa a conversa. Um longo papo sobre problemas nas articulações e sugestões de remédios. Hoje a moça não vai levar nada, mas reservou um anel de coco. “Na próxima cê traz e a gente acerta”.

Quando a funcionária sai, continuo parado, indiferente, o que já é bastante estranho, já que eu estava exatamente ali há mais de dez minutos atrás. Dou um olá, espero alguns segundos e bato na porta escorada.

“Pode entrar”

“Eu… acho que eu não posso.”

“Você é da manutenção? Pode sim.”

“Não. Mas eu trabalho aqui.”

“Você quer usar, então?”

Há um banheiro masculino logo ao lado. Mas pouco importa para Evelyn.

“Não. Na verdade eu queria falar com você.”


Cabelos com um laranja fortíssimo, saia comprida cinza talvez de algodão, botinhas pretas, meião e uma blusa com listras coloridas horizontais, Evelyn deixa o banheiro um tanto desconfiada. Tem a pele bem branca, olhos esverdeados, um deles muito vermelho e lacrimejante, do qual conta ter perdido parte da visão.

“Oi, é… então, eu sou estagiário aqui. Eu estava ali na sala e soube que você estava aqui.”

“Mas quem falou?”

“Foram as moças ali da redação. Disseram que você trabalha com venda de jóias.”

“É.”

Resolvo abrir o jogo pra desarmar a conversa — que nos meus sonhos jornalísticos rolaria com a mesma naturalidade que o papo sobre dores nas articulações e recomendações de remédios de minutos atrás.

Declaro minha curiosidade com o fato de, oras, alguém estar vendendo bijuterias no banheiro! Mas quem se espanta é Evelyn. Qual o problema?

Ela entende muito naturalmente que está fazendo seu trabalho. Como não pode passar de sala em sala e não é funcionária do prédio, encontrou no banheiro o local ideal para apresentar seu mostruário. E ali cabe tudo de uma vez.

“Você já trabalhou com vendas?”, ela pergunta, ainda num tom ressabiado — que talvez nunca tenha sumido de fato. Percebo uma brecha, a chance de encontrar um ponto comum que nos aproxime. Comento que fui secretário numa escola de idiomas, de fato meu primeiro emprego.

“Uma coisa é o cliente vir até você. A outra é você ter que ir atrás dele”, ela contrapõe.

Sou rápido. Já conto em seguida dos trabalhos de revisão que faço, que me exigem certo esforço de divulgação. Falo da minha luta por espaço nos pontos de ônibus onde colar meus cartazes, a dureza de precisar de renda extra.

“Então. Na crise as pessoas compram menos. É preciso ir até onde os clientes estão”, justificando sua presença.

Agora sim. Trocamos histórias, moeda sempre forte.

O papo engata. Ela conta que é formada em química e produz cosméticos além das bijuterias. Há anos vende seus produtos em locais diversos; banheiro, só esse. Não é de hoje que vem a esse prédio. Sabe que o poder aquisitivo ali é alto e já é conhecida das funcionárias, embora no andar de cima poucas pessoas saibam de sua existência. De algum modo atravessa os seguranças e as catracas que funcionam com carteirinhas funcionais. Não pergunto como. Questionar esse ponto me parece por em risco nossa conversa, que agora quase se tornou um papo casual daqueles de soleira da porta de banheiro. Por isso mesmo, também não peço pra ver o mostruário. Posso apenas imaginar um banheiro tomado por camadas de veludo preto expondo bijuterias ao lado dos rolos extras de papel higiênico.

“As meninas têm vindo menos”, conta a vendedora, que nunca coloca em questão sua própria presença no banheiro. Até tento entrar no mérito. Comento que eu ficaria um tanto constrangido se visse alguém assim dentro do banheiro. Sabe, às vezes as pessoas tem uns tabus, umas manias né? Acho até que contei uma das minhas particularidades toiléticas, carta controversa que sempre tenho na manga para dar aquele impulso cômico numa conversa. Mas é à crise que Evelyn atribui a queda nas vendas.

E embora haja quem de fato reclame e se sinta constrangida, há uma clara solidariedade com Evelyn. Mais de uma mulher declarou sem hesitar que acha certo ela estar lá. Cada um está fazendo o seu, procurando como viver. E a vendedora torna-se parte natural do banheiro, do prédio, dos incômodos de umas e das compras de outras. Como há o rapaz do primeiro andar que vende bolo. Ou a moça da limpeza que vende brigadeiro. Ou o estagiário que vende revisões.

Ela afinal ri da minha “curiosidade”, desse “lado investigativo” do jornalismo. Conhece os termos.

“Mas e aí, você não quer levar nada? Não tem alguém pra dar um presentinho?”

“Não, não… Hoje não. Mas obrigado. Também vou voltar ao trabalho.”

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