Considerações adicionais sobre “pavê ou pacomê”

A respeito da icônica frase “é pavê ou pacomê” o inigualável Antônio Prata já escreveu o texto definitivo. Em seu, imaginem, “É pavê ou pacomê?” Prata sela o assunto com um comovente elogio e apoio aos tiozões Brasil afora que passam por cima das expectativas morais e humorísticas de nossos tempos dominados por comportamentos calculados. É isso mesmo.

Que o texto de Prata deveria ser colado em cada geladeira deste país que por ventura abrigue um pavê para ser comido não tenho dúvida. O que me preocupa é o futuro deste grito de resistência quando as atuais gerações crescerem. Eis que imaginei uma breve cena do que poderia vir a ocorrer em 15 anos.

Um sujeito aproxima-se da geladeira na noite de ano novo. Velhos amigos da faculdade estão reunidos em sua casa, que já não é mais uma república. E ele vez por outra, entre as rodas de conversa, não deixa de pensar que enfim este momento de sua vida chegou.

Como todos os nascidos do fim dos anos 1980 em diante, este homem foi marcado por uma construção da vida adulta recheada de nostalgia. Sua infância e adolescência, cotidianamente repaginadas por anos nas linguagens da internet, estiveram sempre próximas dele, diferente de seus pais. Nunca lhe faltaram referências e motes para o humor. Nunca foi preciso se ater a uma frase de segurança que pudesse lhe garantir seu lugar social na mesa, como os tiozões de outros tempos.

Feliz com o movimento na casa, em rever amigos, em perceber que, afinal, gosta de ter criado uma família, ele abre a geladeira meio reflexivo (e sempre nostálgico) para pegar o pavê. Então percebe que é ele um dos mais velhos ali. É ele, afinal, quem está pegando o doce para levar à mesa, onde o jogo de pratos que comprou numa etna ou tok&stok está pronto para abrigar a sobremesa. Mortos ou distantes, seus parentes não estão ali. Nem os dos amigos. Não há tiozões na sala dando bebericos de cerveja às crianças, apontando falsas sujeiras em roupas de festa, roubando narizes, perguntando aos jovens constrangidos sobre “as menininha”.

A geladeira continua aberta e as cervejas artesanais estão perdendo a temperatura ideal. Assustado com sua percepção do ciclo da vida, retoma a consciência e pega, afinal, o pavê. Uma das crianças, impaciente com a demora e famosa por ser a que consome açúcar branco dentre os poucos filhos dos amigos, vai à cozinha investigar porque a sobremesa demora tanto. Ao se deparar com o adulto prostrado diante da geladeira segurando a travessa de vidro diz animada: PAVÊÊÊ!

Uma fonte de luz começa a emanar de dentro do homem. Seus pulsos engrossam. Uma garrafa de cerveja Belgian Amber Stout explode. A luz vem de sua barriga, que começa a crescer, inchar. Um botão do alto da camisa voa, os pelos do peito crescem. Ele sua muito. A barriga é uma lua iluminada agora que de súbito se apaga. Com a travessa gelada em mãos, ele vira sadicamente para a criança, a geladeira se fecha atrás, e enfim diz: “É PAVÊ OU PACOMÊ?!”

A transformação está completa

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