Feira Mística

Um dos homens passava levando um longuíssimo cabo com uma lâmina curva na ponta, como daquelas armas usadas em demonstrações de kung-fu. O outro carregava debaixo do braço cartazes enrolados daqueles que anunciam “amarração para o amor” e outras artes mágicas. Em seu trajeto, os funcionários da prefeitura ainda arrancariam mais cartazes destes dos postes do bairro chique.
O destino dos místicos já foi melhor, com o perdão da expressão.
Mas se há um lugar onde eles estão seguros, é na feira mística de São Paulo. O evento, como diz o nome, reúne grande variedade de produtos e serviços do mundo místico e esotérico.
Mulheres numa performance de dança cigana ao som de música em espanhol alternada com Gipsy kings animam o público que se espreme nos corredores do amplo salão abarrotado de barraquinhas. Chego ao evento em hora animada, mas meu amigo ainda não apareceu. Desço as escadas para encontrá-lo na entrada e logo após nos vermos um senhor que carrega fardos de cerveja rumo ao evento de moda plus size no saguão ao lado vê o plástico de um deles ceder e várias latas irem ao chão. Saco uma sacola plástica da mochila e ajudo a recolher as cervejas com meu amigo. Ganhamos duas latas de recompensa. A tarde começa bem.
Estamos ali para ver o que há, talvez encontrar um canto e, sem brincadeira, jogar um Magic.
A feira tem aquele cheiro genérico do blend de incensos, presentes em quase todos os estandes, e que só é um pouco diluído na região próxima da barraquinha de Acarajé.
Meu amigo chama a atenção para a flauta decorada com durepoxi e para o “pó dos gnomos”. Ele, de espírito mais mágico, já diz: “eu faria era pó DE gnomo”. Não duvido que possa haver isso em alguma barraca.
Em meio a imensa quantidade de informação e energia dá pra notar uma estética meio comum aos diversos objetos, algo anos 90 que fica mais evidente nas capas de livros, com aquela fonte meio serifada que parece evocar de leve uma caligrafia de línguas do oriente como árabe ou hindi, de traços mais redondos, cores fortes, muito roxo.
E há pedras. Muitas pedras. Cestas de pedras as mais coloridas. Parecem feitas à mão, não extraídas da natureza. Difícil imaginar que formatos e cores tão incomuns não tenham mesmo qualquer propriedade sobrenatural.
Mas a grande revelação está numa ala pequena, ao lado do saguão principal sinalizada por uma faixa onde se lê “oraculistas”.
Muitas mesas, todas decoradas com panos multicoloridos e inúmeros objetos mágicos oferecem uma fortuna de leitoras de tarô (inclusive com baralho russo), de mão, de aura, de runas, de borra de café, de vidas passadas. Há jogadores de búzios, videntes, astrólogos e numerólogos, num espaço do tamanho de um salão de festas de prédio. Uma mesa do lado da outra, com a respectiva técnica indicada por uma plaquinha (em uma delas há o adjetivo “metafísico”), atendem em sequência aos que chegam. O valor é único. E se não me engano, paga-se uma vez e pode-se ir a quantos dos oraculistas você quiser.
Há algo de muito estranho em ver ao mesmo tempo tantas vidas sendo lidas e destinos interpretados lado a lado, em público. Independente de se crer ou não em qualquer das técnicas, sempre pensei nestes eventos como coisas muito privadas e reservadas. Como uma seção de análise. Só você e o profissional. Não é o que se passa. Enquanto penso isso uma senhora em plena seção de leitura coloca-se em pé, fecha os olhos e respira fundo enquanto sua oraculista entoa algo e balança castanholas traçando um arco por cima de seu corpo. Nada que pareça perturbar a aura de qualquer das mesas ao lado. O suspiro da senhora ao final da seção não deixa dúvidas de que algo se passou ali.
Um pessoal do staff recolhe os nomes para o agendamento das consultas com os profissionais. Com a maioria é preciso esperar apenas uma seção, quando não já ser recebido de imediato. Pergunto se há alguém que seja mais concorrido. “Ah, é a Sandra Susi”, diz a moça, que mostra a agenda da vidente preenchida já para o dia inteiro. “Ela é que apareceu no Celso Portiolli”, justifica a moça, que dentre todos os oráculos só não iria na leitura de vidas passadas, pois tem medo.
Olho para a mesa da vidente celebridade, uma senhora branca de cabelos muito loiros e cheios amarrados numa grossa trança, que lembra mais uma viking. Em sua plaquinha diz-se apenas “vidência”. Embora haja um ou outro objeto em sua mesa, não parecem pertencer ao ritual da leitura. Sua arte é mais direta, racionalizada, sem intermédios. Não há cartas, conchas, pedras. Ela apenas vê.
Um princípio de briga parece ocorrer logo ao lado entre senhoras que estavam justamente na fila para o agendamento. Brigar na fila de agendamento de leitura do destino numa feira mística é dessas experiências que São Paulo pode te proporcionar. É a cidade no seu melhor.
Enquanto isso passa outra moça do staff carregando uma bandeja cheia de xícaras com borra de café para serem lavadas. Meu ceticismo não me impede de me fascinar com aquilo tudo, o que tento justificar com a famosa cartada da “experiência antropológica”. Mas por mais que esta postura faça meu interesse ser genuíno, não posso negar que um certo cinismo do meu olhar, especialmente agora quando começo a imaginar que consequências cósmicas poderiam ocorrer se a moça tropeçasse e quebrasse todas as xícaras, ou o que poderá se passar com ela própria na hora que lavá-las.
Neste cinismo há também uma curiosidade que chega a ser solidária com as pessoas que estão ali e com as perguntas e angústias para as quais vieram buscar alguma espécie de resposta. E mais do que a senhora que recebeu o passe de castanholas, isso se desperta quando noto um senhor que vai a diversos serviços no salão. Quando chegamos ele estava no búzios. Agora olha para um tarólogo com o mesmo interesse, o mesmo semblante preocupado e a mão na boca, enquanto escuta o que aquelas cartas podem dizer sobre sua vida. Gostaria de saber a quantos oraculistas ele ainda irá, porque escolhe uns e não outros, se encontrará o que procura. Mas vamos embora trocar as cervejas que ganhamos por outras geladas e deixar que algumas coisas fiquem no plano do insondável.

