Já se foi o disco-voador

Roberto Gomes Bolaños morreu num mundo que seus personagens não viveram. Fiquei sabendo da notícia, como talvez a maioria de seus fãs, pela internet. Li que seu último tweet foi para o Brasil, onde seus programas são exibidos há 30 anos. A enxurrada de homenagens e postagens nos mais diversos blogs, postais e redes sociais irão se somar a infinitos outros conteúdos criados na web a partir de seus personagens e programas, de vídeo-montagens dos episódios de chaves a memes de chapolin. Na internet suas obras continuarão a ser recriadas por tantos anos mais.

Nesta época de retromania vemos todos os dias o resgate, a reformulação ou a homenagem a produtos de entretenimento do passado. Semanalmente alguém postará em sua rede social algo como uma lista de brinquedos inesquecíveis de sua infância. Esse movimento ajuda em parte a reforçar aquele sentimento de posse com as referências de infância e juventude, o egoísmo geracional que se traduz no sentimento de “eu sou dessa época” — é aquilo que te faz ter orgulho de ter usado disquete e poder olhar de cima para a geração que nasceu num mundo de pen-drives. Queremos mostrar nossos ídolos do passado e nossas marcas de geração como parte de nossa identidade, o que torna as vezes um pouco difícil compartilhá-lhos.

Os personagens de Bolaños, contudo, são figuras capazes de borrar um pouco esses limites e diferenças de geração como poucas obras de entretenimento conseguem. .Hoje, aos 28 anos, posso compartilhar da graça de Chaves e Chapolin com pessoas na casa dos 30 ou dos 10. Talvez tenham sido as primeiras séries de TV que eu tenha sugerido a uma criança para assistir por terem feito parte da minha infância, tal como meu pai quando me apresentou o Agente 86 e Jornada nas Estrelas, ou minha mãe, quando falava da novela “Irmãos Coragem” (que eu acabei nunca vendo). Acho que ficarei até feliz quando encontrar que uma criança chateada com a morte de Bolaños. Para ela imagino — ao menos seria para mim se tivesse sua idade — não existe Bolaños, só Chaves e Chapolin, o que faz desta morte uma experiência um pouco mais fantástica.

Para quem já separou a realidade da ficção e portanto cresceu esta é uma notícia que não se encerra no fato que se conta. É o tipo de ocasião que te faz ver sua distância da infância, que acena pra você e te lembra de que você “está ficando velho”. A morte de um ídolo de infância é uma morte algo nostálgica e um dos episódios da longa transição para a vida adulta — que começa no momento em que a maioria dos jogadores do álbum da copa são mais novos que você.

É aí que os personagens de Bolaños parecem ter um outro poder, que é capacidade de também borrar a distância entre a nossa própria infância e vida adulta. Não é que ele nos faça “ser crianças de novo”, como diz o pegajoso chavão. Chaves ou Chapolin me divertem também como adulto. Gosto de assistir ainda hoje a estes programas, com os quais cresci, por esta conexão engraçada entre nostalgia e presente que eles me trazem. Rio hoje de piadas que não compreendia, percebo referências e me divirto até com o que hoje me soa piegas, e ao mesmo tempo lembro de mim mesmo, vendo aqueles mesmo episódios há anos atrás, vitorioso por convencer minha mãe a me deixar comer o macarrão na sala, prestes a perder o horário da escola. Gosto de perceber que parte das minhas expressões e do meu senso de humor vem dali. Rio com amigos quando lembramos os bordões e não choro mais quando vejo o episódio final de Acapulco.

E por isso não fico, afinal, triste de fato com a morte de Bolaños. Por fácil que a frase seja é fato que suas criações fazem em mim parte daquela juventude que nunca morrerá.

29 Nov. 2014

PS: este foi o primeiro vídeo que vi no Youtube com uma montagem de Chaves. até hoje um de meus favoritos:

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