O Maior Lançamento do Ano

Num domingo ganhei um barril de chope por visitar uma obra. E só não ganhei uma bola autografada por craque Neto, Zetti e Velloso porque não quis.

A história começa alguns dias antes. Numa das portarias da USP sou abordado por duas moças com panfletos. Como a entrada de pedestres é estreita, não dá pra escapar. Pego o papel, que pra minha surpresa vem acompanhando de uma barrinha de cereais Nutry de contraditório sabor: bolo de chocolate.

Feliz com a sobremesa garantida, resolvo olhar o flyer. É a divulgação de um novo condomínio de prédios ser inaugurado em São Paulo. Mais uma dessas propagandas inúteis para meus rendimentos. Mas ao começar a ler o papel, descubro estar de posse de um pequeno tesouro, uma carta dourada de Willy Wonka.

No domingo, no local do condomínio, o portador do panfleto terá a oportunidade de conhecer os ex-jogadores Zetti, Velloso e craque Neto, tirar fotos e pedir autógrafos numa das mini-bolas autografadas a serem distribuídas. Também poderá conhecer as delícias de um bar da região e ganhar um barril de 5 litros de chope Heineken. Basta estar com folheto e ser atendido por um corretor do “maior lançamento do ano”.

Com a benção dos deuses do brinde, descubro que o empreendimento (como também chamaremos a obra) fica a poucos de onde hoje moro na cidade. O programa do fim de semana está garantido.

Noto as letras miúdas. A abertura para atendimento será às 09h no domingo e haverá 80 barris de chope a serem distribuídos nesse dia. Calculo. Vou ter que escolher: ou chope Heineken, ou mini-bola autografada. Se eu chegar 14h, certeza que não vai ter mais chope. Melhor ir mais cedo.

Decidido, calço um sapatênis de meu pai, ajeito o cabelo, ponho uma camisa pólo bem passada. De barba aparada, meto o convite no bolso e me vou.

Na chegada noto que há um estacionamento com manobrista para os visitantes, já movimentado. Estou do lado oposto da avenida, e creio que será preciso pegar um Uber pra chegar na próxima faixa de pedestres. Preciso atravessar com confiança, na parte com menos mato no canteiro, pra não levantar suspeitas.

Cervejas artesanais ornamentam a entrada do salão. A hostess me recebe com simpatia. “Recebi este folheto e sou morador da região. Fiquei interessado e vim conhecer o empreendimento”. Rapidamente a moça toma nota de meu nome e meus documentos, e para minha tranquilidade troca o valioso panfleto por um vale-barril a ser resgatado no fim do atendimento. Ufa! Agora é só aproveitar o passeio.

Uma corretora aparece em 1 minuto para me acompanhar, igualmente simpática. Não é apenas uma visita, mas uma experiência imobiliário-publicitária que ocorre ali. Como a primeira fase das obras só terminará daqui a quase 3 anos, é preciso dar um jeito de mostrar ao cliente o que vai acontecer ali. O mercado imobiliário tem um conceito curioso de “lançamento”.

Começamos numa sala de vídeo, onde uma animação gráfica mostra ao longo de quase dois minutos todas as maravilhas que o condomínio poderá me oferecer. Acima da tela uma frase “uma homenagem a tudo o que você mais ama em São Paulo”.

Inúmeras piscinas, corredores de árvores frutíferas, parquinhos de criança, o indispensável espaço gourmet, salas de ginástica, uma imensa área de vegetação preservada numa das áreas mais arborizadas da cidade. Claro, a conveniência de um Mall logo na entrada. E o melhor, as torres ficam a 150 metros da rua, e só podem ser acessadas por uma rua particular.

Dali vamos para algo mais palpável, a maravilhosa maquete do empreendimento, que se destaca no salão como uma espécie de gigante peça de decoração. Eu a teria no meu imóvel.

Apenas duas das torres aparecem no cenário, cada uma do tamanho de uma criança bem nutrida de pelo menos 7 anos. Novamente podemos ver o quão longe estamos da rua! Noto um painel cheio de botões e pergunto de que se trata. “Aqui podemos acender as luzes. Veja”, diz a corretora. E todo um setor dos apartamentinhos se acende, para meu encanto infantil.

Já à vontade, apeto o botão “elevador sobe/desce” sem nem perguntar, para em completo espanto observar o próprio prédio se mover. “Isso é pra gente ver a área de lazer de cada torre com mais destaque”. Decido não perguntar se o recurso fará parte do produto final. Tenho que manter uma postura.

No caminho para um segundo salão, a corretora me conduz a um espaço próximo da grade onde começa a área de vegetação preservada. Há alguns dispositivos ali, junto à outra moça.

“Senhor, posicione os olhos aqui, segure com as mãos de ambos os lados. Quando a imagem aparecer, pode virar da esquerda para a direita”, diz a responsável pelos óculos de realidade virtual.

Coloco o rosto diante das lentes e eis que me aparece a imagem do empreendimento inteiro. As seis torres, a vegetação preservada, as quatro garagens. Giro os óculos da esquerda pra direita e vejo os imponentes 28 andares de cada torre sob céu azul fim de tarde. Em tamanho real.

“O senhor aceita água aromatizada com carambola ou chá mate com limão”, diz a moça da realidade virtual, logo que saio do dispositivo. Assim, direto. De um dos jarros grossos de vidro sobre uma carrocinha de madeira, ela me serve a água carambolizada.

No último salão a corretora me mostra as plantas das várias opções de imóveis. Já estou bem situado, então sinto que é hora de falar em valores. Já me adianto e pergunto. Como em todo bem que custa anos de parcelamento, o preço nunca é dito de forma explícita. A palavra “reais” nunca aparecerá. Nem mesmo os números são chamados por seus nomes completos.

“Trabalhamos com a faixa de seis e meio o metro. Mas a depender da proposta de financiamento, o senhor conversa com nosso gerente e podemos trabalhar esse valor”. Incapaz de saber se é bom negócio, apenas concordo e sigo o papo. Já sem muito mais a descobrir, conto um pouco da minha infância nesta região de São Paulo, como sinto que tudo mudou. A corretora fala um pouco de sua história.

Eis que um rapaz, representante do tal bar, posiciona do nada na mesa um pote com três salgados fritos, lindos, e pergunta se quero uma bebida. “Uma coca, água, cerveja? Um cafezinho talvez?”. Intimidado, decido não aceitar por ora. Ofereço os salgados a corretora, que gentilmente nega. O de carne seca era melhor que o de bacalhau.

O arsenal publicitário parece infinito. A corretora saca então um imenso catálogo com todos os detalhes que eu ainda possa não ter visto. Mapas mostram quão distante o móvel está de escolas, shoppings, rodovias, transporte público, supermercado, caso você encontre alguma razão para sair dali.

Na lista de diferenciais do condomínio, do reuso de água da chuva aos painéis solares, da piscina coberta ao espaço mulher, chama a atenção o “projeto toalha”, no qual a construtora fornece toalhas novas todos os dias a cada um dos operários da obra. Se sujar uma, troca por outra. “E é verdade isso mesmo. Eu fui a obra e vi”, conta a corretora.

Ao redor, mesas cheias de gente desfrutando os bolinhos e Stella Artois. Em uma ou outra rabiscam-se números grandes. As poucas crianças parecem desinteressadas da maquete ou dos óculos.

Bombardeado de informação, e com a barriga cheia, aceito enfim o espresso. Solidário com a corretora, decido preencher a ficha de cadastro final. Dou meu nome e meus documentos mais uma vez e deixo que se faça uma cópia de meu RG. “Profissão”? “Jornalista”. “Salário”? Melhor pular.

Na saída, decido participar da pesquisa de satisfação nas imensas telas touch. Outros na fila observam minhas respostas. “O que você achou da área de lazer”? Ótimo. “E do valor por imóvel do empreendimento”? Regular. Sigo a bateria imensa de questões, pulando várias, até que a tela pergunte “como você acha que a economia do país está no momento?”. Ruim. “como acha que estará daqui a seis meses. Pula. “Como está a sua situação financeira no momento?”. “Como acha que sua situação financeira estará daqui a seis meses”. Pula tudo.

Despeço-me da amável corretora, que ainda promete me mandar uma cópia do convite por WhatsApp caso eu queira voltar mais tarde para as mini-bolas e os jogadores. E sábado que vem tem visita ao decorado, ela lembra.

Recebo meu prêmio, enfim. Em verde metálico e reluzente, meus 5 litros de chope. Subo a pé as colinas do Morumbi vitorioso. Faltando duas quadras para minha casa ouço:

“Oh, moço. Eu quero um desse aí também” diz a moça com uniforme de outro empreendimento imobiliário, sentada com as colegas num ponto de táxi comendo ragazzones de almoço.

Explico a situação. Conto em poucas palavras minha breve aventura e a alegria da conquista.

“É, meu querido. Quem não chora não mama”

19 Mar. 2017 — Facebook

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