Sete, o número do azar

Os mistérios e lendas que rondam a “casa das sete mortes”

Por: Gabriel Andrade, Carolina Portela, David Vilasboas, Emily Oliveira, Flávia Requião e Rafaela Araújo

A casa das Sete Mortes | Foto: Roberto Nascimento/IPAC

Muita das pessoas que passam pelo solar de número 24 na antiga Rua do Passo, hoje Rua Ribeiro dos Santos, não sabem que aquele local é conhecido como a Casa das Sete Mortes, a casa ganhou esse nome depois de ter sido registrado um assassinato em série no casarão, porém o nome dado a casa é um tanto cômico já que ocorreram quatro mortes no local. Ninguém sabe exatamente a data em que a casa foi construída, mas algumas evidências sugerem que a mesma foi construída no século XVII.

Esta é a casa mais famosa da cidade de Salvador quando o assunto é acontecimentos sobrenaturais. Em 1755, ocorreu um crime que nunca foi desvendado, o mesmo foi registrado pelo o Tribunal de Justiça da época. O proprietário da residência, o Padre Manoel de Almeida Pereira, e mais três criados (um pardo forro e dois escravos) foram mortos dentro do local. No entanto, apesar dos rumores frequentes de que três suicídios aconteceram dentro da morada, as investigações sobre a casa só tem confirmado de fato registro de quatro mortes.

Antonio Paulo, funcionário do estacionamento localizado em frente ao sobrado conta um pouco da origem do nome Casa das Sete Mortes

Com o passar dos anos, a história foi passando de geração para geração e ganhando ainda mais forma. Pouco tempo atrás, houve relatos pelas redondezas de barulhos estranhos vindo do interior da casa. Unindo-se ao fato do lugar histórico onde ela se localiza, e toda a carga emocional que carrega logo a mesma criou a fama de mal assombrada, além das várias histórias sobre os crimes que começarem a surgir. Algumas pessoas dizem que devido a maus tratos, uma empregada resolveu se vingar, outros acreditam que as mortes estão ligadas a alguma tragédia amorosa. Mas, em várias das versões da história, acredita-se que as mortes foram por envenenamento, porém, mesmo com tantas especulações sobre o que realmente aconteceu naquela casa em 1755, ninguém nunca chegou a um veredicto final.

Mesmo com todas as mortes relatadas, em 1795 a D. Catarina de Senna da Silva Marinho se tornou a nova proprietária da casa e tempos depois, o novo proprietário Joaquim Esteves dos Santos, falece em 1881 deixando a casa para suas filhas Ana Inocência Esteves Alfama e Ernestina Esteve dos Santos Guimarães. Em 1936, a casa foi doada pela própria Ernestina para à Casa Pia e Colégio dos Órfãos de São Joaquim, o qual se mantém em funcionamento até hoje

Patrimônio Cultural

Tantas são as histórias que encontramos em vários cantos da cidade de Salvador, Bahia, e muitos também são os monumentos tidos como patrimônios históricos, que a capital baiana tem em seu território. No Pelourinho, ao final da esquina da Rua Passo, no número 24, encontramos a esquerda um desses monumentos, um imóvel restaurado e de valor histórico: “A Casa das Sete Mortes”. Uma das mais antigas de Salvador e do Brasil, e de suma importância, por ser a única do país que apresenta estruturas espaciais de influências portuguesas, inglesas e espanholas.

Tendo sótão, pátio com luminárias estilo década de 30, e com dois pavimentos, a casa logo em sua fachada chama a atenção pelos seus azulejos portugueses azuis e brancos, janelas antigas que nos remetem a uma mansão, e portas verdes que conversam com contraste dos azulejos. Recebido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional — Iphan em 1943, o reconhecimento de valor histórico, o casarão desde então foi morada de várias famílias, e desde sempre envolveu em mudanças e restaurações para manter a sua relevância arquitetural.

Porta principal da casa | Foto: Turismar

Dentre essas mudanças temos a primeira que foi em 23 de abril de 1795, realizada por dois engenheiros brasileiros, Joaquim Vieira da Silva Pires e Manuel Rodrigues Teixeira, que sinalizaram a necessidade de fazer um reforço na base da casa na região sul. A segunda, após dois anos em 3 de julho de 1797, sob a condução de um dos mesmos engenheiros, Joaquim Vieira da Silva Pires, que apontava a necessidade de uma construção de paredões visto que ao redor da casa tinha outras caídas.

Porta interna do casarão | Foto: Turismar
Azulejo da fachada estilo português | Foto: Turismar
Parte interna da casa com azulejos importados | Foto: Turismar

No ano de 1890, a casa sofreu outra reforma, mas voltada para a parte exterior dela, bem acima da porta principal. Nesse período foi assentados os azulejos do século XIX na sua fachada, os que são conhecidos pelo seu rico material estrangeiro. Já em 1947, após 4 anos do reconhecimento do Iphan, a cozinha e varanda do casarão foram desabadas, devido um deslizamento de terra. Os azulejos dos dois cômodos desapareceram, e os alicerces da casa ficaram em zona de perigo. O Iphan, tentando ressaltar os elementos construtivos da casa faz em 1965, obras de limpeza, consertos e pintura nos pavimentos. E pensando na valorização dos componentes da estrutura e no futuro artístico da residência, o Iphan em meados de 2006 começa a elaborar um plano de restauração, sendo que só em julho de 2008 se iniciou as obras, tendo á frente a empresa Sertenge.

Após anos de reforma, pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC) em conjunto com o Ministério do Turismo através de recursos por volta de mais R$ 3,1 milhões, do seu Programa de Desenvolvimento do Turismo no Nordeste (Prodetur 2), a revitalização da casa conseguiu suprir ainda mais a importância de ser um patrimônio histórico cultural. Com a presença do assentamento de azulejos azuis, brancos e amarelos da parte interna e externa, que faltaram e se perderam durante o tempo, com mármores de cores únicas, pisos refinados, rústicos, e tijolos de barro e cal. Concluída as obras em 2010, iniciou-se o Projeto ‘visitas guiadas”, pelo próprio IPAC, e muitas foram as pessoas que tiveram a sorte de serem guiadas pela a casa com presença de arquitetos historiadores ressaltando a importância de sua arquitetura.

Hoje o projeto “visitas guiadas” está um pouco esquecido pelos envolvidos da restauração, e a ida à casa para observar seus elementos artísticos e históricos, que funciona atualmente como um colégio, só é permitida com autorização da sede da escola localizada no bairro da calçada. Hoje a casa das sete mortes, logo em sua fachada nos lembra como o tempo passa mas os ruídos da história ficam, assim como seus azulejos chama atenção por quem passa por perto e muitas das vezes não sabe que tudo ali é patrimônio histórico. Faz parte da história.

Pessoas que participaram do Projeto” Visitas Guiadas” em 2010 | Foto: Ana Goís
Parte interna da casa perto do pátio| Foto: Ana Goís

Atualmente

Desde quando a Casa das Sete Mortes foi doada pela Viscondessa Ernestina Esteves dos Santos Guimarães à Casa Pia e Colégio dos Órfãos de São Joaquim, em 1936, a casa sofreu uma série de modificações.

Por conta de um desabamento, em 1947, que causou a destruição da cozinha, no ano de 1965, a casa recebeu obras de limpeza e pintura, orientadas pelo IPHAN. Já em 2006, houve a elaboração do projeto de restauração, encaminhado pelo IPAC. Em julho de 2008, começou a obre de restauração da casa, a cargo da empresa Sertenge. As obras foram concluídas em 2010 e recebeu o investimento de R$ 3,1 milhões.

Após esses acontecimentos, a Casa das Sete Mortes passou a ser reconhecida como uma das unidades da Casa Pia e Colégio dos Órfãos de São Joaquim, oferecendo ensino do primeiro ao quinto ano do ensino fundamental, como conta Suelington Texeira, que trabalha como segurança no sobrado.

Apesar da Casa das Sete Mortes conter uma história rodeada mortes, suicídios e ser considerada por muitos mal-assombrada, quem vive próximo a casa parece não se importar. Segundo Antônio Paulo, funcionário do estacionamento PareCar, localizado em frente casa, a história de quem entra no ambiente e escuta batidas de porta, sons de pegadas e visões de fantasmas é um mito. “Ouviu dizer, parece e deve ser são favores da vida não existem, não é exatidão.”, completou.

Antônio Paulo, ainda afirmou que os próprios moradores da região desconhecem a história e os trabalhadores que fazem a manutenção da casa à noite nunca ouviram e viram nada.

Já para Adélia de Jesus, que trabalha com costura na casa ao lado, as pessoas escutam sons por conta da “madeira de lei” (material que é feito parte de casa), e que depois de um certo tempo o material começa a “estalar”. A mesma defendeu seu ponto de vista, dizendo que nunca ouviu nada, mas que o som do vento passando pelas frestas da madeira realmente parece alguém gemendo, mas sem negar que o mundo espiritual, para ela, existe.

“Essas coisas do mundo espiritual acontecem, a gente não pode dizer que não existe. Pelourinho é lugar de sofrimento né?”, salienta. Adélia lembra ainda da história do pelourinho, onde o sobrado é localizado

“A gente, voltando pra os nossos antepassados, vê que a palavra pelourinho quer dizer lugar de sofrimento, então não deixa de ser um lugar de sofrimento, muita dor, derramamento de sangue. E a gente sabe que quando tem essas atuações malignas, isso deve repercutir e ficar ali. Eu acredito nisso daí”.
Adélia de Jesus trabalha há mais de 30 anos ao lado da Casa das sete mortes e lembra um pouco da história de sofrimento do pelourinho

Há quem diga que estas lendas já estão se perdendo e que a própria população não conhece a história do lugar. É o caso de Danilo Junior, que trabalha na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e cresceu no centro histórico ouvindo histórias e lendas “Aqui tem lugares cheio de história, e eu aprendi muito porque meus tios, que cresceram aqui, me falam. Mas isso acaba sumindo, essa memória está sendo realmente perdida”, para ele, essa perda e o desconhecimento da história local teria sido influenciada pelas reformas realizadas em todo o centro histórico.

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