Nota do exílio #3

Budapest

A distância tem essa capacidade de transmutar o espaço de terra em saudade. Absorvo, mesmo sabendo que já estávamos afastados. Tornam-se constantes esses feixes de memórias, tão dissociados do nosso presente. Caminho entre borrões multicolores, luzes de cidade noite, invocando frases de filmes antigos. Tropeços falhos em braços alheios. Afinal, é essa bondade no olhar do estranho que permite um instante de amparo. Despejo neles a fome sem nome. Despeço-me va-ga-ro-sa-men-te de antigos vestígios e até mesmo da sombra que um dia se fez. Renego esse perdão imposto. Não creio na absolvição de pecados em uma terra sem deus. E ao sair do calor do teu corpo, encontro a solidão de um deserto de sal que reflete o céu escuro da noite. Então corro até que o ar seja pensamento. Ali esqueço. Cada borrão se desfaz. Aqui, a palavra esvazia a memória. E da janela, coloco as que sobraram no restante de folhas que o vento tremula. Mas não fiquem tristes galhos secos, ergam-se perante a leveza de quem não carrega o peso do verão passado.