Nota do exílio #4

Quando se passa boa parte da vida sob aquele paralelo sul, o inverno em outro trópico compele à disputa. Sob teu olhar, meu corpo deseja. Não há tédio ou falta. É a ameaça de transbordar. Entrego-me ao jogo das forças — velar-me e desvelar-me. Chega mais perto, escuta a clareza do silêncio no toque da minha mão sobre tua pele. Não se deixe enganar pelos fantasmas do trópico de capricórnio. Insistentes em criar paraísos e sonhos em um mero mundo estático. Sigamos o fluxo da colisão do vermelho da minha boca com o quente da tua. Aquece minhas palavras para o sem lógica, porque minha matéria não é forjada em ferro. Porque não é o vento que marca e molda minha cara cansada. Porque não foi na terra por onde andei que vi a devastação, mas nos olhos famintos da inércia. E não há medo quando mergulho nas ondas sem-fim da tua nuca. Entre nessa liminaridade, entre. Lá está minha inadequação. Nesse estar no limite, no frio desse inverno, na voz grave que anseia docemente. Chega mais perto, escuta a clareza do silêncio no toque da minha mão sobre tua pele.