Sob o signo de capricórnio

Caminho sem rumo por essas areias brancas desse extremo sul do mundo, enquanto estás aí no extremo norte desse mesmo mundo. A festa acabou e eu ainda queria mais um gole daquele champanhe. Mas só no silêncio consigo colocar ordem nessa desordem que anda por aqui. No horizonte vejo o nascer das cores desse fim de madrugada. O corpo suado, as calças molhadas pela areia úmida e a visão meio turva como esses mares daqui.

As primeiras seis horas do ano se passaram e já parecem eternas nessas noites quentes de verão. Todos perguntaram por ti e sem saber o que dizer sorri. Deveria ter sorrido antes. Se me arrependo de algo? Despi-me de todas as mágoas e encontrei essa interrogação travestida de sentimento grudada pelos cantos. Sigamos, repito todas as noites enquanto relembro teus sorrisos e alimento o demônio com tórridas histórias que já não sei se vivi. Então te vais pelas beiradas e desintegra um sonho possível.

O mar já não parece como antigamente. Deve ser essa falta que tu me fazes. E te vejo tão grande nesse mundo que criei que não sei se tem espaço para mim. Então, quando o tilintar de taças some, sento nesse chão que parecia não existir a poucos instantes. Olho para essa água sem fim e por alguns instantes te perco na imensidão. Queria te ver. Porque coisas precisam ser ditas. E se não falar esse silêncio negro consumirá todas as cores.

Já sob esse sol de capricórnio sinto minha pele queimar nesse inferno do extremo sul ou de qualquer outro lugar. Quero-te aqui. Quero-te agora. Fulminando-me com essa dor que vaza por esses olhos indecisos. Cinzas. Azuis. Verdes. Tão indecifráveis quanto teus pensamentos.

Levanto em busca dos sapatos jogados longe, do paletó e de tudo que esse mar parece levar e trazer. Quero voltar para casa. Cansei desse jogo de gato e rato. E como se tivesses me escutado, entro no carro e vou em direção ao teu extremo norte desse mundo que eu criei. Sorrindo.