Amarelo | Bojack não é solução, mas é uma alternativa de como lidar com a depressão

Junno Sena
Sep 6, 2018 · 3 min read

“Você acha que é tarde demais para mim?”, pergunta Bojack Horseman para Diane, esperando alguma confirmação, sinal de fumaça, luz, resposta de que tudo que ele fez até ali não foi em vão. Que a dor nas costas e o sofrimento no peito são temporários, que a bebida que o anestesia não é a única resposta. E mesmo que em cinco temporadas todas as ações de Bojack nos diga: “É, talvez seja tarde demais”, a falta de um final feliz, da plenitude, de uma vida calma é o que nos faz entender que nunca é tarde demais para tentar.

A animação original da Netflix está longe de ser sobre curar nossos anseios, mas sim sobre aceitar as pequenas imperfeições que ironicamente, nos fazem perfeitos. Bojack é sobre um homem-cavalo fracassado em busca de fama para preencher suas dores, seus traumas, seus medos. Mas também é sobre um fracasso tão profundo que o empurra para uma autoaceitação.

Infelizmente, mesmo entre cães, gatos, coelhos e humanos, Bojack é o que há de mais real em nossa sociedade. Ele é o abraço apertado com essa depressão que tanto temos medo de pronunciar. Ele é a libertação de valores tão intrínsecos a nós que ao invés de dizer que está tudo bem, aceita seus desastres e fica mal por eles, mas sem o medo constante dessa dor ser um problema.

E isso é mostrado claramente temporadas depois quando Diane, no fundo de seu próprio poço, diz: “Não acredito que estou chorando. Que idiotice”. E ele responde: “Não se sinta mal por se sentir mal”. Não se trata de ignorar a dor. De enterrar e suprimir sentimentos. De se esconder dentro de si. Mas de aceitar a si mesmo e saber conviver com si mesmo.

Sensação que é irônica quando se observa a vida de Bojack. Morando em uma mansão, com seus melhores amigos sempre ao seu redor e festas repletas de “amigos, de amigos, de amigos”. Bojack nunca está sozinho. E manter o espaço conturbado, barulhento e sonoro algumas vezes é a única alternativa para ele conseguir se “aturar”.

Não só isso, mas também para se provar que a felicidade existe. Que, por ele ser “mais esperto” que todos ao seu redor, então talvez seja possível descobrir um jeito de ser feliz que nem eles. Ele procura por uma prova social e até tenta roubar a felicidade dos que estão a sua volta, apenas para descobrir que não é tão fácil assim.

“É, acho que algumas pessoas tem temperamentos diferentes e seu nível de felicidade é maior que de outras pessoas. Mas Todd também tem seus momentos de melancolia, assim como Mr. Peanutbutter. Esses momentos sombrios. E eles estão lutando assim como todo mundo, e talvez parte de suas lutas sejam mais fáceis em certos modos, mas mais difíceis em outros.”

Raphael Bob-Waksberg, criador da série

É difícil descrever Bojack. Ele é invejoso, cheio de si, ciumento, uma pessoa ruim em cada aspecto possível. Mas é isso que o torna tão próximo. Ele é o lado obscuro que guardamos em nosso travesseiro. Ele é o medo intenso que nos faz sentir frio mesmo estando quente. Ele é a possibilidade de um futuro que não queremos.

E mesmo assim, novamente, ele também representa autoaceitação. Nos mostra que tudo pode estar muito ruim — ruim mesmo -, mas que ainda terá um amanhã e os problemas de hoje, bem, talvez se tornem menores nesse novo dia.


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Aqui, cada assunto se torna uma discussão social e política, simplesmente por que existir é um ato político. E fazer o reCORTE certo, é reVOLUCIONÁRIO.

Junno Sena

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Apenas um escritor, jornalista e designer tentando encontrar um rumo.

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