Crítica | Parasite é uma história universal sobre um male universal

Junno Sena
Nov 6 · 3 min read

Algumas histórias parecem ecoar de tempos em tempos no cinema. Seja com o amante invisível de Kim Ki Duk em Casa Vazia; seja com uma existência enterrada nos EUA criada por Jordan Peele em Nós; seja com uma família parasitando uma vida que nunca poderia ser sua em Parasite de Bong Joon Ho. Não é novidade que o mundo vive em extremos. Sejam políticos ou sociais, os mais ricos ficam cada vez mais ricos e os mais pobres, cada vez mais pobres e é nessa realidade, tão comum e global que encontramos Parasite.

Protagonizado por Song Kang-ho, o Robert de Niro do Martin Scorcese de Bong Joon Ho, e sua família desempregada; acompanhamos o filho Ki-woo se tornar o tutor de uma garota de uma família rica. Aos poucos, cada membro da família de Ki-woo consegue um lugar no coração da casa através de mentiras que irão custar caro a todos da trama. E com tantos absurdos, talvez o mais chocante é como essa história poderia ser contada em qualquer lugar.

A Coréia aqui se torna apenas uma eventualidade narrativa devido a nacionalidade do diretor e da produção, mas a forma como os personagens se tratam é uma resposta a como a desigualdade fala mais alto do que espaços temporais e de lugar. Os arquétipos aqui apresentados já são muito conhecidos. O jovem estudioso que viu a vida profissional ir por água abaixo por falta de dinheiro; a garota sem perspectiva de futuro; os pais que gostariam de dar o melhor para os filhos, mas que antes precisam colocar a comida na mesa.

Do outro lado, realidades que não entendem o que é acordar antes do sol nascer para chegar no horário. Que vivem absortos em privilégios que não os entendem mais desta forma. E se já não bastasse o tom de crítica já tão conhecido de Bong Joon Ho em outros filmes, como Okja e até mesmo O Hospedeiro, o diretor também traz um sorriso amargo com uma comédia que evidencia não apenas os erros da sociedade, mas as suas discrepâncias.

Seja com o corre-corre generalizado para não descobrirem o que escondem, seja com a cena de abertura em que a família tenta encontrar um lugar da casa para roubar o wi-fi do vizinho. Toda a comédia e desespero leva a apenas um caminho. Tão similar quanto quando a família retorna para casa, descendo as ruas, indo cada vez mais baixo, até não ter para onde ir.

O longa de Bong Joon-Ho parece ser milimetricamente pensado. Mesmo com o excesso de reviravoltas — algo que quem conhece e consome o cinema sul coreano já deve estar acostumado — tudo parece ter sido muito bem pensado e amarrado. Desde a introdução de elementos visuais que irão criar poesia visual entre enredo e personagens até o choque de descobrir segredos que pareciam impossíveis de existir.

Fora o trabalho de Song Kang-ho, o pai da família, todo o resto do elenco possui uma química que se torna a cereja do bolo. Vemos isso com o olhar cínico de Park So-dam (Goblin), a filha; a ingenuidade de Choi Woo-shik (Invasão Zumbi) e na raiva pouco controlada de Jung Eun-ji (Hell is Other People), a mãe.

Parasite parece vir junto com uma leva de filmes que estão cada vez mais dispostos a mostrar os erros sociais e o que deve ser mudado de agora em diante. Assim como Bacurau, Nós e até mesmo Coringa, essas narrativas se tornam não apenas bom entretenimento, mas também essenciais para se entender para onde o mundo está caminhando. Ou para onde deveríamos deixar de ir.

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Aqui, cada assunto se torna uma discussão social e política, simplesmente por que existir é um ato político. E fazer o reCORTE certo, é reVOLUCIONÁRIO.

Junno Sena

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Apenas um escritor, jornalista e designer tentando encontrar um rumo.

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