A necessidade de ser feliz

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Jul 27, 2017 · 4 min read

Uma realidade quase que distópica

Foto: pixabay

Aline Marinho

O que é felicidade para você? Já parou para imaginar?

A felicidade é tão subjetiva, mas assim como o amor, as pessoas gostam de regrá-la. O conceito de felicidade, atualmente, está ligado a realizações pessoas: ter um bom emprego, casa, carro, relacionamento estável e filhos. Claro, a felicidade deve estar ligada a realizações pessoais, mas, na maioria das vezes, são cumpridas única e exclusivamente para saciar o desejo alheio.

A ideia parece absurda? Vejamos os fatos:

Quando estamos na escola, nossas mães, geralmente, costumam dizer: “filhx, tem que estudar para ficar inteligente e ter um bom emprego no futuro”. Nós somos condicionados a isso desde crianças, percebam.

Outro exemplo: Quando chegamos à adolescência, nossas tias e tios soltam aquele velho — e chato — bordão: “e xs namoradinhxs”?

Na vida adulta, não é diferente. Quando chega a hora de decidir a futura profissão, escolhemos o que dá dinheiro, não prazer, porque o que dá prazer, geralmente, “não está ligado a um futuro promissor” — e digo isso por experiência própria.

Nós somos podados, muitas vezes, dos nossos próprios desejos para saciar a sociedade. Afinal, a máquina precisa continuar a funcionar. O que seria do sistema se as pessoas só quisessem viajar? O que seria do sistema, se as pessoas quisessem ficar em suas próprias casas criando seus próprios utensílios sem colaborar com a grande máquina pública? Não é vantajoso para eles — e consequentemente, acaba não sendo vantajoso para nós. É um ciclo sem fim.

A busca pela felicidade, baseada em alguns itens, torna-se, muitas vezes, frustrante. As pessoas correm atrás de “seus sonhos” diariamente e, quando não conquistam, ficam a mercê de uma tristeza sem fim — e daí, gera outro problema. A busca pela felicidade torna a tristeza praticamente inaceitável. Parece, atualmente, que é proibido ficar triste, principalmente se você tem uma vida consideravelmente boa. “Ora, não há motivo para tristeza, você tem tudo”, quantas vezes você já não ouviu essa frase?

Mas será que você tem tudo? Já parou para refletir sobre isso? Você está realmente feliz com seu trabalho, com seu relacionamento, com as suas projeções de vida ou você apenas aceita a realidade porque dá muito trabalho correr atrás do que você realmente quer?

Na verdade, não é nem trabalho correr atrás do que quer, é um risco — e dos grandes. Se você segue na contramão do que a maioria da sociedade diz ser certo, você é tido como louco, ignorante, ou, até mesmo, preguiçoso. Isso é tão errado. Voltando ao início do texto: a felicidade é subjetiva, o que é bom para mim, pode não ser para você.

Fico refletindo e chego à conclusão de que estamos, realmente, em uma sociedade muito parecida do que descreveu Aldous Huxley em seu famoso livro “Admirável Mundo Novo”, escrito em 1931 e publicado em 1932. Em sua obra distópica, Huxley fala sobre uma sociedade onde as pessoas não são mais gerada pela união de um casal, mas por vontade do governo. As pessoas são criadas, especificamente, para determinadas tarefas, elas são condicionadas a isso desde crianças, são condicionadas, inclusive, ao consumo.

A sociedade é dividida em castas: Alfa, Beta, Gama, Delta e Ípsolon — sendo os Alfas a “espécie de melhor qualidade” e os Ípsolon’s, de “pior qualidade”. Cada um tem sua função na sociedade e todos são obrigados — sim, são obrigados — a ter uma felicidade plena. Vejamos uma pequena passagem, no momento que o Sr. Foster, apresenta as Salas de Fecundação, onde são criadas as pessoas:

“E esse — interveio sentenciosamente o Diretor — é o segredo da felicidade e da virtude: amar o que se é obrigado a fazer. Tal é a finalidade de todo o condicionamento: fazer as pessoas amarem o destino social a que não podem escapar”.

Esse livro magnífico foi escrito em 1931 e é tão real que, às vezes, chega assusta. É isso o que fazemos hoje em dia, somos “felizes” com o destino social que, teoricamente, não podemos escapar e isso é tão injusto. Vou bater na tecla que a felicidade e subjetiva e se todos seguissem, de fato, o que realmente os fazem felizes, o mundo estaria perdido. Digo isso, pois nada funcionaria da mesma maneira que é hoje.

Mas como a felicidade plena é difícil, a frustração se faz presente e isso gera centenas de outros problemas: frustração, crise de ansiedade, depressão. É uma bola de neve descontrolada que tem ficado cada vez maior a cada ano. Não é a toa que, segundo o que dizem, o “mal do século” é a depressão. Ora, as pessoas estão frustradas por não conquistarem o que “desejam” — consequentemente, acabam entrando em uma tristeza sem fim — o que gera doenças psicossociais devastadoras. E pense — e repense — três vezes antes de falar que esses distúrbios são “frescura”, porque não são. A saúde mental, assim como a física, deve ser levada a sério — e muito a sério. A felicidade é boa, mas a tristeza não pode ser condenada.

Você já parou para pensar o que te faz feliz hoje? Seus gostos, suas roupas, suas escolhas são, verdadeiramente, baseadas no que diz respeito a sua vida ou você busca — inconscientemente — referências no restante da sociedade?

Pense nisso!

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