Amor regrado

E os manuais de como amar

Divulgação — Pixabay

Aline Marinho

Recentemente me deparei com um livro chamado “Diário do Amor Inteligente”, escrito por Renato e Cristiana Cardoso, aquele casal do Namoro Blindado, da TV Record. Nas livrarias, o exemplar sai, em média, por R$ 31,00 — um preço até que alto, considerando o teor da obra.

Não entrarei no mérito de que o casal é financiado pela Igreja Universal e nem que a essência do livro é, basicamente, influenciada pela religião evangélica. O meu incomodo principal está relacionado ao formato: um manual de como encontrar a pessoa “certa”, digamos assim. O livro — que é bonito, por sinal, bem colorido, com capa dura e folhas com ótima textura — traz ao leitor algumas receitas e dicas de como ter um relacionamento saudável e duradouro.

Percebam, o amor virou uma mercadoria. Nunca Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, esteve tão certo. As relações humanas estão líquidas porque há manuais de instruções a serem seguidos que, quando não suprem as expectativas, acabam se tornando grandes frustrações.

Eu, particularmente, fico observando alguns casais e me dá agonia de como está tudo muito engessado. Atualmente, para você ter um relacionamento sério, algumas premissas devem ser cumpridas para mostrar à sociedade que aquilo, de fato, é algo concreto. E não digo, apenas, das declarações feitas no facebook. Há uma necessidade de constante felicidade, caso contrário, tudo estará fadado ao fracasso. Há uma necessidade constante de declarações e provas de amor, caso contrário, o relacionamento não está bem. Há uma necessidade constante de dizer “eu te amo”, quando poucos percebem que, às vezes, o verdadeiro significado do termo está em um gesto, e não em palavras ditas em alto e bom som.

Tempos atrás escrevi uma crônica sobre o amor dizendo que o sentimento não deveria ser definido, apenas sentido, pois não há explicações concretas, não há manuais de instrução, não há pessoas perfeitas, tudo isso faz parte de uma grande ilusão. Por muito tempo, confesso, pensei que o amor não existia, que era só mais uma criação da humanidade para controle da população — aquelas velhas teorias da conspiração que surgem sem mais nem menos na cabeça durante madrugadas de insônia. Mas tudo isso era angústia e frustração por nunca ter conquistado — ou vivido — aquelas belas histórias de amor que cresci lendo e vendo em filmes. Isso frustra, isso cansa, isso desanima. Esperamos muito, quando o essencial vem do pouco, do básico, do simples, do praticamente invisível.

Quando a gente sente, verdadeiramente, algo por alguém, a boca cala e o corpo sente e sente de uma maneira estarrecedora — cada um de sua forma. E não julguem, vocês, que amor só é amor quando é recíproco ou quando um casal está plenamente feliz. É possível amar sozinho, embora seja doloroso, mas quando há a percepção do poder transformador que ele tem, se torna algo gratificante, porque houve permissão, reconhecimento de si próprio e amadurecimento. Amor unilateral não é uma vergonha, é uma dádiva, porque você aprende a valorizar outros pequenos detalhes, por mais difícil e incompreensível que isso possa parecer. Existem pessoas que simplesmente não foram feitas para ficar juntas, mas a energia não pode ser desperdiçada, há muito mais do que reciprocidade envolvendo dois corpos: há amizade, há companheirismo, há apoio, há compreensão.

Por esses e outros motivos, quando me deparo com esses tipos de livro, fico pensando em quão banalizado esse sentimento tão bonito está.

Para quem não conhece a capa do livro, aqui está:

Divulgação

Novamente, a minha crítica serve para todos os livros que tratam o amor como negócio. Porém, há quem goste e leve como ensinamento.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.