Falta consciência na crise da ciência

Poderia concluir o texto simplesmente dizendo como foi atrasada e despretensiosa a reportagem de domingo, 16/07/2017, no Fantástico. Ok, tocou em alguns pontos bacanas sobre pesquisas no Brasil e a precária manutenção das estruturas nas universidades, mas uma manchete que inclui “Crise e cortes de orçamento” deveria explorar melhor a motivação e o balanço econômico das universidades, minimamente, fazer comparações com investimentos praticados por outros países.

Citam a Coréia do Sul e China ultrapassando o Brasil nas últimas décadas em termos de ciência e tecnologia, mas foi pouco. Faltou conscientizar mais pessoas sobre a importância do desenvolvimento científico e o quanto de verba é destinado pelo atual ministério de ciência, tecnologia, inovação e comunicação - MCTIC (em alguns anos, poderão remover esse “I”!) em comparação ao investido no exterior.

Típico de reportagens superficiais (lembra do caso da “espetacular” pirâmide que levita ?! Supercondutores, filho… só que ninguém foi apresentado), não surpreendeu ninguém e não tocou no cerne da questão.

A reportagem foi baseada no artigo da consagrada revista Nature em 03/04/2017 (clique aqui), onde toma forma o corte de 44% e a “exportação” de pesquisadores brasileiros. O valor investido corresponde a 0,05% do PIB brasileiro, quando em 2013 chegou a 1,2%. Comparado a outros países, temos a relação com PIB no México 1,1%, Coréia do Sul 5%, Índia 0,3%, Argentina 0,6%, Nigéria 3% e Uganda 0,1%. Investimos proporcionalmente menos que Uganda.

Créditos da imagem: Nature

Independente da conjuntura econômica, investir menos em C&T implica em menores chances de mudar a realidade do país. Inclusive, qualquer que seja a iniciativa privada ou pública a investir, incentivos devem ser incorporados à política de estado de forma a garantir recursos humanos e tecnológicos preparados para a atualidade e futuro.

E fatalmente, a escolha assertiva de política de estado dificilmente existirá sem um estado politizado. Essa tendência pode tornar-nos mais dependentes e consumidores dos produtos manufaturados mundo afora.

Se alguém acredita ainda que ser país desenvolvido tem relação com a forma de colonização de séculos passados, não se iluda. Países desenvolvidos inovam e sem C&T é praticamente impossível se desenvolver.

Das ciências básicas, a química tem papel fundamental no desenvolvimento da indústria. Recordo dos artigos que li há duas semanas na revista Química Nova, da Sociedade Brasileira de Química, que comemora 40 anos em 2017 — época amarga — e resolveu publicar dezessete artigos sobre a trajetória da química no desenvolvimento de C&T no Brasil.

Em um deles, o presidente da SBQ Aldo J. G. Zarbin, escreve seu discurso de maio/2016: “a grande comunidade da Química brasileira precisa entender definitivamente que não há uma ciência forte sem uma Sociedade Científica forte por detrás. As centenárias Royal Society of Chemistry e American Chemical Society, com seus mais de 150.000 sócios, são exemplos claros da inequívoca correlação entre a qualidade da Química que se faz em um país e a grandiosidade da sociedade que a representa. Não seremos fortes, enquanto químicos, sem uma SBQ forte e representativa. Para isso é preciso que todos os atores estejam unidos. É preciso que a comunidade química brasileira, na sua totalidade, se veja na SBQ.”

As submissões de artigos de pesquisas a SBQ, desde de março/2016, passaram a ser taxadas. Foi a maneira que a organização encontrou de manter-se sustentável e divulgar gratuitamente seu conteúdo à comunidade de C&T. Os autores pagam para divulgar seus trabalhos nesta revista genuinamente brasileira, enquanto nas revistas da americana Energy&Fuels as pesquisas concorrem entre si e há cobrança de assinatura. Sem taxas, artigos relevante indexados e com maior fator de impacto para currículo, claramente os pesquisadores a procuram frequentemente para publicar resultados mais expressivos, abandonando definitivamente o país e contrariando o discurso do presidente da SBQ.

São muitos os obstáculos enfrentados por cientistas brasileiros. O Brasil não passa por uma crise, na verdade, passou por um período de estabilidade, agora voltou a anormal normalidade. As flutuações em políticas públicas de C&T são constantes e no geral prejudiciais, enquanto a consciência coletiva permanecer insensível a causa e os bons pesquisadores escaparem por entre crises, continuaremos na República da banana, encalhados no litoral tropical e ingenuamente …

… Felizes pelo carnaval e pelo pão nosso de cada dia.

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